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Murray Bookchin: um Estatista Municipal. – por Bob Black

* Capitulo 5 do livro Anarchy After Leftism de Bob Black.

Não há porque adiar por mais tempo o inevitável. É preciso ser dito: o reitor** Bookchin não é um anarquista. Com isso eu não quero dizer que ele não é o meu tipo de anarquista, embora isso também seja verdade. Quero dizer que ele não é um anarquista de tipo algum. Afinal, essa palavra significa algo, e o que ela significa é a negação da necessidade e do desejo de um governo. Essa é uma definição básica, pré-adjetiva, anterior a qualquer discussão acerca de anarquismo individualista, coletivista, comunista, mutualista, social, de estilo de vida, ecológico, místico, racional, primitivista, Watsoniano, ontológico, etc. Um anarquista, como tal, se opõe ao governo – e ponto final. O reitor Bookchin não se opõe ao governo. Por isso, ele não é um anarquista.

O Quê? “O mais importante teórico anarquista contemporânea” (Clark, 1990: 102) não é um anarquista? Você me ouviu. Ele não é – real e verdadeiramente, ele não é. Não porque ele foi reprovado em algum teste ideológico abstrato desenvolvido por mim mesmo. Ele não é um anarquista, porque ele acredita no governo. Um anarquista pode acreditar em muitas coisas, e muitas vezes o faz, mas o governo não é uma delas.

Não há nada de hediondo em não ser um anarquista. Alguns dos meus melhores amigos não são anarquistas. Eles não são, no entanto, também não afirmam serem anarquistas, como o reitor faz.

Eu poderia desferir alguns golpes baixos contra o reitor – cheguei a pensar em fazer isso, e acho que vou! Quantos dos seus discípulos vermelho-e-verdes sabem que ele antigamente era a favor de uma quantia modesta de energia nuclear? Energia solar, eólica e maremotriz devem ser exploradas ao máximo, mas “seria impossível estabelecer uma economia industrial avançada baseada exclusivamente em energia solar, energia eólica ou mesmo na energia das marés” (Herber, 1965: 193), e precisamos ter uma economia industrial avançada, isso não está em discussão. Assim, embora não devamos “nos comprometer demais ao uso de combustíveis nucleares”, as fontes de energia limpa não serão suficientes: “Estas lacunas serão preenchidas por combustíveis fósseis e nucleares, mas vamos empregá-los criteriosamente, sempre tendo o cuidado de limitar a sua utilização tanto quanto possível “(ibid.). Isso é reconfortante.

Seria também indecente da minha parte denunciar que esse mesmo livro de Bookchin (Herber, 1965: IX) inclui – este deveria primeiramente um livro anarquista – uma indicação de um membro de gabinete, o então Secretário do Interior Stewart L. Udall: “Crise em Nossas Cidades [Crisis in Our Cities] estabelece em um volume uma prova viva de que as doenças mais debilitantes do nosso tempo são o resultado de nosso persistente e arrogante abuso do nosso meio ambiente compartilhado… não podemos minimizar os investimentos necessários para o controle da poluição, mas como o Sr. Herber [Bookchin] documenta, as penalidades por não fazê-lo tornaram-se impensáveis.” Isto é, note-se, um convite à legislação e tributação que um anarquista de armário permitiu que adornasse um de seus livros. Há também um posfácio do Surgeon General dos Estados Unidos.

Apesar dessas lembranças provavelmente serem embaraçosas para o reitor, elas não são conclusivas contra ele. São seus próprios endossos explícitos ao Estado que são decisivos. Não, certamente, o Estado-Nação de proveniência européia moderna. Ele não gosta muito desse tipo de Estado. Este permite demasiada autonomia individual. Ele é apaixonado pela Cidade-Estado da antiguidade clássica e, ocasionalmente, o semi-auto-governo das “comunas” da Europa Ocidental pré-industrial. Nisso ele é uma reminiscência de Kropotkin, que propôs a ideia absurda de que o Estado não existia na Europa Ocidental antes do século XVI (cf. Bookchin, 1987: 33-34). Isso teria surpreendido e divertido William, o Conquistador, e seus sucessores, para não mencionar os monarcas franceses e espanhóis e as cidades-estado italianas comuns à Maquiavel – cujo Príncipe II claramente não foi dirigido à um político responsável pela base e delegado por meio de um mandato revogável, mas em vez disso, por um homem a cavalo, alguém como César Borgia.

Embora esta não seja a mais marcante das observações, o reitor continua mostrando-se realmente indignado com John Zerzan, resenhando seu The Rise of Urbanization [A Ascenção da Urbanização] e The Decline of Citizenship [O Declínio da Cidadania] (1987) apontou que a polis ateniense clássica romantizada “tem sido há muito tempo o modelo de Bookchin para uma revitalização da política urbana”, uma distorção a qual o reitor retruca indignadamente: “Na verdade, eu fiz um grande esforço para indicar as falhas da polis ateniense (escravidão, o patriarcado, os antagonismos de classe e a guerra)” (59 ). Ele pode ter tentado se redimir ao ser pego, mas na verdade indicou bem poucas falhas. O reitor fez, “de fato” apenas duas referências – não fez nem mesmo à escravidão enquanto um modo de produção, como uma realidade social, mas sim a atitudes em relação à escravidão (1987: 83, 87), como se o fato da maioria das cidades clássicas terem subjugado suas populações (Dahl, 1990: 1) fosse o resultado acidental de alguma peculiaridade psíquica coletiva, alguma estranha experiência de pensamento com mil anos de duração. O que Zerzan disse é só o que um dos admiradores do reitor coloca em termos mais fortes: “Bookchin nos exorta continuamente a ouvir novamente os gregos, em busca de recapturar a promessa do pensamento clássico e de compreender a verdade da Polis” (Clark 1982: 52 ; Clark, 1984: 202-203).

Todo historiador sabe que a escravidão em grande escala era uma necessidade para a cidade clássica (Finley 1959), embora o reitor tenha decretado que “a imagem de Atenas como uma economia de escravos que construiu a sua civilização e uma generosa visão humanista sobre as costas de humanos tratados como mercadoria é falsa” (1972: 159). (M.I. Finley – como o reitor, um ex-comunista [Novick 1988: 328] – é um dos historiadores aprovados por Bookchin [1989: 178].) Algumas das coisas que Zerzan escreve sobre a sociedade paleolítica podem ser conjecturais e criticáveis, mas o que ele escreve sobre Bookchin é pura reportagem. O reitor afirma claramente que “os ideais de cidadania posteriores, mesmo na medida em que foram modelados a partir do ateniense, parecem mais inacabados e imaturos do que o original – daí a discussão tão considerável que tenho estimulado à cerca do cidadão ateniense e seu contexto” (1987: 83). Talvez isso acontece porque as realizações ainda mais inacabadas e imaturas desses “ideais posteriores” carecem da combinação de imensa infra-estrutura escravista e de um império tributário, algoo que a Atenas clássica possuía. Louvores similares à cidadania ateniense tempera também os primeiros livros do reitor (1972: 155-159; 1974: cap. 1). Manifestamente, o que coloca uma pedra no sapato de Bookchin é que Zerzan teve a ousadia de ler livros de Bookchin, não apenas reverenciar seu ilustre autor, e Zerzan realmente esteve a par do que o reitor foi reiterando todos esses anos. O lado negativo de ser “sem dúvida, o escritor anarquista mais prolífico” (Ehrlich, 1996: 384) é deixar um rastro enorme de papel por onde passa.

Bookchin é um estatista: um cidade-estatista. A cidade-estado não é um anti-Estado. A Singapura contemporânea, por exemplo, é uma cidade-estado altamente autoritária. Os primeiros estados, na Suméria, eram cidades-estado. A cidade é o lugar onde o Estado se originou. As antigas cidades gregas eram todas estados, a maioria delas nem mesmo eram estados democráticos no limitado sentido ateniense da palavra. Roma deixou de ser uma cidade-estado para se tornar um império sem nunca ter sido um estado-nação. As cidades-estado da Itália renascentista eram estados, e apenas algumas delas, e não por muito tempo, foram democracias em quaisquer sentidos. De fato, a Veneza republicana, cuja independência durou mais tempo, surpreendentemente antecipou o moderno estado-polícia (Andrieux 1972: 45-55).

Numa perspectiva histórico-comparativa a nível mundial, a cidade pré-industrial, a não ser que fosse a capital de um império ou um estado-nação (caso em que era diretamente sujeita a um monarca residente), foi sempre sujeita a uma oligarquia. Nunca houve uma cidade que não fosse, ou que não fizesse parte de um Estado. E nunca houve um Estado que não fosse uma cidade, ou então que não tenha incorporado uma ou mais cidades. A cidade pré-industrial (o que Gideon Sjöberg chama de – uma má escolha de palavras – a “cidade feudal”) era a antítese da democracia, para não mencionar da anarquia:

O ponto central para o sistema de estratificação que permeia todos os aspectos da estrutura social da cidade feudal – a família, a economia, a religião, a educação, e assim por diante – é a preeminência da organização política… Reiteramos: a ordem feudal, ou pré-industrial civilizada, é dominada por um pequeno e privilegiado estrato superior. Este comanda as instituições fundamentais da sociedade. Seus altos escalões são mais frequentemente localizados na capital, as classes mais baixas residem nas cidades menores, geralmente nas capitais provinciais (Sjöberg 1960: 220).

Sjöberg antecipou a objeção: “E quanto à Atenas?” Escreveu, “embora a cidade grega fosse única para a época, em sua estrutura política, na verdade aproximava-se da típica cidade pré-industrial muito mais do que da ordem urbano-industrial” (ibid. : 236). Apenas uma pequena minoria dos atenienses eram cidadãos, e muitos deles eram analfabetos e/ou demasiado pobres para poder participar efetivamente, em sua totalidade, na política (Ibid .: 235). Logo, como sempre em cidades de todos os lugares, a política era uma prerrogativa da elite. A democracia “latente” de toda e qualquer república urbana (59) é algo que só Bookchin pode ver, assim como só Wilhelm Reich podia ver o orgônio sob o microscópio.

A distinção que o reitor tenta desenhar entre “política” e “arte de governar” (1987: 243 & passim) é absurda e auto-conveniente, para não mencionar que é uma grande mutilação do inglês comum. Mesmo que a política local seja uma versão mais gentil e suave da política nacional, ainda assim é a política, que tem sido bem, se não cinicamente, definida como “quem recebe o quê, quando, onde e como (Lasswell 1958).”

Não é justo que o reitor use uma terminologia idiossincrática para conciliar (de uma maneira totalmente desorganizada) anarquia com a democracia, ele é mais apoplético do que qualquer um jamais poderia ter pensado:

Mesmo a tomada de decisão democrática é descartada como autoritária. “A lei democrática ainda é a uma lei,” [L. Susan] Brown adverte… Os opositores da democracia como “lei” em contrário, não obstante, descrevem a dimensão democrática do anarquismo como uma administração majoritária da esfera pública. Assim, o Comunalismo busca a liberdade, em vez de autonomia no sentido em que eu os contraponho (17, 57).

Movendo-se ao longo de sua dedução incompreensível de que a democracia é democrática, Bookchin reclama ainda que “palavras pejorativas como ditar e mandar referem-se mais corretamente ao silenciamento dos dissidentes, não ao exercício da democracia” (18). A liberdade de expressão é uma coisa boa, mas não é democracia. Você pode ter uma sem a outra. A democracia ateniense que o reitor venera, por exemplo, silenciou democraticamente o dissidente Sócrates, colocando-o à morte.

Anarquistas “descartam” a tomada de decisão democrática, não porque é autoritária, mas porque é estatista. A “democracia” significa “governo do povo”. “Anarquia” significa “nenhuma governo.” São duas palavras diferentes porque se referem a (pelo menos) duas coisas diferentes.

Não tenho a pretensão – e para sustentar o meu ponto, eu nem mesmo precisaria – de afirmar que a caracterização do anarquismo como democracia direta generalizada pelo reitor não tem qualquer fundamento no pensamento anarquista tradicional. O anarquismo de alguns dos anarquistas clássicos mais conservadores de fato segue estas linhas – embora a versão de Bookchin, até em seus detalhes, em vez disso, é uma apropriação não reconhecida da declaradamente anti-anarquista Hannah Arendt (1958). Ironicamente, são os anarquistas que Bookchin menospreza por serem individualistas – como Proudhon e Goodman – que melhor representam esse tema anarquista. Foi o individualista egoísta Benjamin Tucker, que definiram um anarquista como um “democrata Jeffersoniano aterrorizado”. Mas outro tema respeitável que um anarquista com pedigree levantaria é que a democracia não é uma realização imperfeita da anarquia, mas sim a última trincheira do estatismo. Muitos anarquistas acreditam, e muitos anarquistas sempre acreditaram, que a democracia não é apenas uma versão extremamente deficiente de anarquia, mas sim que ela não é anarquia de forma alguma. De qualquer forma, não há “democracia direta cara-a-cara” (57) de que eu esteja ciente que tenha delegado ao camarada Bookchin (responsável pela base por meio de um mandato revogável) a autoridade para aprovar ou reprovar os anarquistas assim como ele costuma aprovar ou reprovar estudantes universitários.

Não é de forma alguma óbvio, e o reitor não demonstra isso em parte alguma, que local é sinônimo de amável e gentil – não quando local se refere a governo local. É plausível que, como James Madison argumentou, uma forma de governo grande e heterogênea é mais favorável à libertação do que uma “pequena república”, pois assim minorias locais podem encontrar aliados nacionais para combater a tirania majoritária local (Cooke, 1961: 351-353). Mas, afinal, como ele mesmo diz, o reitor não está interessado em liberdade (em seu jargão, autonomia [57]), mas apenas no que ele chama de liberdade social, a participativa servidão auto-ratificada dos moralistas doutrinados para uma micro política na qual eles funcionam como despretensiosas unidades-cidadão.

Meu propósito atual não é abranger a totalidade do Bookchinismo, mas sim caracterizá-lo como o que ele manifestamente é, como uma ideologia de governo – a democracia – e não uma teoria da anarquia. A “agenda mínima” de Bookchin – esta venerável palavra marxista, “mínima”, é sua, não minha (1987: 287) – é inequivocamente estatista, não anarquista. Os “princípios quádruplos”, os Quatro Mandamentos que ele exige que todos os anarquistas afirmem, embora a maioria deles não o façam, e nunca tenham feito, são:

… uma confederação de municípios descentralizados; uma oposição firme ao estatismo; a crença na democracia direta; e uma visão de uma sociedade comunista libertária (60).

Por algum capricho do destino, acontece do credo mínimo acredite-se-quiser anarquista de Bookchin ser logo seu próprio credo. Também acontece de ser um delírio incoerente. A “confederação de municípios descentralizados” contradiz “democracia direta”, já que uma confederação é, na melhor das hipóteses, uma democracia representativa, não uma democracia direta. Também contradiz “uma oposição firme ao estatismo”, porque uma cidade-estado ou um estado federal ainda é um estado. E, por exigir não “uma sociedade comunista libertária”, somente a visão de uma, o reitor claramente insinua que há mais para uma sociedade do que a obediência aos primeiros Três Mandamentos – mas exatamente o que mais, ele não diz. O reitor está relegando um estágio-superior da anarquia (a coisa real) a algum tempo futuro remoto, assim como os marxistas relegam o que eles chamam de estágio-elevado do comunismo para um futuro distante e nebuloso que parece, como uma miragem, cada vez mais distante.

Surpreendentemente, o reitor considera que uma cidade como Nova York (!) seja “em grande parte composta de bairros – isto é, em grande parte, comunidades orgânicas que têm uma certa medida de identidade” (1987: 246). (Ele tem escrito em outros lugares e de forma inconsistente que o mundo moderno “carece de cidades reais” [Bookchin, 1974: VIII].) Mas comunidade, “obviamente, significa mais do que, digamos, vizinhança” (Zerzan 1994: 157) – mais do que mera proximidade. E, obviamente, Bookchin esteve longe de sua cidade natal por um tempo muito longo, especialmente se civilidade e virtude cívica desempenhar qualquer papel na sua concepção de uma comunidade orgânica. Eu não recomendo que ele de um passeio a meia-noite em algumas dessas “comunidades orgânicas” se ele valoriza seu próprio organismo. Se o critério de uma comunidade orgânica é “uma certa medida de identidade”, muitos ricos subúrbios brancos estariam qualificados, embora Bookchin culpe-os pelos problemas centrais da cidade (1974: 73-74). Competitivas gangues juvenis territorialistas e violentas são as manifestações mais evidentes de comunidade em muitos bairros pobres e por outro lado atomizados dos bairros de Nova York, seus “coloridos bairros étnicos” (1974: 72) de sua memória de infância. Se segregação de raça-casta e segregação residencial de classe social é a idéia do que define comunidades orgânicas para o reitor, então comunidades orgânicas certamente existem em Nova York, mas não há muitas pessoas que vivam nelas, exceto os muito ricos, que estejam muito felizes com isso.

Embora a palavra “anarquismo” apareça em quase todas as páginas da invectiva do reitor, a palavra “anarquia” raramente ou nunca aparece. A ideologia, o ismo, é o que o interessa, e não a condição social, o modo de vida ao qual presumivelmente ela deveria nos guiar. Pode não ser uma escolha inadvertida de palavras que o que Bookchin estabelece, já que um de seus Quatro Mandamentos do anarquismo ortodoxo é “uma oposição firme ao estatismo” (60: grifo nosso), não uma oposição firme ao Estado. Como democrata, o reitor é, na melhor das hipóteses apenas capaz de uma oposição oscilante ao Estado, ao passo que uma rejeição abstrata a uma abstração, o “estatismo”, é fácil o suficiente de se admitir. E eu tenho certeza que não é por acaso que a sua investida ao mercado mainstreamdo Bookchinismo (Bookchin 1987a) em nenhuma parte identifica o reitor como um anarquista ou seus ensinamentos como qualquer tipo de anarquismo.

Uma outra trapaça Bookchinista – esta uma regressão flagrante ao marxismo (na verdade, ao St. Simonismo) – é a distinção entre “política” e “administração” (ibid .: 247-248). Política é feita, segundo ele, por ocasionais assembléias cara-a-cara às quais intelectuais insistentes como Bookchin são tão bons em manipular. Administração é para os especialistas, como no estágio-elevado do marxismo comunista, onde o “governo dos homens” é ostensivamente substituído pela “administração das coisas”. Infelizmente são os homens (e, geralmente, ainda são os homens) que governam a administração das coisas, e através da administração de pessoas como se fossem coisas, como governadores sempre governaram. Política sem administração não é nada. Administração, com ou sem a política é tudo. Stalin o Secretário-Geral, o administrador, entendeu isso, e dessa forma triunfou sobre Trotsky, Bukharin e todos os outros políticos-interessados-em-política que possivelmente, talvez, acreditavam em algo. “Política” é um eufemismo para o direito, e “administração” é um eufemismo para execução.

Exatamente que prática política este exímio ancião prescreve aos anarquistas? Sabemos com o que o municipalismo confederacional de alto-estágio se parece – homens de cérebros hipertrofiados aglomerando-se em reuniões – mas o que deve ser feito no aqui e agora? O reitor despreza esforços anarquistas existentes:

O esporádico, o assistemático, o incoerente, o descontínuo e o intuitivo suplantam o consistente, o intencional, o organizado e racional, de fato, qualquer forma de atividade sustentada ou focada que vá para além de publicar um “zine” ou um panfleto – ou por fogo em uma lata de lixo (51).

Então, nós não estamos publicando zines e panfletos como Bookchin costumava fazer, nem estamos queimando latas de lixo. Também não estamos experimentando a liberdade nas confraternizações coletivas temporárias que Hakim Bey chama de Zonas Autônomas Temporárias (20-26). Temos de nos organizar, mas Bookchin não indicou, nem mesmo como exemplo, em qual organização deveríamos nos engajar. E então?

Sobre este ponto, o reitor, geralmente tão detalhista, é alusivo e evasivo. Eu fui incapaz de localizar em qualquer um dos seus escritos qualquer formulação do “movimento social tão programático quanto ativista” o qual ele demanda (60). O que eu acho que ele está insinuando, com acenos e piscadelas, é a participação na política eleitoral local:

O município é uma bomba relógio em potencial. Para criar redes locais e tentar transformar as instituições locais que reproduzem o Estado [grifo nosso] é entrar em um desafio histórico – um verdadeiramente político – que existe há séculos… Nessas instituições municipais e nas mudanças que nós podemos fazer em sua estrutura – transformando-as cada vez mais em uma nova esfera pública – está a base institucional permanente para um duplo poder popular, um conceito de cidadania de base, e sistemas econômicos municipalizados que podem ser contrapostos ao crescente poder do Estado-Nação centralizado e das corporações econômicas centralizadas (Bookchin 1990: 12).

Quando o Reitor fala de transformar as instituições locais existentes, quando ele fala de “as mudanças que podemos fazer em sua estrutura”, ele só pode estar se referindo à participação na política local como na verdade já vem acontecendo nos Estados Unidos e Canadá – sendo eleito ou sendo nomeado por aqueles que já conquistaram sua eleição. Isso é exatamente o único movimento político Bookchinista do mundo, Dimitri Roussopoulos, chefe do Black Rose, um grupúsculo ecológico de Montreal (Anônimo, 1996: 22) tem tentado, e, felizmente, falhado nessa empreitada. Você pode chamar isso de qualquer coisa que você quiser – exceto de anarquista.

Para resumir: o reitor Bookchin é um estatista.

**O uso do termo “reitor” para se referir à Murray Bookchin é devido ao fato deste ter fundado e liderado o Instituto para a Ecologia Social (Institute for Social Ecology) em Plainfield, Vermont – EUA.

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Autor: Bob Black
Fonte: Anarchy After Leftism – Cap. 5: Murray Bookchin, Municipal Statist
Tradução: Carlos Teixeira