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A CIVILIZAÇÃO RETROCEDE, A VIDA SELVAGEM PERSISTE – por Deserto


A CIVILIZAÇÃO RETROCEDE, A VIDA SELVAGEM PERSISTE[1]

Encontrei-me com um viajante de um antigo país
Que disse: Duas enormes pernas de pedra sem corpo
Estão de pé no deserto… Perto delas, na areia,
Meio enterrado, está um rosto partido, cuja expressão
E os sulcos nos lábios, a arrogância fria de mando no olhar,
Faz notar que seu escultor bem soube ler aquelas paixões,
Que ainda sobrevivem, estampadas nestas coisas sem vida,
A mão que as imitou, e o coração que às nutria.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Desesperai, ó grandes, vendo minhas obras!”
Nada mais resta em torno da derrocada
Daquele colossal destroço, ilimitada e sem proteção
Só a areia se estende no plano ermo da tal imensidão.
Ozymandias, Percy Bysshe Shelley, 1817

 
Impérios espalham desertos nos quais não podem sobreviver
 
Você pode ler nas ruínas de Ur e Mu Us, nos campos desertificados de Wadi Faynan [78][2] e nos vales de Techuacán e zeks [N.T. 3]. [79] “Os impérios espalham desertos nos quais não podem sobreviver.” Invasões, insurreições e deserções muitas vezes marcam a queda de civilizações, mas a base real para a sua destruição sempre foi gerada por suas próprias lideranças, trabalhadores e zeks [N.T. 3]. Estamos todas trabalhando para a destruição das nossas civilizações. [80]
“O homem civilizado tem marchado por toda a face da terra e deixado um deserto em suas pegadas.” [81]
Não se sabe com que magnitude o aquecimento global causará a expansão dos desertos quentes, mas que irá acontecer – e drasticamente – é algo em que podemos apostar com bastante segurança. A interação entre solo, clima e poder civil continuará a ser um fator dominante determinando tanto a história quanto a abertura do território para vidas mais livres. Os sistemas agrícolas irão fracassar à medida em que as terras áridas se espalharem, o que significa que, mais uma vez, as civilizações terão que recuar em muita das terras anteriormente conquistadas. Em alguns locais isto será total, em outros será uma questão de grau.

Em minha língua materna, desertos são inabitáveis, abandonados, desertados; mas por quem? Não por coiotes ou por carriças de cactos. Não pelas formigas cortadeiras ou pelas cascavéis. Não pelas cabras selvagens, as acácias, o cortisol e os cangurus vermelhos. Desertos e ambientes áridos geralmente são, muitas vezes, biologicamente diversificados, embora, pela sua natureza, a vida é mais escassa neles do que em outros biomas. Apesar de algumas áreas desérticas terem pouca vida, em outras a maioria das comunidades de animais, pássaros, insetos, bactérias e plantas, correm, voam, rastejam, se espalham e se desenvolvem sem ordem alguma, não domesticados pela civilização. A vida selvagem está em nós e ao nosso redor. A batalha para contê-la e controlá-la é o trabalho constante da civilização. Quando ela perde essa batalha e as terras ficam desertas a selvageria persiste.
Por trás da areia, entretanto, sob o céu assombrado pelos abutres, o deserto espera planícies, morros, desfiladeiros, recifes, charcos, escarpas, pináculos, labirintos, lagos secos, dunas de areia e montanhas estéreis. [82]

Liberdades nômades e o colapso da agricultura

Lembro de mim sentado sobre a terra vermelha, sob o sol quente, o vento fraco, o silêncio do deserto era absoluto… ou teria sido se não fosse, é claro, por toda a falação de seus habitantes. Há pessoas lá, nem todos os desertos são inabitáveis, ainda que para os Estados a produção de algum excedente seja quase impossível. A escassez de vida favorece o nomadismo seja por pastores, coletores, viajantes ou comerciantes. Ninguém pode viver esta vida sem ser alterado. Será levada, ainda que de leve, a marca do deserto, a marca que caracteriza o nômade. [83]
Embora a concentração de poder possa surgir em qualquer sociedade com algum nível de domesticação, em geral, quanto mais nômade um povo é mais ele é suscetível à independência. Os governos sabem isso, como pode ser testemunhado pelas tentativas generalizadas de “sedentarizar” os povos nômades do deserto. Seja a sobrevivência obstinada de modos de vida aborígenes na Austrália, [84] a resistência intransigente dos apaches liderados por Victorio ou a recente insurreição Tuaregue no deserto do Saara, os povos nômades são, muitas vezes, adeptos da luta e/ou da fuga.

Helene Claudot-Hawad diz em uma discussão sobre o conflito tuaregue com Estados modernos que: “as fronteiras entre os Estados têm, por definição, uma linha fixa, imóvel e intangível, e são propositalmente feitas para não serem transgredidas. Separam o que supõem serem entidades mutuamente opostas.” [85] A independência de nômades resistentes muitas vezes é misturada com uma descrença prática em fronteiras, o que se torna uma ameaça para a base ideológica dos governos.

O aquecimento global irá estimular transformações nos usos humanos da terra. Como observado no capítulo anterior, em alguns lugares, populações campesinas auto-suficientes provavelmente substituirão a monocultura voltada à exportação, enquanto em outros lugares, cultivos e plantações podem ser substituídos pela pecuária. Nas zonas áridas em expansão uma boa proporção dos que se adaptarem com sucesso poderá fazê-lo abraçando as liberdades nômades e a subsistência pastoral transumante. [86] Em outras, pastoras nômades e agricultoras podem voltar para a caça-coleta.

Pela maior parte da nossa existência enquanto espécie, todas nós éramos forrageadoras e o deserto foi a nossa casa. Sociedades de caça-coleta estão entre as mais igualitárias da Terra [87] e onde tais culturas sobreviveram aos tempos modernos, elas têm feito isso em áreas distantes do poder centralizado e muitas vezes inadequadas para a agricultura. Por exemplo, o povo Spinifex do Grande Deserto Victoria tem sido capaz de manter sua vida tradicional, apesar do advento da Austrália, mesmo suas terras sendo tão estéreis que são inadequadas até mesmo para o pastoreio. [88] O povo Kung também consegue viver bem e livre por meio da caça-coleta em um ambiente muito hostil – o Kalahari. [89]

Quando as sociedades agrícolas enfrentam extrema escassez de alimentos ou violência externa, o forrageamento é uma estratégia adaptativa recorrente. Por vezes isso pode ser temporário, em outras, permanente. Assim, com a disseminação da desertificação podemos ver, em alguns lugares, uma propagação da deserção da civilização para algo parecido com a nossa vida selvagem anarquista inicial. Novos bandos inteiros de forrageiras podem evoluir após os colapsos da viabilidade agrícola e do retrocesso dos excessivos poderes dos Estados enriquecidos pela energia. Dada a condição atual de muitas pastoras e forrageiras de zonas áridas, é mais provável que, na maioria dos casos, veremos o hibridismo: um aumento das populações nômades autônomas baseando-se tanto em animais de pastoreio quanto em forrageamento.

Cortiçois e o creosotos

Em um nível mais geral, algumas daquelas pessoas que têm um anseio pela vida selvagem e têm a necessidade de se libertar da autoridade tem gravitado rumo às fronteiras, frequentemente, para desertos quentes e regiões semi-áridas.
Enquanto caminho na terna primavera
Ouço o chamado penetrante de suas ruas, Ó, Deserto!
Devo deixar minha casa na triste colina
Que triste são outras terras comparadas à você, Ó Deserto!
Seidi, poeta turco do século XIX

Estes territórios já existem – e cada vez mais – em várias regiões. Inclusive aquelas que vivem dentro dos limites das supostas potências mundiais irão vê-las crescerem dentro de suas fronteiras. Nas zonas do sul da Europa onde a água se torna escassa, fazendas e povoados abandonados têm sido repovoados por anarquistas, hippies, cultistas e outros que desejam se livrar da vigilância autoritária e da prisão do trabalho assalariado. Existem “deserções” similares no seco coração da Austrália e nos desertos do oeste da América do Norte. É importante destacar que aqui as comunidades indígenas persistem ou se re-estabelecem. A antiga estratégia de sobrevivência indígena – “nós estávamos aqui antes e estaremos aqui depois” – pode ser frutífera no deserto. Como numerosas lutas contemporâneas ilustram, anarquistas e povos nativos podem firmar boas alianças.

Algumas das mais antigas comunidades vivem em desertos. No Mojave há uma colônia clonal de arbustos creosotos que tem se expandido lentamente cuja idade é estimada em 11.700 anos. Testes genéticos recentes indicam que os bosquímanos do Kalahari são, provavelmente, a mais antiga população de seres humanos na Terra. [90] Essas comunidades – tanto de plantas como de humanos – são estimulantes exemplos de resiliência; apesar de que, mesmo tendo sobrevivido milênios nos desertos quentes, elas podem não sobreviver ao deserto cultural que ainda está se espalhando. O anel dos antigos arbustos creosotos fica bem próximo ao chão e cresce em uma terra que a US Bureau of Land Management (Agência de Administração da Terra – EUA) designou “para uso recreativo de veículos de tração nas quatro rodas.” [91] O governo de Botsuana tem retirado à força muitas bosquímanas de suas terras para realocá-las em esquálidos campos de reassentamento, aparentemente para possibilitar a mineração de diamantes. [92] Para os povos livres e para a natureza selvagem, o habitat mais ameaçador de todos é o deserto cultural.

Em linhas gerais, à medida que o planeta esquenta, devemos nos lembrar das liberdades nômades dos povos pastores e forrageiros, o refúgio dos povos aborígenes e dos indivíduos desertores renegados bem como os habitats em expansão da flora e fauna do deserto. A expansão das zonas áridas irá trazer possibilidades positivas, apesar da tristeza de fazer de nós testemunha da extinção de habitats exuberantes. [93] Ainda assim, pode haver primavera no deserto. Já mencionei as possibilidades abertas pela disseminação de desertos quentes, mas é claro que existem outras que se fecham. Até mesmo algumas culturas relativamente anárquicas sobre as – ou além das – fronteiras do deserto se tornarão inviáveis. Espécies serão extintas. Enquanto muitas sobreviverão nas terras do deserto em expansão muitas vão optar por fugir do calor. Algumas dessas migrações – até certo ponto, isso já está acontecendo – serão intranacionais, mas muitas serão internacionais.

No mundo árido e quente, os sobreviventes se reúnem para empreender a viagem para os centros árticos da civilização; Vejo-os no deserto quando desponta o amanhecer e o sol lança seu olhar penetrante em todo o horizonte do acampamento. O ar fresco da noite fria permanece por um tempo e, em seguida, como a fumaça, se dissipa enquanto o calor se impõe… [94]

Estas são algumas das últimas palavras de Lovelock em A Vingança de Gaia. À medida que os desertos quentes se expandem e grande parte da civilização e da humanidade foge e/ou morre, o que poderemos dizer sobre os desertos frios; e sobre o novo “centro ártico da civilização”?

 


 

Fonte: Desert
Tradução: Ctenomys, 2015
Tradução completa do livro: http://pt.protopia.at/wiki/Deserto

 

[1] Tradução do capítulo 5 à partir da versão em inglês do livro ‘Desert’ (autoria desconhecida).

[2] Se desejar conferir as notas do autor visite: http://pt.protopia.at/wiki/Deserto