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DESCIVILIZANDO A PERMACULTURA – por Tanday Lupalupa

florestal

 

Tanday Lupalupa


Neste ensaio, quero explorar como a permacultura se cruza com a crítica anarquista/anárquica, anti-colonialista e anti-civilização. De forma alguma eu desejo trazer de reboque alguma linha anarco-primitivista (embora eu não possa negar que haja alguma inspiração), mas sim levantar questões sobre onde a permacultura acompanha uma crítica à civilização, e onde, possivelmente, diverge. Algumas das críticas que eu levantarei aqui decorrem de meus anos de estudo e experiência na área, onde a minha visão crítica muitas vezes chegou a estar em desacordo com os meus colegas.

No meio ambientalista contemporâneo, tanto a teoria da permacultura quanto a sua prática se tornaram populares como meios para reparar os solos que foram empobrecidos e, assim, tentar viver de forma mais sustentável em nosso planeta. É uma resposta à crise ecológica que enfrentamos, independente se a conversa está centrada em torno da mudança climática, da destruição do meio ambiente, da segurança alimentar ou de tudo isso.

Então, o que é permacultura? Um dos co-criadores do conceito de permacultura, Bill Mollison[1], e seu colega Scott Pittman, a definem da seguinte forma:

“Permacultura (Agricultura Permanente) é o planejamento e manutenção consciente de ecossistemas cultivados que tenham a diversidade, a estabilidade e a resiliência dos ecossistemas naturais. É uma integração harmoniosa entre a paisagem, as pessoas e tecnologias adequadas, proporcionando alimento, abrigo, energia e outras necessidades de uma forma sustentável. A permacultura é uma filosofia e uma abordagem do uso da terra que trabalham com ritmos e padrões naturais, interligando os elementos do microclima, plantas anuais e perenes, animais, água, manejo do solo e as necessidades humanas em comunidades intrinsecamente ligadas e produtivas”.

Permacultura como um conceito é, de fato, algo bastante amplo. Ela se apresenta tanto como algo mais em sintonia com as verdadeiras complexidades do mundo quanto como algo vulnerável à cooptação. A permacultura não existe como uma singularidade, mas sim como uma multiplicidade. Por exemplo, a agricultura é uma disciplina de produção de alimentos sem conhecimento de sua relação com outras disciplinas, enquanto a permacultura é interdisciplinar: ela tenta entender a interligação de um ecossistema com o seu todo.

Dada a amplitude do conceito de permacultura, não se pode fazer nenhuma análise generalizada sobre ela. Em vez disso, podemos explorar os diferentes aspectos da mesma, tanto na teoria quanto na prática, e ver se ela complementa ou se opõe a uma crítica anti-civilização.

Antes de continuar, pode ser útil explicar de onde eu venho. Houve um tempo a poucos anos atrás em que, depois de ter me tornado mais familiarizada com ideias anti-civilização, comecei a desconstruir coisas como a minha relação com a terra e a minha própria ideia de autonomia – ou seja, a minha própria autossuficiência. Que habilidades eu tinha? O que eu sabia sobre o mundo natural? O que eu sabia sobre o ambiente/biorregião em que eu vivia? Eu estive na verdade viajando por um longo tempo, e tinha muito pouco senso de lugar. Eventualmente, pensei que era hora de voltar para as terras onde eu cresci (ou para perto delas), que era onde a permacultura tinha sido primeiramente desenvolvida. Naquela época, eu via o aprendizado sobre a permacultura como um meio de desenvolver um relacionamento com uma das coisas que me sustenta – os alimentos. É claro que eu tinha sonhos mais selvagens, por assim dizer, mas eu via isso como um ponto de partida.

E, a partir daí, de diferentes formas, eu passei a estudar permacultura, tanto formalmente através de vários cursos, quanto informalmente através de leitura, conhecendo pessoas e participando de projetos.

E é aí que a minha jornada começou.

 

O Problema das Cidades: a Permacultura Urbana

A maior parte do meu envolvimento com projetos permaculturais, em cursos ou de outras formas, era geralmente baseada no ambiente urbano. Isto, obviamente, não é tão surpreendente, devido ao fato de que eu vivia na cidade durante aqueles tempos. Eu, entretanto, experimentei algumas dimensões rurais da permacultura, especificamente um curso rural (nesse caso, logo além da área urbana) e algumas excursões rurais. Era parte dos aspectos rurais do design permacultural que precisei aprender em todos os cursos. No design de permacultura, uma determinada propriedade é tradicionalmente dividida em cinco (ou seis) zonas. Segundo a Wikipedia:

“As zonas são uma forma de organizar inteligentemente os elementos de design em um ambiente com base na frequência de uso humano e nas necessidades de plantas ou animais.”

No entanto, devido ao fato de geralmente as propriedades urbanas terem um tamanho reduzido apenas as primeiras três zonas (Zona 0 sendo a casa) sempre são as únicas realmente utilizadas, e isso tem diminuído para duas, devido ao desaparecimento do espaço de quintal. Esse é o escopo geral da permacultura urbana.

Um dos aspectos da permacultura que logo de cara se torna suscetível de análise é como ela se manifesta em ambientes urbanos. Permacultura em cidades pode incluir hortas comunitárias, fazendas urbanas, hortas de quintal e é uma tentativa de tornar os espaços urbanos mais autossuficientes e reduzir a nossa pegada de carbono[2]. Uma crítica anti-civilização das cidades é que a sua existência é baseada na importação de recursos (por exemplo, alimentos) de áreas rurais. A permacultura, especialmente a sua variedade urbana, tenta mediar isso. Curiosamente, em ambos os cursos em que participei, a ideia da pegada de carbono foi apresentada e, pelo menos uma vez, a nossa própria pegada foi analisada.

Da forma como nossa área imediata é, uma grande concentração de seres humanos em um espaço confinado, não há espaço nela para produzir os meios de nossa subsistência. A importação de recursos, sendo o alimento um dos mais importantes, logo gera um aumento de nossa pegada de carbono. Quanto maior a distância exigida para importar essas coisas, mais o sistema requer a existência de uma infraestrutura industrial para movê-las (por exemplo, um caminhão transporta alimento de uma fazenda para um supermercado na cidade, ele é movido à petróleo, que é transportado da Arábia Saudita em um navio e que é extraído por equipamentos que também são movidos por petróleo… ad infinitum).

Assim, a permacultura olha para uma determinada situação e tenta usar princípios de design, a fim de usar os recursos pré-existentes em um pedaço de terra (seja rural ou urbano) para avançar rumo à autossuficiência, com um impacto ecológico inferior (i.e., uma pegada de carbono inferior) e, geralmente, para gerar uma propriedade mais verde. Este fato vai além da comida, pois é uma abordagem holística para a análise de um determinado lugar e também pode incluir coisas como armazenamento de água, utilização de luz natural, compostagem, et cetera.

Não é o propósito deste ensaio discutir em detalhes (embora eu vá fazer isso mesmo que brevemente) se a permacultura concebida em cidades pode produzir alimento suficiente para seus habitantes. Tais contextos não existem na minha experiência no Ocidente. Acima disso, Havana (Cuba) é frequentemente defendida como a grande esperança da permacultura urbana (veja o documentário O Poder da Comunidade: Como Cuba Sobreviveu ao Pico do Petróleo[3]) – apesar de ainda não produzirem todos os seus próprios alimentos. Eu acho que o que acontece lá é uma experiência interessante, como uma experimentação, é algo importante para a nossa adaptabilidade ao contexto de mudança frente ao caos ecológico que se aproxima cada vez mais, mas eu também acho que essa fixação em “salvar as cidades” pode muito bem estar dançando com o diabo, mais uma manifestação de greenwashing[4].

Derrubar as cidades ainda mais, essa é a ênfase em se inspirar na natureza, da qual a cidade é praticamente a antítese, já que tal densidade de seres humanos não pode ser mantida pela capacidade de suporte de uma determinada área. Segundo a Wikipédia:

“A capacidade de suporte de uma espécie biológica num ambiente é o tamanho máximo da população da espécie que o meio pode sustentar indefinidamente, dado o alimento, habitat, água e outras necessidades disponíveis.”

De acordo com Toby Hemenway[5], Paris produz 30% de sua própria comida, mais do que a maioria das cidades ocidentais, e da mesma forma, Hugh Warwick observa que Havana produz até 50%. Assim, mesmo na Meca da permacultura, a dependência da agricultura rural (permacultura?) ainda é de 50%. Hemenway, um permacultor que vive na cidade de Portland, diz:

“Podemos melhorar nossa capacidade de produzir alimentos nas cidades, mas eu não acho que podemos melhorar o suficiente”.

Eu tendo a concordar. Densidades populacionais características das cidades não estão em harmonia com qualquer capacidade de suporte ecológico. E eu acho que a ideia de cidades está tão incorporada em pelo menos alguns ramos da permacultura que ela se manifesta mesmo fora da cidade.

Na verdade, eu acredito que há uma certa desonestidade ou desilusão, na melhor das hipóteses, dentro da filosofia da permacultura urbana ocidental ao dizer que certos modos de vida – estilos de vida urbanos – possam ser mantidos dentro da capacidade de suporte. Eles não podem. Isto vai além da simples existência de cidades, já que tenho testemunhado o simples transplante do estilo de vida urbano para o ambiente rural. Há um individualismo predominante nisso, entrelaçado com uma confusão de hiper-privilegiados – se apropriando da terra para si mesmos (ou simplesmente reproduzindo a família nuclear), pagando para que tanto o design quanto a construção sejam realizados por outras pessoas, mantendo todos os seus confortos da cidade (por exemplo: eletricidade, possibilidade de ir ao supermercado, entre outros). Muitas vezes, essas casas são muito maiores do que o necessário. Isto parece ser uma desculpa para essas pessoas viverem com ética no luxo. É repugnante, e esse tipo de coisa tipifica a minha dificuldade atual de me identificar por completo com a permacultura. Alguns também tentam construir por si mesmos, mas seja por uma questão de design ou por falta de mão de obra, leva décadas para que eles terminem de construir suas casas. Novamente, se estamos nos inspirando na natureza, não precisamos olhar mais longe do que em nós mesmos. Quando nossa espécie viveu com a natureza e não se opondo a ela, tanto no passado quanto hoje por meio de seus remanescentes, nós evolutivamente vivíamos juntos – em uma comunidade. Como Kevin Tucker[6] disse, “rewilding[7] nunca é uma aventura solitária.”

No entanto, uma distinção importante a fazer é que tais manifestações de permacultura diferem muito de acordo com o contexto, como o acesso à riqueza. O que isto significa na prática especificamente é a forma como a tecnologia é usada. Nos países mais ricos, especialmente em ambientes urbanos, a fixação pelo uso de dispositivos tecnológicos complexos aumenta. Em vez de eles serem uma opção, muitas vezes parecem ser mais uma norma social. Se o acesso desempenha um papel importante nas formas que a permacultura pode adotar, então as versões dela que podem parecer mais ecologicamente corretas são designs mais simples que não exigem o mesmo acesso aos privilégios econômicos e os recursos que os projetos altamente tecnológicos requerem. É esta simplicidade, enfim, que inspira a adaptação, o design holístico e o conhecimento por meio da necessidade.

 

O Problema Semântico: Pico do Petróleo/Declínio Energético, Sustentabilidade e Colapso

Uma divergência interessante e esclarecedora é a maneira com que o pico do petróleo (ou o pico de tudo, nas palavras de Richard Heinberg[8]) é enquadrado. Ao invés de usar as palavras acima mencionadas, ou mesmo colapso, palavra mais emotiva e provocadora, alguns permaculturalistas como David Holmgren[9] se referem a um conceito de “Declínio de Energia” (também referido como “Declínio Criativo”). Isto se refere a:

“retração do uso de petróleo após o alcance do pico de sua extração… a fase de transição do petróleo pós-pico, quando a humanidade passa do uso crescente de energia verificado desde a revolução industrial até um uso decrescente de energia.”

Um dos elementos mais produtivos desse quadro, em oposição a um estilo mais colapsista, é que a criação desta imagética do declínio desmascara a ideia de que existe algum evento climático mágico que trará a destruição ecológica em massa e, com ela, a queda da civilização. Em vez disso, ele aponta para as coisas se desdobrando em etapas e, possivelmente, muito lentamente (relativamente falando). No entanto, ele vai além disso, também é entendido como um declínio mais suave, mais voluntário do que algo que está fora de nossas mãos. Mais especificamente, um outro conceito popular neste meio é o de Planejamento de Declínio Energético (ou seja, de transição), um processo desenvolvido pelo The Transition Towns Movement[10]. Este é um sistema para o desenvolvimento de planos locais para desenvolver designs e nos preparar para o declínio da energia. Neste sentido, significa o processo real de mudar gradualmente a maneira como vivemos, bem como as fontes de energia que usamos (energia alternativa), trocando-a por uma mais saudável para a terra para suavizar o declínio de energia.

No geral, esta é uma maneira muito útil de enquadrar a equação. A criação de estruturas em que positivamente possamos trabalhar juntos, de forma descentralizada, em comunidades específicas de nossa região, é de grande apelo. No entanto, tal formulação positiva não é isenta de perigos, ou seja, de greenwashing. Sem mencionar que ela pode criar a ilusão de que talvez as coisas não sejam tão ruins. É no clichê da falsa dicotomia entre positivo/negativo, que se pode dizer: “eu não quero pensar nos aspetos negativos, apenas nos positivos.” Claro, eu não estou sugerindo que você saia à procura das chamadas experiências negativas, mas sim, melhor do que isso, sugiro que entenda que a armadilha é a bolha. Você vai esquecer a realidade. Na verdade, você estaria criando algo como uma bolha se esquecesse da realidade em sua totalidade, mas com os tipos de paredes que as pessoas criam em suas vidas, em suas mentes, estourar algumas bolhas, por vezes, é uma forma de verificação da realidade bastante necessária.

Pode não acontecer um colapso. Talvez aconteça um declínio de energia. Poderíamos ter sorte. Mas, honestamente, nós realmente não sabemos o que vai acontecer. O que eu sei é que pode ser algo horrível de forma que nenhuma argumentação otimista poderia nos salvar de tudo o que vem pela frente.

Então, há essa ideia de sustentabilidade. O que exatamente significa sustentável?

Desconstruindo a palavra “sustentabilidade” para tentar desvendar o que ela realmente implica, a palestra de Toby Hemenway ‘Como a Permacultura pode salvar a humanidade e o planeta, mas não a Civilização’[11], ilumina a conversa. O que ele propõe é que a sustentabilidade é, na verdade, um certo equívoco. Não é realmente algo que diz respeito a uma ecologia saudável, mas sim a sobrevivência em meio à destruição. Por exemplo, a chamada exploração madeireira sustentável pode não afetar diretamente as árvores de outras florestas fora da região designada à derrubada sustentável, mas ela não ajuda a curar qualquer destruição que foi, será, e está atualmente sendo realizada sobre estas florestas. Então Hemenway coloca a sustentabilidade como um ponto no meio do caminho entre o que ele chama de práticas degenerativas e regenerativas. A primeira delas diz respeito a ações que facilitam a degradação dos ecossistemas (isto é, tudo o que a cultura dominante faz), enquanto a segunda facilita a cura do ecossistema (ou seja, tudo o que a cultura dominante não faz). Este é um ponto interessante, e na verdade ajuda a desconstruir a fachada que afirma que este chavão, sustentabilidade, está ajudando a salvar o planeta. É novamente o greenwashing, tentando limpar a barra dos nossos estilos de vida destrutivos. Assim, na permacultura, a prática regenerativa tenta imitar funções ecológicas naturais que ajudam a reparar os diferentes tipos de danos que foram infligidos pela civilização. A mensagem é clara: ser “sustentável” não vai salvar a Terra. Até que você me mostre um painel solar que não necessite de mineração, os danos ainda estarão sendo feitos.

 

O Problema da Agricultura: Horticultura, Permacultura e Natureza Selvagem[12]

Então surge a pergunta – se trata de uma questão de escala? A chamada permacultura urbana acaba sendo (ou, pelo menos, dependendo de) uma outra forma de agricultura. Podemos melhorar nossas habilidades de cultivar alimentos nas cidades, mas não podemos produzir tudo que é necessário para nós mesmos: por isso, precisamos da agricultura rural. Onde é que isso sai do escopo da permacultura? E onde é que isso sai do escopo da natureza selvagem? Alguns propõem um olhar antropológico sobre sociedades hortícolas como uma possível ligação entre permacultura e vida selvagem. Jason Godesky e Toby Hemenway tentam definir horticultura:

“Como mencionei, [Yehudi] Cohen [em Man and Adaptation] localiza uma outra forma de cultura entre a caça-coleta e a agricultura. Estes são os horticultores, que utilizam métodos simples de cultivar plantas e animais úteis. Horticultura, nesse sentido, é difícil de definir com precisão, porque a maioria das sociedades de caça-coleta tendem a plantar em algum grau, a maioria dos horticultores também coletam alimentos selvagens e, em algum ponto entre um galho para cavar o solo e o arado, um povo deve passar a ser reconhecido como um povo agrícola. Muitos antropólogos concordam que a horticultura geralmente envolve um período de pousio, enquanto a agricultura supera esta necessidade através da rotação de culturas, fertilizantes externos e/ou outras técnicas. A agricultura também tem uma escala maior. Simplificando, horticultores são mais jardineiros do que agricultores.”

Para enfatizar a diferença aqui, a menção de coisas como fertilizantes é importante porque a intensidade e escala da agricultura baseia-se em fontes externas de nutrientes, e até mesmo de energia. Isto é semelhante à dependência de uma cidade por recursos externos para se manter. A permacultura em grande escala requer grandes espaços selvagens para a extração de recursos (isto é, a mineração – petróleo, etc). Mas, claro, a expansão das cidades faz com que os espaços selvagens sejam contraídos, como é exemplificado pela agricultura e, especialmente, pelo industrialismo.

Tanto a horticultura quanto a permacultura contem elementos de jardinagem. Ambos têm esta medida de escala e encorajam a diversidade (em oposição ao monocultivo da agricultura). Há um continuum entre a permacultura e o forrageamento[13]. Por exemplo, a zona mais selvagem da permacultura, a zona 5, permite a caça e a coleta. E até mesmo alguns dos locais que eram reconhecidos como áreas selvagens onde ocorria a coleta de alimentos por parte de sociedades hortícolas são hoje percebidos como espaços transformados para se tornarem sua própria versão da agrofloresta permacultural. Se, então, o objetivo é a natureza selvagem, e não simplesmente a horta, a permacultura é um passo na direção certa. Embora, para ser honesto, os permaculturalistas que conheci sempre pareciam ver a floresta como um espaço para as árvores – eles viam apenas uma horta.

A permacultura permite, ecologicamente, múltiplas funções, mas Hemenway também alega que ela não pode executar todas essas funções, daí a necessidade de grandes espaços selvagens:

“Você não pode simplesmente transformar o mundo inteiro em uma horta. Existem importantes funções do ecossistema que serão obstaculizadas se tivermos ajardinado completamente todo o planeta. Nós não sabemos o suficiente sobre as funções do ecossistema para executar tudo por nós mesmos. Temos que deixar uma grande parte dele ficar selvagem de modo em que uma grande parte do não muito bem conhecido e não muito bem compreendido ecossistema e suas funções não passíveis de manejo possam prosseguir.”
Sendo assim, novamente, o sucesso da permacultura, bem como o da horticultura, depende da existência de espaços selvagens para a manutenção das funções do ecossistema. E aqui, na presença da natureza selvagem, é que a questão da pegada de carbono e da capacidade de suporte realmente chocam. A compreensão padrão da pegada de carbono de um indivíduo refere-se à quantidade de terra, ou quantos planetas Terra (!) seriam necessários para as suas necessidades. Isso geralmente se refere ao uso humano da terra – a agricultura. Mas se o mundo inteiro fosse uma fazenda, ou uma horta, então onde estariam os animais? Não, não vacas ou galinhas, mas os animais selvagens. Onde estariam os recursos? A capacidade de suporte refere-se a todos os seres vivos (humanos ou não) numa determinada biorregião, por isso há um problema óbvio com o antropocentrismo que até certo ponto está dentro da permacultura também. Assim, cada parte desta terra não é simplesmente uma unidade de produção, como alguns podem perceber com sua precisão na medição da vantagem produtiva do cultivo de grãos em um pedaço de terra contra a usá-la para criar gado. O truque, novamente, é o antropocentrismo. Ambas as escolhas agrícolas não permitem a sobrevivência de animais selvagens. Isso traz à tona a questão do biocentrismo, a ideia de que este planeta que habitamos não existe unicamente para o nosso uso – que temos que compartilhá-lo.

Jason Godesky também fala sobre as origens da ligação entre a permacultura e a horticultura:

“É certamente instrutivo verificar o fato de que muitas das técnicas permaculturais favoritas – melhoria de margem, consórcio de culturas, cooperativas e até mesmo muitas das técnicas de Fukuoka[14], como as seedballs [15] – encontram-se entre as culturas hortícolas em todo o mundo. Existe alguma coisa que pode distinguir a permacultura da horticultura? Até o momento, não fui capaz de encontrar qualquer coisa capaz de realizar essa distinção, o que me leva à conclusão de que a permacultura está em grande parte re-inventando a roda horticultora.”

Portanto, o caso não é que a permacultura e a horticultura tenham algumas semelhanças acidentais, mas que a permacultura é diretamente influenciada pela horticultura. Isso acontece de forma semelhante à maneira com que o anarco-primitivismo é influenciado por sociedades de caçadores-coletores. Isso pode ser visto como um caminho para aqueles (por exemplo, os europeus) cujas culturas e modos de vida tradicionais ligados à terra foram destruídos, dando crédito àqueles cujos modos de vida existiram no passado ou ainda existem hoje. Sem dúvida, técnicas de horticultura foram integradas à permacultura, como provado por “permaculturalistas” que já estavam fazendo isso ainda antes de ter sido “inventado”. O conhecimento redescoberto de técnicas como as seedballs foi também integrado. Literalmente, é como um processo de reaprendizagem do que estava dando certo, do que funcionou. Mas este processo, é claro, é proveniente de nossa situação atual, dependente da agricultura industrial. O lugar de onde viemos é muito contaminado, e não simplesmente por nossas técnicas que exigem muitos recursos (por exemplo, materiais dependentes da mineração), mas pela globalização e colonização. Isto inclui plantas e animais, é claro, embora eu não seja, de forma alguma, dogmática contra espécies não-nativas (o que inclui os seres humanos!). Mas o que eu também estou me referindo é à ideologia.

Pela ideologia, não me refiro a alguma ideologia vaga anti-tudo. Todo mundo acredita em algo, ou, pelo menos, usa certas palavras como uma forma de transmitir uma aproximação das ideias, embora, naturalmente, essas palavras nunca terão qualquer significado autêntico por causa da linguagem simbólica. Nós nos inspiramos por muitas coisas, e nos identificamos de várias maneiras, mas o ponto é adaptar isso ao seu próprio contexto. A ideologia homogeneíza. A agricultura é ideológica. E sua capacidade de aplicar-se universalmente a todo e qualquer contexto é colonização. Além disso, a predicação da agricultura sobre os recursos externos, por causa do esgotamento que ela cria em seu próprio contexto, exige expansão. Isto é a civilização.

 

O Problema da Ideologia: Eurocentrismo, Globalização e Autonomia

“A agricultura em si deve ser superada, enquanto uma forma de domesticação, e isso porque remove mais matéria orgânica do solo do que coloca de volta. Permacultura é uma técnica que parece tentar uma agricultura que se desenvolve ou se reproduz e, portanto, tende a se aproximar da natureza e se afastar da domesticação. É um exemplo de formas provisórias de sobrevivência promissoras enquanto nos movimentamos para longe da civilização”. – John Zerzan

Onde isso nos leva agora? Na verdade, a permacultura é um continuum da horticultura. Talvez, então, isso faça da permacultura um processo transitório alinhado a uma crítica anti-civilização, e talvez até ao anarco-primitivismo. No entanto, como em tudo sob o capitalismo, e sob a civilização, ela tem mecanismos insidiosos que ajudam a se perpetuar e se reproduzir. E através da globalização e da colonização, a ideologia do eurocentrismo se espalhou. John E. Drabinski postula o seguinte:

“Eurocentrismo é um componente chave do colonialismo não apenas como uma relação política e econômica, mas também como um projeto cultural: tomando a si mesma como sua medida para tudo, a Europa pode fazer o seu trabalho violento por todo o mundo sem nunca ser questionada pelas vítimas. Além disso, e duplicando a violência, usando a si mesma como medida para apoiar a relação missionária como força civilizadora que figurou como algo central para a dominação global após a conquista e escravização. A conversão para línguas e valores europeus (em sentido lato) torna-se equivalente a instalar a civilização onde anteriormente ela não existia”.

E o zine Deserto relaciona isso ao anarquismo:

“Não é surpreendente que isso esteja acontecendo como parte da globalização e do crescimento das cidades, dado que as sementes do movimento social Anarquismo são em grande parte dispersadas ao redor do planeta presas aos sapatos do capitalismo e que, muitas vezes, crescem melhor, assim como as ervas daninhas, em terrenos difíceis.”

O mesmo, é claro, poderia ser dito sobre o anarco-primitivismo, o Marxismo autonomista, o anarquismo insurrecionalista, bem como muitos outros ismos ocidentais, bem como a todos aqueles utilizados pelas políticas de identidade. Você pode ver isso nas plantas em hortas de permacultura – dietas importadas de outros lugares e consolidadas através de genocídio. Tenho inúmeras discordâncias para com os meus colegas permaculturalistas a respeito da romantização de plantas e animais europeus. Você pode perceber isso nas ideias que são normalizadas nas nossas sociedades, no microcosmo, em nossas comunidades (ou na ausência delas). O ponto não é impedir o compartilhamento de ideias (e nem criar uma falsa dicotomia entre “puro” e “não-puro”), ou não permitir a crítica, o ponto é simplesmente reconhecer a autonomia. A imposição de ideias e a ideia de superioridade que vem junto com elas partindo de um lugar de poder (ou seja, da supremacia branca/eurocêntrica), é a própria antítese disso. Em Green Anarchy[16], Aragorn![17] fala de forma similar sobre Autodeterminação e Descentralização Radical. O ponto aqui é que as pessoas, os anarquistas, por exemplo, podem adotar uma política que gere uma singularidade. Este é o momento onde a solidariedade morre, quando você não se envolve com pessoas partindo de fora da sua “compreensão da realidade”, mas sim esperando que a “realidade entre em conformidade com o seu entendimento sobre ela.” Além disso, Aragorn! apresenta algumas ideias interessantes sobre o que ele acredita que poderia ser um Anarquismo Indígena:

“…Um anarquismo do lugar em que vivemos. Isto parece impossível em um mundo que tomou para si a tarefa de nos colocar em lugar nenhum. Um mundo que nos coloca em lugar nenhum universalmente. Mesmo o lugar onde nós nascemos, vivemos e morremos não é a nossa casa. Um anarquismo do lugar em que vivemos poderia buscar como viver em uma área para toda a sua vida. Ele poderia se basear em aprender a viver tanto em áreas que são fortemente arborizadas próximas de corpos d’água capazes de sustentar a vida, quanto em locais secos. Poderia viabilizar a viajem através dessas áreas. Possibilitaria viagens anuais ditadas pelas condições ou pelo desejo das pessoas envolvidas. Ele poderia ser de muitas formas exteriormente, mas seria ditado pela escolha e pela experiência subjetiva das pessoas que vivem no lugar, e não pela exigência de prioridades econômicas ou políticas. A localização é a diferenciação que é esmagada pelo concreto da urbanização e pelo pilão da cultura de massa para produzir a pasta da alienação moderna. Finalmente, um anarquismo indígena nos coloca como uma parte irremovível de uma extensa família. Esta é uma extensão da ideia de que tudo está vivo e de que, portanto, estamos relacionados a tudo no sentido em que também estamos vivos. É também uma declaração com uma clara prioridade. A conexão entre os seres vivos, o que nós abreviaríamos chamando de família, é a maneira com que nós nos entendemos no mundo. Somos parte de uma família e conhecemos a nós mesmos através dela. Deixando de lado a linguagem secular por um momento, é impossível compreender a si mesmo ou um ao outro fora do espírito. Este é o mistério que deve permanecer fora da linguagem: que todos nós compartilhamos e que partilhar é viver.”

Eu tomo inspiração de muitas coisas, como a permacultura e o anarco-primitivismo, entre outros. Eu não os vejo como roteiros para a nossa libertação (essa não é necessariamente a forma como eles pretendem ser tomados, embora isso não impeça que algumas pessoas os percebam dessa forma). A forma como eu vejo incentiva estratégias adaptativas específicas à localização de onde partimos para os futuros possíveis à frente. Eu também vejo-os como ferramentas para descobrirmos a libertação em nós mesmos, em nossos amigos, família, nas comunidades e no ambiente onde vivemos. Mas realmente não importa se você usa essas palavras ou não. Para mim, coisas como permacultura e anarco-primitivismo estão tentando, em algum grau, reinventar a roda. No entanto, eles são úteis para nos lembrar do que já estava dando certo em nossas histórias culturais. Podemos usar palavras diferentes, palavras a partir de nossas próprias culturas, por exemplo, mas se tivéssemos que realmente procurar todas as palavras que poderiam descrever os nossos desejos, de amor, de selvageria e de libertação total, eu descobriria que não há palavras boas o suficiente: silêncio.

Se tornar selvagem e livre, novamente, é uma progressão. A doença do espetáculo, de coisas como gratificação instantânea, cria esses delírios de que as coisas são imediatamente consumíveis e nos faz seguir adiante para a próxima coisa à consumir. Na natureza, esta é uma falsidade. Quando desenvolvemos relações diretas com a nossa comida, amigos/família/comunidade, biorregião, etc, nossa percepção do tempo inevitavelmente muda. Não podemos voltar a sermos selvagens do dia para a noite. É provável que isso não seja possível mesmo em toda nossa vida. A destruição da civilização também é um projeto de longo prazo. Mas nós somos apenas um ponto na vida desta terra, e os primórdios do mundo que estamos construindo estará em nossos filhos, e nos filhos deles, e nos filhos das raposas que comem suas galinhas. E nas cinzas do mundo que deixamos para trás.

***

“Qualquer biorregião pode ser libertada através de uma sucessão de eventos e estratégias com base nas condições únicas a ela.” – Seaweed

***

Este será um processo tanto selvagem quanto orgânico, adaptável e local, geracional, aprendendo com vocês mesmos e uns com os outros, onde, na diminuição da homogeneização ideológica, a diversidade, humana e natural, reina. A permacultura pode ser um passo. O anarco-primitivismo também pode ser outro. Eu posso não ver claramente o caminho, mas as trilhas parecem me levar em uma direção a qual eu desejo seguir. – Tanday Lupalupa


Bibliografia:

  • Anonymous, Desert.
  • Aragorn!, Locating An Indigenous Anarchism, Green Anarchy #19
  • John E. Drabinski, Derrida, Eurocentrism, Decolonization
  • Jason Godesky, Thirty Theses
  • Toby Hemenway, How Permaculture Can Save Humanity and The Planet, but not Civilization
  • Toby Hemenway, Is Sustainable Agriculture an Oxymoron?
  • Bill Mollison & Scott Pittman, La Tierra Community CA PDC flyer
  • Seaweed, Land and Freedom: An Open Invitation
  • Hugh Warwick, Cuba’s Organic Revolution
  • Koorosh Zahrai – Eurocentrism: The basis of our society, culture, and source of our problem coexisting with nature
  • John Zerzan, Running On Emptiness

 


Autor: Tanday Lupalupa
Fonte: Uncivilizing Permaculture. In: Black Seed #1. 2014

Tradução: Ctenomys (inverno de 2016)

 


[1] Bill Mollison (Tasmânia, Austrália, 1928) é pesquisador, autor, cientista, professor, naturalista e é considerado o pai, junto com David Holmgren, da permacultura, um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana (jardins, vilas, aldeias e comunidades) ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis.

[2] Pegada ecológica é uma expressão traduzida do inglês ecological footprint e refere-se, em termos de divulgação ecológica, à quantidade de terra e água que seria necessária para sustentar as gerações atuais, tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos, gastos por uma determinada população.

[3] https://vimeo.com/134106541

[4] Greenwashing (do Inglês green, verde, a cor do movimento ambientalista, e washing, lavagem, no sentido de modificação que visa ocultar ou dissimular algo), em português, lavagem verde; é um anglicismo que indica a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações (empresas, governos, etc.) ou pessoas, mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas. Tal prática tem como objetivo criar uma imagem positiva, diante a opinião pública, acerca do grau de responsabilidade ambiental dessas organizações ou pessoas (bem como de suas atividades e seus produtos), ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados. (Wikipedia)

[5] Toby Hemenway é um autor e educador americano que tem escrito extensivamente sobre permacultura e questões ecológicas. (Wikipedia)

[6] Kevin Tucker é um escritor anarco-primitivista que vive na zona rural da Pensilvania. (Wikipedia)

[7] Movimento de reaprendizado de estilos de vida e técnicas fundamentadas em tradições indígenas e modos de vida de caça e coleta. (N.T)

[8] Richard Heinberg (nascido em 1950) é um jornalista e educador estadunidense que tem escrito extensivamente sobre energia, economia e questões ecológicas, incluindo a diminuição do petróleo. (Wikipedia)

[9] David Holmgren (nascido em 1955) é um ecologista, escritor e co-criador do conceito permacultura, em conjunto com Bill Mollison.

[10] http://transitionus.org/transition-town-movement

[11] https://www.youtube.com/watch?v=8nLKHYHmPbo

[12] Tradução livre do termo em inglês ‘Wild’. (N.T.)

[13] Forrageamento é a busca e a exploração de recursos alimentares. (Wikipédia)

[14] Masanobu Fukuoka (2 de fevereiro de 1913 – 16 de agosto de 2008) foi um agricultor e microbiólogo japonês, autor das obras A Revolução de uma folha de Palha e A Senda Natural do Cultivo, onde apresenta suas propostas para o plantio direto assim como uma forma de agricultura que é conhecida por agricultura selvagem ou método Fukuoka.

[15] Bolas de terra onde são inseridas sementes e nutrientes de forma que possam ser jogadas em solos para que as plantas crescam naturalmente.

[16] A Green Anarchy Magazine era uma revista publicada por um coletivo localizado em Eugene, Oregon. O foco da revista era primitivismo, anarquia pós-esquerda, ambientalismo radical, lutas afro-americanas, resistência anarquista, resistência indígena, libertação da terra e dos animais, anti-capitalismo e apoio aos presos políticos.

[17] Anarchista norte americano que escreve principalmente sobre aarquismo anti-colonialista e anarco-niilismo. Blog pessoal do autor: http://aragorn.anarchyplanet.org/