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REVOLUÇÃO E/OU INSURREIÇÃO – por Kevin Tucker

Kevin Tucker

Neste momento, a nossa sociedade apresenta todas as principais características necessárias para a revolução. O historiador James DeFronzo traçou os fatores comuns necessários para uma revolução “bem sucedida”[1] (embora todos os cinco quase nunca estejam presentes de uma só vez); o descontentamento das massas, o descontentamento da elite, um motivo unificador, uma crise de Estado e a permissividade do mundo[2]. Não é necessário nenhum profissional ou especialista para ver que a maior parte desses fatores já está presente aqui e agora.

Revolução é a resposta a uma mudança no padrão de quase todas as categorias da vida social dentro de um dado sistema. Tradicionalmente, esta tem ocorrido durante períodos de modernização em que o Estado é usado como uma ferramenta para alcançar o potencial que os “cidadãos” acreditam ser devido (com ou sem razão). Elas ocorrem quando a estratificação social chega ao extremo e as massas são cada vez mais marginalizadas.

O interesse aqui não é dissecar ou disputar a ideia de revolução contra o trabalho de “especialistas” e “teóricos”, mas sim olhar para os seus elementos comuns e para a nossa sociedade e questionar sobre algumas possibilidades de revolução, e se ela é mesmo desejável.

(Nota: O ponto aqui não é chegar a alguma ‘vanguarda’, ‘movimento’ ou ‘organização’, mas sim olhar para algumas portas que nossa situação atual abre e apontar para as possibilidades de resistência autônoma.)

 

Fúria Niilista

O ” descontentamento das massas” que DeFronzo aponta não é só presente, mas também define nossos tempos, embora seja ocultado sob a forma de frustração em massa ou  de uma raiva niilista. As pessoas estão chateadas, e sabem disso, mas elas não sabem de quem é a culpa. Peritos e especialistas surgem com mais teorias e “soluções” para esta ocorrência do que qualquer um de nós teria qualquer interesse em acompanhar. Esses especialistas têm geralmente evitado a questão por deixar escapar o que está bem na frente de seus olhos: este mundo que construímos para nós mesmos não nos dá razão para viver e para morrer.

Este mundo da megatecnologia e ultra-alienação tenta destruir tudo o que há de humano dentro de nós, como Arthur Evans descreve:

“Todo o sistema industrial é como uma grande noite dos mortos vivos, onde toda a população foi reduzida emocionalmente ao nível de zumbis. Ele nos deixou amortecidos para o nosso ambiente, privou-nos da arte, esterilizou nossa natureza animal, nos roubou as habilidades de sobrevivência, degradou nosso trabalho e lazer e dizimou nossas vidas sexuais. E por isso nos transformou em mortos-vivos –  mortos para a natureza, mortos uns para os outros, mortos para nós mesmos (pg. 130)”[3]

Temos sido domesticados para uma nova ordem mundial de servidão sem vida, obcecados por um futuro movido por máquinas. Todos os eventos em nossas vidas que nos dão significado foram automatizados e são deixados sob o controle das máquinas que irão nos devorar ou nos entediar até a morte.

O que estamos vendo na nossa sociedade são as muitas formas de “doença da sobrevivência” de que Raoul Vaneigem falou[4]. A raiva e miséria varre a sociedade em um alarde de felicidade e ‘deboísmo’. Em todos os lugares nesta sociedade está a grande cara de smiley do hiper-capitalismo para acalmar toda a agitação e disfunção. John Zerzan observou que a “face da dominação é muitas vezes uma face sorridente”,[5] enquanto uma onda surreal de bons modos apaga todos os fluxos diretos de raiva e desprezo.

Estamos em uma sociedade de potenciais psicopatas que estão continuamente reprimindo sua raiva. Nossa domesticação nos ensina a internalizá-la, a “engolir a seco” e seguir o fluxo. Os professores nos dizem que não há nada de bom em deixar toda essa raiva se manifestar.

Ainda assim, os jovens estão ficando inquietos. Crianças cada vez mais jovens estão tendo surtos incontrolavelmente violentos e a única solução é sedá-las. No entanto, esta “solução” resulta apenas em reações químicas mais insanas e não estamos vendo qualquer interrupção dos episódios esporádicos de homicídio juvenil. Mas esse problema se reduz a si mesmo, ou há alguma coisa errada? Parece que estamos todos sofrendo, todos nós vivemos na Disneylandia e em Columbine, ao mesmo tempo. Apontar para esta espiral descendente não é apenas listar o “pior” do que acontece, mas mostrar o quão comum isso se tornou, que está em toda parte e é tudo o que vemos.

O ” descontentamento das massas” que dispara revoluções está aqui, mas o Espetáculo aborda-o como surtos e incidentes isolados, como caso de terapia de grupo e como problemas pessoais. Nossa raiva é coletiva, mas temos sido fortemente domesticados para ignorá-la ou empurrá-la para o lado. Talvez a chave para desvendar e canalizar esse descontentamento é perceber que não estamos sozinhos na nossa miséria e que ela tem uma fonte comum. Temos tanta raiva nos queimando por dentro que ela poderia por essa merda toda abaixo ainda hoje à noite.

 

Jogos Surreais de Poder

As recentes recuperações políticas/corporativas de crises e denúncias só contribuem para a realidade surreal que tem sido construída. Quando vemos políticos poderosos e outros desgraçados se enfrentado uns aos outros temos que saber o que está acontecendo.

Quanto mais eu presto atenção em cada um desses filhos da puta mais claro fica que eles já não são mais seres humanos. A semente do poder corrompe absolutamente, até a morte, e todos esses traficantes de poder estão doentes para além de qualquer possibilidade de recuperação. Todos eles são culpados pelo que eles definem como crime, mas quando começam a brigar uns contra os outros, o que isso quer dizer?

Nos últimos anos tem havido uma quantidade crescente de inquietação entre as elites. Elas estão com sede de sangue, e o resultado disso é ainda mais interessante. Eu realmente não tenho interesse em ver qualquer um desses bastardos sair ‘por cima’, mas eu não me importo de vê-los eliminando-se uns aos outros, embora o resultado seja apenas a mudança na posse de poder. Mas isso é apenas o capitalismo jogando seu próprio jogo.

Independentemente de qualquer que seja o pano de fundo dessas reviravoltas estranhas, é óbvio que há um enorme ‘descontentamento entre a elite’. Os traficantes de poder estão agitando as coisas, e quando o berço balança demais corre o risco de tombar. Enquanto as elites jogam seus jogos de poder, o espaço para a gestação de uma revolução se abre. A questão permanece, o que você vai fazer com esse espaço que se abre?

 

Cansado de Repressão?

O fator “motivo unificador” tem sido sempre o mais complicado. A razão para isso é simples: a cidade e sua contraparte, o campo, limitam a sanidade humana e ecológica. Nós somos criados como dependentes desse sistema e, por isso, somente alguns poucos estão prontos para buscar respostas em outro lugar. Mas isso abre um problema muito mais grave: onde as pessoas estão procurando?

A meu ver, este problema tem sido a falha fatal de todas as revoluções do passado (veja a seção “Tomada ou Abolição do poder do Estado?”). O fator que gera mais divisão nesta sociedade é o mito capitalista, que diz que todos nós podemos obter um pedaço do bolo se nós nos esforçarmos mais e que isso seria algo desejável.

Estamos ignorando as implicações desta realidade de plástico e aço porque nossos olhos estão grudados no prêmio: o constante aumento do teto de riqueza. Um amigo, Aleksa, diz que isso tudo se resume a:

“Tanto quem está fudido quanto quem está nos fudendo têm 1) a mesma ideia de vida, 2) a mesma ideologia de Necessidades, 3) a mesma atitude para com todo o mundo não-humano. Ambas as classes acreditam em Progresso, com mais “desenvolvimento das forças produtivas” como a única resposta racional ao desastre causado por todo o “desenvolvimentos de forças produtivas” anteriores. Eles sonham com as mesmas mercadorias, com o mesmo paraíso.”[6]

Enquanto estivermos sendo incorporados pelo Capital (o mundo da mercadoria, trabalho e desenvolvimento), vamos ignorar o caminho para onde a civilização está nos levando: escravidão e sacrifício para algum outro ‘grande’ propósito.

Como Jacques Camatte apontou, uma revolução bem sucedida trará um novo modo de vida, não um novo modo de produção.[7] Assim, o objetivo de encontrar um “motivo unificador” teria que estar baseada no despertar da “humanidade errante” para a realidade de sua domesticação.

Parece que uma revolução séria e completa só ocorrerá quando as pessoas realizarem seus desejos e potencial dentro do campo das comunidades completas. Comunidades completas, no entanto, não podem existir tanto tempo quanto a civilização, pois são sempre assombradas por uma combinação de divisão institucionalizada do trabalho, alienação e poder sistêmico hierárquico que requer um “pool de recursos” constantemente crescente para continuar existindo. A civilização precisa expandir constantemente para continuar existindo, e seu poder reside em uma totalidade internalizada (cultura simbólica) e instituições/forças externas. Qualquer ameaça para o bem-estar de sua totalidade (rede de ilusões, moralidade, etc.), é uma ameaça para a civilização, e as ameaças são tratadas com repressão ou destruição. Assim, o objetivo não é nem totalmente mental nem totalmente material, mas um ataque em todas as frentes.

Isso não significa que as pessoas devem ser unificadas por um objetivo único ou rumo a uma sociedade única, mas sim que devem ser unificadas sob o princípio da autonomia e atendendo a sua própria autodeterminação. Esta não é uma receita para a sociedade de massas, mas é a única coisa que todos nós temos em comum: todos nós somos escravos da vontade da civilização, desde que ela existe.

Voltemos para o “descontentamento das massas” mencionado anteriormente. Talvez o “motivo unificador” seja uma canalização da raiva e da miséria que se encontra abaixo da fachada de felicidade e sucesso. Talvez uma consideração deste fator subjacente possa despertar revolucionários do sono civilizado da realidade do trabalho-consumo-morte.

 

A Crise do Estado

O que mais poderia qualificar uma “crise de Estado” do que os crescentes esforços de guerra? Esta guerra, o produto da civilização correndo no vazio (literalmente), é o resultado do abuso e destruição da Terra e das relações de toda a vida. Os poderosos estão brigando pelas últimas gotas de petróleo, ar, água e solo para comprar e vender. Estamos vendo o processo de colapso (ecológico e civil), mas desta vez em escala global. O desenvolvimento dessa situação é, possivelmente, um prenúncio do fim da civilização.

Esta situação realmente não precisa de muita elaboração. O tipo de instabilidade política e econômica que ocorre aqui e agora é uma enorme crise, e estamos propensos a ver os piores resultados dela. Não há realmente nenhum momento melhor do que o agora para atacar o sistema enquanto ele está no seu estado mais frágil.

O que eu estou interessado em apontar aqui são as possibilidades que se abrem enquanto o Estado está preocupado com ele mesmo. Todas as grandes revoluções ocorreram quando crises de Estado enfraqueceram a estrutura do poder. É nestes momentos em que o controle dos Estados é fortemente concentrado em apenas um problema. Enquanto os militares estão fora em terras estrangeiras, o Estado fica apenas com a segurança de que a totalidade e o nacionalismo arrogante vai nos manter aqui em casa sem questionar o que está acontecendo, ou que não iremos nos levantar para lutar seriamente contra ele. A possibilidade mais simples é geralmente aquela que está justamente na frente da sua cara.

 

Permissividade Mundial ou Preocupação Global

O fator ‘permissividade’ do resto do mundo é sempre problemático, apenas em “revoluções” direitistas/estatistas (golpes) as maiores potências do mundo se dispõem a vigiá-las ou a dar a outra face para bater. Em todos os outros casos, este continua a ser um fator importante. Nenhuma outra grande potência mundial tem interesse em uma troca de mãos a menos que haja um incentivo econômico para eles (isto é, se os novos poderes que se constituirão oferecerem acordos comerciais, etc.).

É possível para uma força revolucionária ser bem sucedida sob esta ameaça. O Exército Revolucionário Cubano foi capaz de derrotar os ataques financiados pelos EUA após a revolução. Mas o planejamento é um fator importante. A Revolução Mexicana foi capaz de ter sucesso porque ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto o EUA (que tinha um interesse econômico imenso no México) estava ocupado demais para dar a atenção devida.

Estas são coisas para se levar em consideração. Temos que olhar para a situação do mundo pela ótica de como as coisas são e de como elas estão indo. O EUA está se direcionando à guerra com a Coreia do Norte e com o Iraque, seguindo a “guerra ao terrorismo”. Essas duas frentes certamente exigem o grosso das forças armadas norte-americanas, cuja implantação já está em andamento. A Coreia do Norte já ameaçou dar início a Terceira Guerra Mundial se os norte-americanos atacarem, mesmo que essa possibilidade não tenha jamais existido. Com os EUA se espalhando tanto, as coisas ficaram relativamente desprotegidas aqui. Existe a chance de preocupação global e se o EUA estiver caindo, é provável que haja muitas nações com interesse em mantê-lo em pé. Estas são todas coisas a se levar em consideração, mas, ainda que todas elas sejam possibilidades reais, por quanto tempo mais vamos ficar sentados e esperando?

Até agora, esta análise tem sido sobre revolução, mas deve-se dizer que esses mesmos princípios se aplicam igualmente para insurreições ou guerrilhas. A conexão será tratada mais profundamente nas próximas seções.

 

Tomada ou Abolição do Poder do Estado

Como um anarquista, é fácil ver por que as revoluções passadas não conseguiram produzir qualquer realidade mais desejável. Como foi mencionado anteriormente, o problema é que toda a terminologia da revolução nos séculos passados tem girado em torno do Capital. Camatte (1995) estende a definição de Capital para incluir todo o modo de produção e os seus valores. A este respeito, o capitalismo e o comunismo diferem apenas em seus métodos de busca ao Capital. Através desta visão, os seres humanos são reduzidos a Capital, ou proletarizados, sendo valorizados apenas por seu potencial como mão de obra.

As revoluções passadas foram tipicamente realizadas dentro deste reino do Capital. Estas revoluções têm sido os antecessores da modernização e, portanto, têm apenas visado transformar as pessoas em seus próprios carrascos. Camatte continua, “a Libertação começa com a recusa em perceber a si mesmo nos termos das categorias do capital, ou seja, como proletário, como membro da nova classe média, capitalista, etc.”[8]

Para continuar o processo que Camatte deu início, é necessário seguir o seu entendimento do Capital como o domesticador até a própria fonte da domesticação, a civilização. Nela percebemos que a domesticação vem de mãos dadas com a agricultura/divisão do trabalho, que é a origem da propriedade e, portanto, do Estado.[9]

A partir deste ponto, estamos em uma posição mais clara para entender as falhas de revoluções passadas. A fonte de opressão encontra-se no poder em si mesmo, não em quem o detém. De forma que para libertar-se desses meios é necessário destruir o poder em todos os aspectos. Então revolução implicaria a abolição do poder, enquanto que no passado ela só significou a sua tomada e redistribuição.

Este ponto é vital para a compreensão das relações. Eu acredito que os seres humanos são inerentemente seres “bons”, mas o poder corrompe absolutamente. Não importa as intenções de quem está perseguindo o poder, uma vez que eles o têm, a sua vontade é contestada pela sua capacidade. É apenas uma questão de tempo antes que o poder tome conta da Terra e todo ser vivo se torne um mero peão para os seus interesses.

As revoluções passadas foram realizadas por meio de uma massa possuída pela propaganda da coletividade, do nacionalismo e assim por diante. Esta propaganda se torna palavras ocas uma vez que o poder tenha sido alcançado. A fé das pessoas é colocada inteiramente em alguma ideologia obscura ou na linha de um partido. O potencial para a libertação não reside na capacidade de manipular as massas em algum sacrifício para o “bem comum”, mas na realização de um modo de vida que permite que toda a vida alcance a autonomia e a auto-determinação.

Isso nos leva a questionar o “movimento” e os interesses da revolução.

 

Movimento de Massas ou Resistência Autônoma

O discurso da revolução geralmente deduz que ela é de grande interesse daqueles dentro de um dado sistema. A revolução é amplamente reconhecida como um levante fundamentado pelas massas com um objetivo comum. Normalmente, este “objetivo comum” é organizado ao longo das linhas do menor denominador comum do que as pessoas possam desejar. O resultado disso é uma massa maior de pessoas, mas o que você tem é todas essas pessoas seguindo a “linha do partido” ou uma ideologia, o que elas desejam está fora de questão. Quando você tem uma ideologia, você tem algo que usa uma agenda e um plano específico para a ação a fim de tomar o poder, o resultado destes movimentos tem sido sempre o fracasso. Isto se aplica à Revolução Mexicana, em que as pessoas seriam todas encaixotadas sob a mesma bandeira do “nacionalismo” e que, ao alcançar o poder, só serviria às elites revolucionárias, criando uma porta giratória de poder e um consequente uso da força militar para esmagar aqueles que ajudaram a trazer quem está no poder para essa posição. Este foi o caso da Revolução Espanhola também.

Meu interesse não está na formação de algum tipo de ideologia de massas ou alguma mudança na consciência das massas. Pelo que tenho visto de revoltas passadas, a negação do indivíduo em nome da “vontade do povo” tem apenas criado revolucionários sem alma. O sucesso da civilização tem sido alcançado por meio da subjugação dos povos, uma revolta bem sucedida só virá através da libertação completa. O meu entendimento de revoluções passadas me leva a crer que elas se tratam de sacrifícios, e este é um aspecto desfavorável que tenho deixado de lado até agora. Enquanto analisamos o potencial para a revolução, devemos ter em mente se ela é desejável ou não. A fim de resolver isso, é importante dar um passo para trás e olhar para com o que estamos lidando.

A revolução em que eu estou interessado não usa propaganda para criar um exército de zumbis daqueles que estão se sacrificando para que possam perpetuar a sua própria escravidão. O meu interesse está em criar uma situação onde as pessoas possam realizar seu pleno potencial, como falei anteriormente. Eu estou empurrando meus interesses sobre as pessoas? Talvez se eu estivesse construindo um movimento, mas isso está longe do que eu estou interessado. A força revolucionária só será viável se ela for composta por indivíduos que tenham se envolvido sob seus próprios termos.

Eu não estou interessado em qualquer tipo de ‘consciência de massa’ ou, na verdade, qualquer coisa em massa, “massa” é um dos problemas subjacentes que vêm com a civilização. Eu estou mais interessado na resistência autônoma. A primazia neste ensaio sobre as pré-condições para a revolução é apenas produzir uma estimativa da situação que enfrentamos agora. Francamente, eu sinto que nós estamos vendo os últimos dias da civilização e que o colapso é inevitável. No entanto, a maneira com que esta besta irá cair permanece no ar. Ela definitivamente vai cair, mas se será por uma força que vem de dentro para fora ou de fora para dentro, ou ambos, cabe a nós determinar.

Os dias da realidade concreta em que existimos estão contados. Se deslocar dela para outro lugar será o ato de seres que procuram uma verdadeira conexão com a Terra e uns com os outros; caso contrário, ela nunca será completamente destruída. É vital percebermos que a revolução não é um ato, mas sim um processo. Embora seja essencialmente um levante em massa contra uma ordem existente, historicamente permanece como a reconstrução de relações. Estou interessado em me focar na compreensão ecológica e evolutiva do animal humano enquanto uma imagem do que estas relações se parecem. E, além disso, estou interessado em tentar realizar esse deslocamento sem restrições ideológicas. Eu não estou aqui para dar respostas, apenas para abrir questões e possibilidades.

 

O Papel da Insurreição

Neste ponto, torna-se vital falar de insurreição e combate de guerrilha. A insurreição é a ação de pessoas que simplesmente se recusam a se sentar e esperar por revoluções. No entanto, como nas revoluções, a insurreição tem seu histórico de uso por aqueles que preferem controlar a sua própria domesticação e não por aqueles que desejam autonomia. Independentemente disso, é importante se concentrar em seu uso com a finalidade de libertação.

A insurreição continua a ser uma tática para aqueles que procuram uma válvula de escape para sua raiva contra a grande força de domesticação. Atos de insurreição são poderosos, não só por sua contribuição para a luta revolucionária, mas também por sua recusa à consciência civilizada, uma recusa à felicidade e ao ‘deboísmo’ sob os termos do Capital.

A insurreição torna-se ainda mais vital quando canalizada para além do reino do Capital e quando transcende a totalidade das relações civilizadas. A insurreição é um dos mais poderosos atos de um movimento revolucionário, uma vez que é uma “propaganda pelo ato”. Não é somente um indivíduo ou um grupo de pessoas quebrando a totalidade das restrições civilizadas, mas também se trata de algo que capacita outros a perceberem que esta é uma possibilidade, que um outro mundo aguarda, se optarmos por construí-lo.

A história está cheia de exemplos de poder insurrecional. O sucesso de uma revolta vai depender da capacidade de uma insurreição de mostrar as fraquezas do Estado. Este foi o caso do Exército Insurrecionário 26 de Julho de Castro. Apesar de seus atos individuais estarem longe de ser bem sucedidos, sua resistência contínua era uma inspiração. Após o fracasso em ataques diretos contra partes do poder do Estado, eles permaneceram escondidos na periferia de Cuba recebendo apoio crescente. A Revolução Cubana teve menos a ver com uma luta constante realizada pelo Exército 26 de Julho do que com o levante concomitante daqueles dentro das garras do poder do Estado após o potencial de revolta ter se tornado claro.

Mais uma vez, este é um exemplo de tomada do poder, mas eles tinham tudo em suas mãos caso tivessem decidido mudar a direção e se dirigir contra o poder. O fracasso da revolta cubana estava em sua dependência de estruturas de poder existentes, acreditando que a única maneira de continuar existindo era se manter atada ao vício mundial em açúcar (a sua principal colheita lucrativa) e sob a bandeira do nacionalismo o povo continuou sacrificando suas vidas para ‘sua nação’. O potencial para a abolição do poder ainda está lá, ele só precisa ser atualizado.

No momento, há poucos sinais de uma consciência revolucionária contra toda a civilização, embora, como mostrado acima, há todas as razões para se acreditar que isso seria possível agora. Quase todas as revoluções do passado tornaram-se possíveis através da existência de exércitos/forças guerrilheiras/insurgentes. Uma vez que o trabalho de base tenha sido estabelecido, torna-se mais possível que os outros vejam que existem outras opções além do futuro estabelecido pelos domesticadores.

É sempre arriscado se envolver em atos insurrecionários de revolta, mas esta é uma questão de com quanta seriedade lidamos com a questão? Se nós estamos lidando com seriedade no que diz respeito à abolição desta realidade, então o que está nos impedindo de realizar isso? Nós nunca vamos ter certeza se a revolução será o que botará tudo abaixo, ou se a insurreição necessariamente estimula os indivíduos a questionarem a sua domesticação, mas eu sei que meus interesses estão em um ser humano livre e pleno. Mesmo se tudo mais falhar, a insurreição é, pelo menos, tomar medidas nesse sentido. A minha pergunta é: se o colapso ou a morte é inevitável, qual é o problema em, pelo menos, empreender esforços para tentar pôr essa merda abaixo, em sua totalidade? Eu concordo fortemente com o reconhecimento de Freddy Perlman que afirma que “tudo pode acontecer”, mas cabe a nós garantir que tudo seja tentado.

A Revolução é Possível e/ou Preferível?

Apesar de eu só poder colocar minha fé nessa ideia, eu vejo que a revolução é inteiramente possível no momento. Eu olho em volta e vejo gerações sendo criadas em uma vida inteiramente sintética, e acredito que a estimativa do Lakota Sioux Medicine Man Lame Deer de que eles eventualmente elas desejariam viver mais perto da natureza pode ser verdadeira. Não há mais nada para ninguém aqui, tudo foi automatizado, criminalizado, banalizado, espetacularizado e limitado antes mesmo de ter a chance de existir. Os jovens de hoje não têm nada pelo que viver ou morrer, apenas seguem a trilha de novas tecnologias extravagantes enquanto o mundo sofre. A dor desses jovens cresce na mesma medida em que é sufocada por drogas, álcool, televisão e qualquer outro vício que possa ser comprado e vendido.

Em meio a essas gerações que estão apenas desperdiçando a si mesmas, surge aquela vontade de viver, embora ela continue escondida sob qualquer coisa que apareça em seu caminho. As pessoas estão morrendo e matando a fim de sentirem alguma coisa, e elas se agarram a este mundo porque ele é tudo o que conhecem. O sucesso da domesticação vem da sua capacidade de manter todo mundo realizando um auto-sacrifício para o bem dos outros, se isso puder ser quebrado, surgirão gerações de revolucionários.

A situação terrível com a qual somos confrontados faz com que a revolução seja ainda mais importante. É assustador pensar no que algumas pessoas seriam capazes de fazer se elas tivessem o poder em suas próprias mãos, mas a revolução está prestes a acontecer. Isso faz com que a ideia de uma ação imediata pareça ainda mais real, mesmo apesar do fato de que se ela não acabar com a capacidade da civilização de continuar o seu tipo de dominação, haverá somente a manutenção dos mesmos velhos problemas.

Em minhas interações com as pessoas percebo que, não importa quanta merda tenham que enfrentar, todas elas sabem de alguma forma que a civilização está caindo. Não há realmente nenhum segredo sobre isso, e os tempos parecem continuar piorando. O problema aqui é que as pessoas são tão completamente desempoderadas que elas não veem razão para tentar resistir. Como mencionado na seção anterior, uma forte onda insurrecional poderia servir como uma espécie de catalisador para redirecionar toda essa raiva e desejo pela vida que se encontra logo abaixo da superfície. A revolução não entrega a vida para as pessoas, mas sim, mostra-lhes as possibilidades.

 

A Infraestrutura Tecnológica é um Alvo

As possibilidades de vida livre e selvagem residem nas fraquezas do estado.[10] Eu reconheço que a doença do Capital tem infectado tantas mentes que as pessoas preferem morrer com ela do que desistir de seus confortos materiais. Esta é a natureza da totalidade do pensamento civilizado. Muitos vão se agarrar fortemente a este sistema até que eles reconheçam que outras formas de vida são possíveis, o impulso revolucionário/insurrecionário deve estar direcionado para esse potencial.

A questão principal é se isso vai fazer uso de uma revolução consciente ou de atos precisos de pequenos grupos e indivíduos para pôr este império abaixo. A maior parte dos EUA não estará disposta a questionar a sua domesticação até que a coisa fique tão ruim a ponto deles não terem qualquer outra opção. Meu interesse é tentar construir uma ponte entre os problemas que cada um de nós enfrenta e mostrar a origem coletiva desses problemas na esperança de que as pessoas acordem para a realidade que estamos sendo forçados a encarar.

Considerando a probabilidade do colapso e de como esta besta irá cair, a chance dela ser derrubada de dentro para fora parece ser a melhor das possibilidades. Devido a isso, uma corrente insurrecionaria poderia estar trabalhando para apressar este colapso. A maneira mais óbvia seria atacando a infraestrutura tecnológica. A civilização tem um intenso nível de dependência em eletricidade e “recursos”, o que se torna a sua maior fraqueza.

A fraqueza vem do fato de que esta civilização tecnológica-industrial se alicerça sobre recursos limitados, limitados não apenas no que diz respeito ao estoque futuro, mas ao presente. O carvão que abastece a indústria é levado para todos os grandes centros por trens e o petróleo é transportado por gasodutos e caminhões. Há uma quantidade limitada de combustível à disposição em todos os principais centros de energia. A fraqueza aqui reside no fato de que o sistema é dependente de energia elétrica não só para exercer o seu poder sobre as pessoas, mas também para se sustentar. O poder que alimenta impérios vem de usinas, e se elas não podem produzir, o império não pode usá-lo.

É possível que, se a energia fosse cortada por pelo menos duas semanas nesta nação, a civilização viria abaixo por aqui. A civilização não tem a capacidade de se levantar de volta rapidamente sem usar o mesmo nível de tecnologia que ela usa atualmente. Por exemplo, uma única casa de armazenamento de energia poderia ser reativada de forma rápida já que há outras máquinas lá para tentar corrigir o problema. Mas se a energia estiver totalmente inacessível em todas as grandes cidades e não houver outras opções reais, quais são as chances dela ser reativada.

Isso faz com que a rede de energia seja um alvo para os revolucionários. Há muito que se reconheceu que greves gerais param completamente uma nação, porque, se os produtos, e, portanto, o capital, não fluem a energia vital da nação é cortada. Este é um precursor direto aos ataques contra a rede de distribuição, porque se trata de pessoas que reconhecem que, como produtores, o poder estatal requer a sua complacência. As próprias pessoas são a mega-máquina, mesmo apesar da maior parte do trabalho ter sido automatizado hoje em dia. Afinal, todas as máquinas trabalham com algum grau de interação humana e ainda precisam de alguns trabalhadores para mantê-las/supervisioná-las. O poder ainda está em nossas mãos a este respeito.

No entanto, o poder revolucionário atual deve transcender a compreensão puramente proletária. O sistema de tecnologia tem crescido imensamente e continua a ser a chave para o poder do Estado. Ao longo das últimas décadas, correntes revolucionárias latino-americanos têm utilizado os ataques à rede de serviços como um método de insurreição. Embora seu objetivo não pareça ser a eliminação total da infraestrutura tecnológica, esses ataques têm percebido a sua importância. Por exemplo, a fim de atingir com êxito cidades-alvos, os insurgentes atacariam os geradores relativamente isolados, acabando com eletricidade por tempo o suficiente para poderem atacar as instituições, roubar bancos, etc. O que é importante aqui é entender que cortando a energia desabilitamos as funções do Estado, abrindo espaço para o potencial revolucionário.

Se houver um esforço grande o suficiente, ataques contínuos decapitariam o sistema tecnológico. Eletricidade é a alma da civilização moderna, e um olhar histórico para estas ações parece mostrar que elas poderiam ter continuado os seus esforços e causado danos mais permanentes.

Para focar nosso olhar em lugares mais próximos, John Zerzan oferece uma análise da onda revolucionária que se despertou através do apagão em Nova Iorque em 1977.[11] Ele aponta para os saques e as festas de rua que transcendiam linhas de raça e sexo enquanto aqueles que não tinham nada mais a perder se libertavam durante um período de anonimato. As levas de pessoas nas ruas, que viviam um momento “não-mediado/não-ideologizado” fizeram com que todos os porcos ficassem cagando de medo. Imagine um apagão global.

E o que aconteceria um tempo após isso? As pessoas só podem viver à base de alimentos enlatados pelo tempo necessário para que elas sejam forçadas a tentar lidar com a situação ou para que afundem com o navio. Haverá outras questões também, e as pessoas serão forçadas a questionar a sua dependência do sistema tecnológico quando carros e ônibus estiverem inoperantes. Em um breve período sem eletricidade é possível aproveitar essa oportunidade para despertar as pessoas para a loucura completa da velocidade mecânica da sociedade tecnológica. A impotência literal do Estado abre todos os tipos de possibilidades para a ação revolucionária. Quanto mais o Estado concentra seus esforços em restabelecer sua ordem tecnocrática, mais ele fica vulnerável à sabotagem em todos os níveis.

Esta situação é necessariamente preferível? Em comparação com as outras possibilidades que enfrentamos (como a guerra nuclear) e a inevitabilidade do colapso, quem não gostaria de fazer disso uma experiência positiva? É importante lembrar que não estamos tão longe de uma vida sem tecnologia e ainda temos a sorte de existirem memórias vivas dos “velhos modos de vida”. Os confortos materiais ocos da sobrevivência espetacularizada não serão nada quando a experiência real e a vida forem experimentadas. Se as chances forem usadas para empoderar as pessoas, quem sabe o que poderia acontecer. Devemos sempre lembrar que as coisas pioram antes de melhorar, mas temos o potencial dentro de nós para fazer algo a respeito disso.

Este ensaio tratou de perguntas nas quais eu tenho pensado já a algum tempo. Uma compreensão de nossa situação é vital para avançarmos, e também para muitas pessoas que estão em pé atrás das linhas laterais esperando por algo que possam fazer. Talvez o que estamos esperando surgirá quando começarmos a fazê-lo surgir, e que melhor momento do que agora?

Mais uma vez, isso está longe de ser um tipo de observação final sobre o assunto, mas é uma abertura para onde as coisas podem estar indo. Ideias filosóficas ou teóricas sobre quando seria o momento perfeito para alguma coisa acontecer não estão fazendo as coisas acontecerem. “Tudo pode acontecer”, então o que você está esperando?

 

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[1] É importante notar que DeFronzo está se referindo a uma visão mais “tradicional” da revolução, como a tomada do poder do Estado. Considerando que o interesse aqui reside na abolição de todo o poder, as mesmas condições prévias parece manterem-se.

[2] DeFronzo, James, Revolutions and Revolutionary Movements, Boulder: Westview, 1996.

[3] Evans, Arthur, Witchcraft and the Gay Counterculture, Boston: Fag Rag, 1978.

[4] Vaneigem, Raoul, Revolution of Everyday Life, London: Rebel, 2001.

[5] Zerzan, John, Future Primitive, Brooklyn: Autonomedia, 1994. Page 136.

[6] Aleksa, personal correspondence, Jan. 2003.

[7] Camatte, Jacques, This World We Must Leave, Brooklyn: Autonomedia, 1995.

[8] ibid, pg. 68.

[9] Esta é essencialmente a linha de fundo da crítica anarco-primitivista à civilização. Para mais informações sobre essa crítica nesta edição leia o trabalho de John Zerzan e em seu ensaio “origins“.

[10] É importante mencionar que o foco deste trabalho são o poder nos Estados Unidos e no Ocidente, isso porque: 1) é onde eu moro, 2) Eu sinto que o EUA é um ponto fundamental para o poder global. Eu sinto fortemente que podemos colapsar o EUA, isso estimularia a queda de outros impérios co-dependentes. O mesmo seria válido para potências europeias. Isto não significa que devemos sobre-enfatizar os revolucionários norte-americanos (que precisam de um bom chute na bunda) ou revoluções em andamento no resto do mundo, este é apenas um ponto contextual.

[11] ‘New York, New York’ in Elements of Refusal, Columbia:CAL, 1999.


Autor: Kevin Tucker

Fonte: Revolution And/Or Insurrection: Some Thoughts on Tearing this Muthafucka Down. Anarchist Library.

Tradução: Ctenomys (junho de 2016)