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TERRA E LIBERDADE – Cap. 1: Um convite em aberto – Seaweed

 


Um convite Em Aberto

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Este é um encorajamento para atividades secessionistas anti-autoritárias e localizadas  com objetivo de ter acesso à terra. Este impulso rumo a diferentes modos de vida seria caracterizado por novas compreensões e consciências ecológicas, uma inspiração de modos de vida primitivos e um desejo por autonomia, tanto individual quanto coletiva.

Ações secessionistas não objetivam estabelecer novos e menores Estados-Nação, mas sim a criação de zonas sem Estado. As ações focam-se em uma ruptura decisiva com um mundo que nos prejudica e nos atordoa. Secessionistas seccionam não apenas de estados nacionais, mas também de sua ideologia. Esse tipo de ruptura é baseada em um desejo por novos relacionamentos com os outros, com nós mesmos e com o mundo que nos cerca.

Se trata de noções de regeneração e renovação, um chamado para olharmos para o mundo após a morte da civilização como um em que a vida irá retornar e o crescimento da natureza irá recomeçar. Este é um apelo para um persistente May Day global para ideias e ações inspiradas pelo ponto intermediário entre o equinócio de primavera e o solstício de verão, o tempo em que o sol estará livre para trazer o prazeroso calor do verão de volta para terra novamente.

Numerosas culturas ancestrais eram impregnadas de qualidades anárquicas. A sexualidade e a fertilidade eram vistas como expressões prazerosas da natureza selvagem, de criação.  Danças comunitárias celebrando em êxtase as desejadas maravilhas da vida eram comuns. Que concentremos nossas rebeliões no rejuvenescimento planetário, que elas sinalizem um tempo de celebração da abundancia e da fecundidade, que elas sejam anseios por nova vida e dias melhores no agradável calor de nossa nova estação.

Os humanos estão em um momento crítico. Podemos continuar sendo enganados, sendo cidadãos obedientes que veneram o mercado e respeitam as instituições da civilização capitalista, ou nós podemos tentar pôr em prática novos modos de vida, modos que implicitamente reconhecem o rico potencial do comunalismo livremente escolhido, que honre a sabedoria da terra e a renovação contínua da natureza. O argumento tecno-utópico continua sendo totalmente inconvincente. Quem não preferiria ter rios limpos fluindo em abundância, montanhas intactas e florestas saudáveis repletas de vida selvagem e purificando nosso ar, do que rios poluídos dando suporte a apenas alguns peixes contaminados, montanhas cortadas ao meio para extração de carvão e minerais e florestas reduzidas à monocultura ou destruídas por desmatamentos?

Essas tentativas poderiam ser destacadas pela ampla disseminação de habilidades, recursos e responsabilidades hoje carregadas por indivíduos e famílias trancafiadas em suas vidas privadas. Elas podem também envolver a criação de terras, hortas e locais de coleta, responsabilização coletiva pelo cuidado das crianças e pela moradia, tudo isso em uma base comunitária. Atividades de subsistência seriam exploradas e praticadas. Secessionistas iriam conscientemente estabelecer como objetivo a libertação permanente de seu território e seu habitat das forças do poder político.

No começo, a abertura para a intimidade com os outros, com estranhos, será essencial, porque nos tornamos todos estranhos uns para os outros. Em última instância, esses movimentos locais buscam por verdadeira afinidade, comunidade autêntica, e inter-relações genuínas que permitam que cada indivíduo possa ser tudo o que ela pode ser ainda sendo parte de um todo. Essas expressões de desejo coletivo envolveriam medidas de ataque e defesa, isso porque há aqueles que não aceitam a autonomia comunitária, que temem a liberdade individual ou que têm um interesse em manter o controle a partir de cima.

 

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Muitas pessoas assumem que um caos impiedoso está em nosso horizonte. Um caos gerado e motivado por um sistema baseado na hierarquia e exploração. Nossa biosfera frágil está doente. Sua saúde está se deteriorando rapidamente. A desertificação de varias áreas, o aquecimento global, a diminuição da luz do sol, o câncer generalizado e extinções diárias são apenas alguns dos sintomas. A diversidade de formas de vida de nosso planeta está em perigo.

Essa crise tem sido causada pelas instituições do Estado e pelo modo de vida urbano do capitalismo industrial. Ela é mantida pela nossa crença em ideologias. Nossa saída é coletivamente desurbanizar e desindustrializar. É reaprender como nos alimentar e nos abrigar sem governos ou mercados. É criar nossos habitats enquanto somos simultaneamente criados por eles, e assim, restabelecendo uma relação saudável com nosso ambiente.

Infelizmente, cada crise é agravada pela existência de ainda outras crises em nosso horizonte: lixo nuclear esperando para decantar como um cadáver e espalhando sua morte, a ainda presente possibilidade de uma guerra nuclear, o desaparecimento da camada de ozônio protetora, escassez de água potável e até mesmo o colapso ecológico completo. As luzes de alerta estão piscando loucamente, os alarmes estão se tornando mais altos e os sábios estão nos alertando: isso é urgente.

Nosso futuro está se esvaindo.

Sempre haverá sementes do antigo mundo na revolta pelo novo? Talvez, mas uma rebelião genuína não seria um chão fértil o suficiente para que elas possam se desenvolver. Libertar humanos da vida urbana é possível. Somos todos agentes de mudança em potencial. Com a ênfase na resistência local, nossas forças se tornam mais óbvias e o derrotismo diminui. Nós não precisamos prolongar a viagem do possível para o impossível.

Isso não quer dizer que uma insurreição anti-autoritária global não possa ou não irá acontecer. Mas sim, que devemos nos perguntar como isso poderia acontecer se reconhecermos que instituições de dominação são complexas e globais e que há muitas variáveis para que cada grupo minoritário em particular entre nessa e mantenha tudo sobre controle a fim de instigar intencionalmente e estrategicamente tal processo global. Muitos marxistas apostam que essa revolução planejada e coordenada seja possível colocando nosso poder nas mãos de uma inteligentsia especializada e muitas vezes, ao partido político para o qual eles trabalham, mas a história nos mostrou a miséria e repressão que espera por nós quando permitimos que eles sequestrem nossas insurgências.

As rupturas que estou encorajando não necessitam da permissão de familiares, partidos ou forças produtivas. Não há necessidade de esperar que a história, deus ou as condições materiais as autorize. Estou explorando rupturas intencionais entre amigos, vizinhos, companheiros recrutados e camaradas, rupturas e quebras que são aventuras válidas por si mesmas, e que ainda podem se desenvolver em algo maior, algo até mesmo planetário.

Onde rebeliões autenticas se originam? Elas se originam mais frequentemente onde as pessoas passam muito tempo juntas e por isso se conhecem o suficiente para poderem compartilhar suas angústias e desejos e construir alguma confiança: guetos, vizinhanças, fábricas, universidades, prisões, reservas. Frequentemente essas rebeliões acontecem em linhas de afinidade étnica e tribal.

É claro, qualquer individuo que queira realizar uma ruptura, que queira viver uma vida intensa, pode fazê-lo. Isso torna a vida uma causa suficiente por si mesma. Essas pessoas podem inspirar outras, podem implicitamente dar a outros a inspiração para se levantar, brilhar e florir. Mas, quando indivíduos se comprometem, seja onde for, e estão cercados por amigos e vizinhos com quem eles tentam ter relacionamentos reais, o vírus pode infectar mais facilmente, o contágio pode se alastrar. Se eles estiverem arraigados apenas a um meio social, uma cena ou subcultura baseada exclusivamente em perspectivas ou interesses compartilhados, então o contágio irá provavelmente ser contido por seu tipicamente restrito limite demográfico. Ocasionalmente, radicais anti-autoritários dessas subculturas podem se engajar em várias lutas opostas para tentar redirecioná-las ou a fim de levantar reflexões acerca das noções de direção e representação, mas essas oportunidades não estão sempre presentes e, de qualquer forma, nós não devíamos estar baseando a realização de nossos sonhos e desejos em uma estratégia de intervir em revoltas reformistas.

 

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É possível pôr fim ao fluxo de catástrofes ecológicas e sociais aparentemente interminável que temos presenciado. Quando se está em uma batalha não há muitas escolhas: continuar a lutar, se render ou bater em retirada e, posteriormente, reagrupar. Seria sábio olhar para todos os meios a nossa disposição, considerar todos os caminhos que podem nos levar para um lugar e tempo onde pessoas auto-organizadas podem criar as vidas que eles escolherem.

Se excluirmos a rendição, o que nos resta?

Lutar inclui revoltas, sabotagem, insurreições e outras formas de motim auto-organizado. Algumas formas são espontâneas, como ondas que parecem engolir de repente tudo e nas quais você pode participar. Outras podem envolver instigação e resistência, como bloqueios e ocupações.

Nós podemos abandonar, cair fora, encorajar o absenteísmo, parar de participar e recusar várias formas de conscrição. Nós podemos nos reagrupar, construir confiança, chegar a alguns acordos, e então talvez estabelecer alguns planos.

Nós também podemos plantar sementes para o futuro. Isso por vezes envolve tentar criar um novo mundo aqui e agora. Outras vezes, isso significa adquirir habilidades e ferramentas que podem ser úteis para nosso sustento caso um cataclismo vire o mundo de cabeça para baixo. Isso ajudaria a garantir que o Velho Mundo não retorne imediatamente para evitar que os Novos Mundos tomem seu lugar. Isso frequentemente prioriza o “bater em retirada” ao invés da realização de ataques diretos. Compartilhar habilidades, cultivar alimentos, caçar e pescar, priorizar a convivência, rádios piratas, reuniões e cuidados coletivos de crianças são apenas alguns exemplos dessa abordagem.

Não há uma abordagem que garanta que nós podemos criar um mundo menos prejudicial e autêntico, um mundo sem mercadorias e dinheiro, sem Estado ou trabalho assalariado, sem prisões e políticos. De fato, o que mais podemos esperar alcançar é libertar, temporariamente ou permanentemente, nossa casa, o lugar onde vivemos, dessas instituições e modos e valores.

É claro, nós queremos que nossas rebeliões sejam globais porque nosso adversário é global, mas devemos  evitar sermos paralisados por uma atitude que enxerga todas as tentativas e atividades locais como marginais e inefetivas. Devemos nos contrapor a todas as doutrinas que promovam uma visão dos humanos como desamparados e impotentes objetos da história. A história pode ser uma estória cuja autoria tem todas as nossas vozes. São nossas atividades, tomadas coletivamente, que criam a história.

Mas agora nosso poder está sob o controle de instituições malevolentes e impessoais as quais nos ironicamente reforçamos quando continuamos a não só obedecê-las, mas também acreditando nelas, como se fossem deuses. Há deuses, mas eles são você e eu. Nós apenas temos medo de nossos poderes, das possibilidades que eles podem desencadear.

Uma coisa é certa: esperar, seja pelo colapso ecológico ou econômico, por uma rebelião global ou uma insurreição local, não pode ser a principal escolha. Nós podemos mudar o mundo porque nós podemos mudar o nosso mundo, o lugar onde cada um de nós vive.

 

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Um novo mundo não pode ser criado pela atividade de um pequeno grupo de radicais. Porém, não há nenhuma megalomania em considerar criticamente a possibilidade de dar inicio e participar de grupos de confiança locais organicamente autogeridos voltados a liberar o lugar em que vivemos dos gananciosos e míopes agressores que impõem a injustiça, a pilhagem ecológica e a exploração. Esse processo poderia nos curar, porque isso provavelmente criaria o espaço e a possibilidade de melhores relações entre nós, e essas novas relações criariam, por sua vez, a possibilidade de uma ruptura completa com a atual realidade de enfermidade e dominação.

Ainda, não é apenas uma classe econômica e seus capangas e polícia que precisam ser confrontados, mas também os valores que geralmente permeiam sociedades autoritárias. Em outras palavras, cada um de nós deve travar uma luta interna e em processo de auto-libertação ajudando a criar uma atmosfera que apoie outros à fazerem o mesmo.

O mundo orgânico consiste em paradoxos, caos, espectros e gradações, e não em redes de engenharia, padrões previsíveis e axiomas. Nenhuma pessoa ou visão de mundo ou ideologia tem todas as respostas. Confiando em nossos instintos e nossos desejos, novas possibilidades se abrirão. Podemos tornar publico o que o Poder deseja manter como privado: nossos sonhos, nossas visões, nossa infelicidade e nossa raiva.

Uma viagem de mil milhas começa com a primeira passada; uma velha verdade.

A civilização autoritária fundamenta-se em nossa auto-escravização e auto-exploração. Os humanos estão no comando, nossos pais, irmãos, irmãs e mães estão no comando. Quase todos nós contribuímos para a reprodução dessa autoritária, destrutiva, injusta, opressiva e pouco imaginativa realidade planetária. Isso é hegemônico e, portanto, difícil de se manter fora.

Ainda assim, um motim persistente nesse navio de escravos chamado civilização poderia destravar todas as portas, poderia libertar os animais, poderia deixar que todos nós encontrássemos nossas asas e nossa imortalidade novamente. Qualquer geração pode mudar o mundo. Mas uma geração irá fazer isso em breve, porque pode não haver um futuro saudável o bastante para que isso seja feito.

Essa transformação criaria a possibilidade de vidas autênticas e intensas vividas em comunidades genuínas e autônomas dentro de habitats saudáveis.

Ter um habitat saudável para viver oferece a oportunidade de ter um senso de pertencimento. Um senso de pertencimento, por sua vez, oferece a oportunidade de redescobrir sentimentos e experiências de admiração, reverência e deslumbre, não pela ciência e tecnologia, mas sim pela natureza e suas maravilhas.

Esta é a simples proposta: uma insurgência generalizada, baseada em múltiplas rebeliões locais, cada uma em demanda de terra o suficiente para sustentar seus habitantes. Mais especificamente, ocupando e re-ocupando território com o objetivo explícito de torná-lo nosso habitat. E esses rompimentos, enquanto fins em si mesmos, na medida em que conseguirem ir adiante sob condições adversas, também são um meio para uma visão muito maior. Nós rompemos para criar força, para termos sucesso, mas também para oferecer assistência para outros projetos e tentativas revolucionárias, para entrelaçar nossos espaços liberados com a luta de outros que querem realizar uma ruptura final para com as instituições globais de dominação.

Sim, nós temos muita raiva e fúria contra a classe dominante; sim, somos inspirados por expressões de ódio e destruição direcionado contra os agressores que organizam a sociedade. Mas eu sugiro que nós enfatizemos, entre nós, fraternidade e cooperação. Essa proposta trata de compromisso, sobre não esperar pelas condições ideais, sobre conscientemente tomar vantagem das rachaduras e fissuras na realidade dominante de onde você vive, mantendo-as abertas, criando espaço para nós mesmos. É de muitos desses acampamentos livres que o capitalismo pode potencialmente ser atacado enquanto rebeldes e sonhadores se juntam a outros que também veem a vida sobre a ordem civilizada como algo insuportável.

Há longo prazo, adquirir uma casa, um habitat, é essencial. Isso significa libertar terras colonizadas, reabilitar terras devastadas ou adquirir terras. Em curto prazo, isso pode significar calotes no aluguel ou ocupação. Envolveria campos selvagens, cabanas de pesca, acampamentos compartilhados, colheitas coletivas de comida selvagem e permacultura e horticultura grupais, etc. Conhecer e solidarizar com os povos da terra, anciões e tradicionalistas entre os povos indígenas, por exemplo, que possam viver nas proximidades, pode ser uma prioridade. Parece óbvio que adquirir comida em grupos e compartilhar comida com muitos são possíveis pedras fundamentais. De qualquer angulo, uma base de terra se torna essencial.

De uma forma pequena, porém significativa, esta é uma proposta para tomar a iniciativa, porque não podemos ganhar se ficarmos sempre na defensiva.

Esses movimentos de subsistência organicamente auto-geridos são autônomos, porém conectados, pequenos, porém muitos, locais, mas espalhados e juntos ocupam grande quantidade de território. Eles não querem novos papas e estadistas, melhores governos ou melhores representações, novos países ou novas republicas. Eles objetivam um mundo de clãs, tribos e vilarejos, de liberdade e comunidade.

Essa estratégia não objetiva um movimento de massas, mas sim uma dinâmica de rebeliões locais que tendem a varrer qualquer um que não tenha medo de ser energizado ou carregado por ela.

Não há livros que precisam ser lidos, nem líderes para serem seguidos, nenhuma tradição, jargão ou vocabulário que precise ser adotado. Você não precisa viver no campo ou na cidade. Isso é endógeno, como uma erva eufórica que cresce por todo lugar e se espalha com facilidade. Isso é contra a lei dos injustos, dos arrogantes e das elites, dos poderosos, do intolerante e do pouco imaginativo. Isso é fortalecido pela observação crítica. E não há espaço para agressores. É intuição e racionalidade de mãos dadas. Esse esforço será corajoso e celebrativo. Terá sucesso por meio de persistentes atividades auto-dirigidas tomadas por pessoas sem rótulos.

Isso promete ser uma viagem incrível, e você está convidado.

 

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Qualquer resistência anti-autoritária autêntica deveria ser uma proposta: uma proposta aberta a todos que apreciam a liberdade, a partilha, a dádiva, habitats saudáveis, ajuda mútua, cooperação e associação voluntária.

Isso não é apenas para os ultra-explorados ou para os escravos marginalizados. Não é aberto apenas ao excluído, ao aprisionado, ao faminto ou ao pobre. Mas escuta cuidadosamente todas essas vozes porque elas conhecem de perto tudo de mais brutal do que sistemas autoritários impõem sobre seus habitantes. Não exclui ninguém por sua morfologia genital. Não faz acusações arrogantes a respeito de tons de pele ou grupos linguísticos. Não exclui alguns pelo seu local de nascimento ou sua posição social. Tem apenas uma pequena tolerância ao julgamento, culpa e vergonha enquanto armas ou ferramentas. Estamos todos juntos dentro dessa confusão, e precisamos dar a oportunidade para que todos nós possamos contribuir de maneira significativa para sairmos dessa. Nossa solidariedade é um convite a todos.

Mas a História têm criado identidades marcadas pelo privilégio de alguns e vitimização/desempoderamento de outros, e os rebeldes estão determinados a livrar qualquer um dessas correntes. No momento certo, não haverá lugar para aqueles que desejam poder, que desejam controlar os outros.

Uma rebelião anárquica focada em habitats saudáveis e liberdade, indivíduos únicos unidos em autênticas comunidades, abre espaço para os velhos e frágeis, para os jovens e fortes, para o impaciente e para o paciente, para aqueles que sentem repulsa pela violência e para aqueles que enxergam sua utilidade como mais uma arma em nosso arsenal. Moralidade e visões de mundo dicotômicas não podem sufocá-la, porque ela é baseada num ímpeto orgânico especificamente ligado ao local. Cada região, cada cidade, bairro, cultura, grupo de afinidade ou tribo pode basear sua secessão do estado-nação em seus próprios desejos, princípios e sonhos.

Partindo de um grupo de amigos – ou uma vizinhança, uma ecovila, uma ilha, uma comuna, um grupo étnico, parte de uma cidade, uma cidade, uma região, um clã, uma reserva, um culto – seu objetivo principal é sempre ter acesso ao território do qual o grupo possa retirar seu sustento. Isso significa que sempre busca o acesso à terra. Naturalmente, há espaço para lobos solitários errantes, famílias nômades e tribos, assim como vilarejos livres e zonas libertas, contanto que não sejam vistas como pequenos estados de bem-estar do qual as pessoas irão depender para viver.

Você sabe como plantar ou coletar alimento? Algum de seus vizinhos sabe? Eu não falo de uma horta de fim de semana, mas o suficiente para sustentar você e sua família estendida durante o inverno. Se o mercado capitalista colapsar, e seus suprimentos forem todos saqueados, o que você vai comer? Você tem sementes, uma vara de pesca ou uma arma de caça? Você sabe como usar essas coisas? Há algum lugar suficientemente não-poluído onde você possa conseguir comida? Você é parte de uma tribo, uma comunidade ou um clã? Você está suficientemente inserido em algum grupo social que poderia ajudar uns aos outros em um momento de crise, ou você é um indivíduo atomizado cujo grupo social consiste, basicamente, em sua família próxima, com alguns amigos que você vê ocasionalmente no trabalho ou nas horas vagas?

A grande maioria dos europeus e dos norte americanos, e de pessoas que vivem em zonas urbanas em qualquer lugar, são exatamente como você. Eles não têm sementes, nenhuma habilidade de sobrevivência nem equipamento de pesca ou arma de caça, não pertencem a nenhuma comunidade genuína, não têm hortas ou acesso à lugares não-poluídos de onde possam conseguir comida ou medicamentos. Você não está sozinho, pelo menos em seu dilema.

Nem todos têm sempre a opção de se juntar em meio a distúrbios sociais, a maioria das pessoas frequentemente precisa tomar responsabilidade e ajudar a criá-los. Isso não é tão difícil quanto você possa pensar num primeiro momento. Envolve conseguir tempo livre fora do trabalho. Envolve dizer olá para um estranho. Isso envolve desligar sua TV e outras armas de controle social. Onde for possível, envolve explorar a natureza e áreas rurais próximas de você.

Revolta requer otimismo frente ao quase intransponível. Significa ver a privacidade não como algo para se preservar e proteger, mas sim para nos aliviar. Isso demanda que você passe mais tempo com crianças, não apenas as suas, mas sim crianças em geral. Exige que você enxergue humanos como um conjunto de formas de vida individuais integrantes de um lar natural.

 

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Cidades não são habitats, pessoas que vivem em cidades deveriam exercer um esforço contra o modo de vida urbano, isso porque a vida em cidades é uma das raízes de nosso problema e são os habitantes de cidades que irão sofrer mais nos anos que virão.

Obviamente, centenas de milhões de pessoas não podem sair de uma cidade da noite para o dia. Sendo assim, talvez, trazer alguma natureza para a cidade pode ser uma parte de nosso caminho de volta para casa. Cidades precisam ser desurbanizadas. Isso vai exigir uma criatividade insurgente e insurgências criativas. Cidades podem se tornar parcialmente abandonadas e parcialmente recriadas por meio de uma multiplicidade de vilarejos autônomos e zonas separadas por vastas extensões de cultivos, hortas, florestas re-emergentes e natureza selvagem em restabelecimento, com toda a região curada ao se tornar uma espécie de vasta zona permacultural.

Cidades não terminam onde os subúrbios se dissipam e começamos a enxergar as áreas rurais. A vida rural atualmente não é mais do que a outra face da mesma moeda da civilização capitalista. Povos rurais também trabalham e compram, pagam alugueis e hipotecas, vivem uma vida atomizada. O ar é mais limpo e ao menos as pessoas podem se deparar com um cervo e olhar as estrelas à noite, mas a propriedade privada, o trabalho e a polícia também controlam o campo. Lá os habitats também foram invadidos, pilhados e poluídos. Pessoas do campo também são encarceradas, carcinogenizadas, monitoradas e punidas.

Nossa destruição da vida urbana implica a destruição da vida rural. O objetivo é uma geografia onde vilarejos, clãs e grupos de amigos sejam predominantes na paisagem social, e não vastas extensões de campos agrícolas que alimentam cidades ou propriedades rurais sob o domínio de privilegiados. O objetivo é ter acesso à um lar natural, a criação de ambientes saudáveis e a cura dos que foram adoecidos, de forma que possam sustentar todas as formas de vida que vivem dentro deles.

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Imagine seu bairro sem carros. Os sons estão retornando: pássaros, o farfalhar das folhas, crianças rindo e gritando. Os cheiros também estão retornando. Na primavera e verão, o perfume de brotos e flores em crescimento preenchem o ar; a névoa de poluição dos automóveis está começando a se dissipar e o céu já é visível novamente. É muito mais seguro sair na rua quando não há máquinas de duas toneladas zunindo à 60 quilômetros por hora. A maioria das ruas estão se rachando com novas plantas crescendo entre o pavimento e concreto. Há trilhas de pegadas para todos os lados. Até mesmo bicicletas parecem fora de contexto.

Praças se tornaram hortas comunitárias e cultivos. Riachos e pequenos rios estão começando a se formar, e voltar a se formar, em todas as partes. Alguns afirmam ter visto um salmão nadando em um riacho em regeneração durante a temporada de desova. A vida está retornando! A partilha e a dádiva se tornaram a forma preferida de fazer qualquer coisa circular. Você não acorda e vai diretamente trabalhar em uma fábrica, ou em uma mina ou em uma loja para gerar lucro para outra pessoa. Você embrulha um lanche e se dirige para a horta. Este será um longo dia, mas também um muito agradável.

Há milhares de pessoas em sua vasta horta comunitária. Hoje vocês estão todos capinando, regando, cobrindo o solo com palha e consertando os sistemas de captação de água e as cercas. Há um playground dentro dela onde as crianças brincam. Mas em todo lugar também há alimento selvagem que pode ser recolhido, pescado ou caçado, dependendo de onde sua cidade está localizada e do nível de conhecimento de seus habitantes. Hortas precisam de cercas e atenção constante. Mas, com o passar do tempo, enquanto as habilidades de subsistência se expandem e se desenvolvem, hortas e cultivos diminuem abrindo espaço para a expansão do sonho e do tempo de diversão, para a criação e despertar de aventuras carnais e lúdicas.

Amanhã é dia de música no campo logo ao lado da horta. Haverá uma fogueira com carne selvagem, peixes e ervas compartilhadas. O que antes era uma zona morta, uma cidade poluída, homogeneizada, uma habitação sem natureza, uma insana densidade de pessoas atomizadas está se tornando um conjunto fascinante de vizinhanças e vilarejos.

Se você caminhar para o sul durante uma hora vai encontrar o que costumava ser apenas outro aspecto da mesma vida urbana padronizada de produtores e consumidores que existia em todo lugar antes da ruptura ter sucesso. Agora ela parece pertencer a outra realidade. Uma etiqueta diferente, diferentes formas de coletar e preservar comida, diferentes abordagens da sexualidade, talvez até mesmo um dialeto diferente pode estar emergindo aos poucos. Tudo é diferente porque a individualidade pode florescer e identidades comuns apenas se desenvolvem organicamente e voluntariamente. Não é mais preciso viajar para longe para poder viver alguma aventura em busca de diversidade e diferença. Caminhe por apenas algumas horas até as vilas próximas e você entrará em uma zona única.

Na zona rural, a subsistência pode se tornar imediatamente o modo de vida primário. Em zonas em regeneração de antigos centros urbanos, a permacultura pode ter um papel central. A permacultura é uma variedade de práticas que enfatizam eficiência em nossa atividade de produção de alimento. Compostar dejetos humanos para produção de esterco, por exemplo, seria uma excelente prática. Com uma filosofia e prática permacultural, várias técnicas de preservação precisam ser disseminadas junto com uma variedade de outras habilidades culturais. Neste sentido, a permacultura pode ser um trampolim enquanto atravessamos as águas turbulentas da vida pós-urbana.

Também há lugares dentro dos muros da cidade onde ninguém nunca mais entrará. Essas são zonas mortas. Elas são tão poluídas, feias e inseguras que nós empilhamos a muito tempo atrás uma montanha de pneus em volta delas para certificar de que as pessoas ficarão longe: uma fábrica química, uma prisão, lugares de feiúra psicológica e de doença ecológica. É por isso que áreas físicas específicas das cidades precisarão ser abandonadas, e não apenas o modo de vida urbano que as sustentavam.

Se as cidades são apenas um experimento ruim que não deveria ser repetido, ou se elas são uma imposição de forças opostas à vida genuína, reformá-las não pode ser parte da solução. A transformação será a medicina curativa desta vez. Nossas terras serão lugares onde experimentos de vida são uma oportunidade constante.

 

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O que é subsistência? Subsistência significa comprometimento com o lugar onde se vive e com as pessoas que nele vivem. Significa conseguir comida de sua própria região já que esta é a área geográfica que você conhece e com a qual tem familiaridade, por isso, você sabe quando e quanto de itens, tanto vegetais quanto animais, é aceitável colher ou caçar.

Subsistência significa pescar com seus amigos. Significa preservar comida com outros de seu grupo, ou vilarejo, ou clã, ou seja o que for. Subsistência é estar junto, voluntariamente, de amigos com quem você tem familiaridade, é prover-se de alimento, abrigo, instrumentos musicais e amizades.

Subsistência significa abundância e equilíbrio, significa selvageria e harmonia ao mesmo tempo. A subsistência não é uma existência empobrecida e de escassez.

O tempo gasto consertando as redes de pesca, ou colhendo vegetais, ou construindo uma sala de defumação comunitária, não é tempo alienado. É um tempo prazeroso e com significado. Em alguns lugares comumente caracterizados por canções e bebidas quentes, em outros por satisfação silenciosa. Significa prover para si mesmo a partir de onde se vive.

A subsistência é participativa. Envolve entender seu habitat e encontrar um lugar saudável dentro dele.

A subsistência pode ser o alicerce sobre o qual uma cultura anárquica se estrutura. É o fundamento de um conjunto de práticas saudáveis, independentes e autônomas baseadas nos ciclos do lugar onde você vive. Senso de pertencimento. Sabedoria sensual.

Isso não significa que povos tradicionais não cometem enganos. Mas, em geral, eles contam com uma experiência diretamente vivida, complementada por sabedoria ancestral, para tomar suas decisões.

A vida na natureza não é desagradável, brutal e curta. Essa é uma mentira de medrosos e disseminadores de temores das classes governantes para conquistar povos dependentes da terra.

Subsistência significa pouco ou nenhum desperdício material: ausência de lixões, ausência de pilhas de lixo incinerado, ausência de uma indústria de reciclagem – já que seria desnecessária. Ela é baseada nos ciclos naturais do território em que seu grupo vive. Significa respeitar a natureza de onde você vive, de todas as formas de vida com as quais você compartilha esse habitat, mesmo aquelas que podem te prejudicar, porque somos todos interconectados.

Subsistência não tem nada a ver com procurar restos em lixeiras, com fraudes, com dependência de programas de alimentação grátis, com roubo ou ajuda governamental. Subsistência é a participação direta em um futuro coletivo, e assim, assegurando seu próprio futuro.

No momento, um grupo de cinco ou dez amigos tentando conseguir comida e abrigo juntos já é uma forma de sobrevivência e de pioneirismo. Quinze ou vinte pessoas tentando conseguir comida e abrigo por si mesmas, cuidando comunalmente de suas crianças e cuidando umas das outras, talvez seja o embrião de um clã, mas construir uma verdadeira afinidade provavelmente leve algumas gerações.

Quando cinqüenta pessoas ou mais passam sua vida dentro do contexto de uma ruptura bem sucedida para com o mundo atual de hierarquia, propriedade privada e ideologia, se certificando que todos dentro de seu grupo estão alimentados, abrigados e cuidados e têm construído uma infraestrutura de técnicas e ferramentas para se ajudarem, a anarquia começa a se manifestar.

Esse vislumbre especulativo é apenas a minha noção de como uma área desurbanizada poderia mudar a presente ordem social. Hoje, habitantes de comunas rurais e ecovilas praticam algumas habilidades de subsistência, mas esses são geralmente projetos para os afortunados, fora do alcance da maioria, e não podem ser vistas como a tática principal de um impulso rumo a comunidades autônomas, genuínas e incorporadas à natureza. Uma comunidade intencional rural baseada em princípios de apoio mútuo, cooperação e ecologia pode ser um lugar para se viver qualitativamente superior à grande maioria de outros lugares, mas pessoas verdadeiramente auto-gestionadas incorporadas em um habitat requer secessão da propriedade privada e a recusa de obedecer à leis, tanto as de mercado quanto as de estados-nações.

O poder abomina a subsistência. O capitalismo depende de produtores obedientes e consumidores gastando suas vidas comprando e trabalhando, e não de amigos e vizinhos praticando a autoconfiança comunal dentro de um habitat compartilhado. Mas juntos podemos dizer não, podemos desobedecer, e com essa negação nascerá uma força positiva e criativa.

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Fonte: Land and Freedom. Seaweed. Black Powder Press: 2013. pp: 1-19
Tradução: Ctenomys (2015)