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TERRA E LIBERDADE – Cap. 1: Um convite em aberto – Seaweed

 


Um convite Em Aberto

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Este é um encorajamento para atividades secessionistas anti-autoritárias e localizadas  com objetivo de ter acesso à terra. Este impulso rumo a diferentes modos de vida seria caracterizado por novas compreensões e consciências ecológicas, uma inspiração de modos de vida primitivos e um desejo por autonomia, tanto individual quanto coletiva.

Ações secessionistas não objetivam estabelecer novos e menores Estados-Nação, mas sim a criação de zonas sem Estado. As ações focam-se em uma ruptura decisiva com um mundo que nos prejudica e nos atordoa. Secessionistas seccionam não apenas de estados nacionais, mas também de sua ideologia. Esse tipo de ruptura é baseada em um desejo por novos relacionamentos com os outros, com nós mesmos e com o mundo que nos cerca.

Se trata de noções de regeneração e renovação, um chamado para olharmos para o mundo após a morte da civilização como um em que a vida irá retornar e o crescimento da natureza irá recomeçar. Este é um apelo para um persistente May Day global para ideias e ações inspiradas pelo ponto intermediário entre o equinócio de primavera e o solstício de verão, o tempo em que o sol estará livre para trazer o prazeroso calor do verão de volta para terra novamente.

Numerosas culturas ancestrais eram impregnadas de qualidades anárquicas. A sexualidade e a fertilidade eram vistas como expressões prazerosas da natureza selvagem, de criação.  Danças comunitárias celebrando em êxtase as desejadas maravilhas da vida eram comuns. Que concentremos nossas rebeliões no rejuvenescimento planetário, que elas sinalizem um tempo de celebração da abundancia e da fecundidade, que elas sejam anseios por nova vida e dias melhores no agradável calor de nossa nova estação.

Os humanos estão em um momento crítico. Podemos continuar sendo enganados, sendo cidadãos obedientes que veneram o mercado e respeitam as instituições da civilização capitalista, ou nós podemos tentar pôr em prática novos modos de vida, modos que implicitamente reconhecem o rico potencial do comunalismo livremente escolhido, que honre a sabedoria da terra e a renovação contínua da natureza. O argumento tecno-utópico continua sendo totalmente inconvincente. Quem não preferiria ter rios limpos fluindo em abundância, montanhas intactas e florestas saudáveis repletas de vida selvagem e purificando nosso ar, do que rios poluídos dando suporte a apenas alguns peixes contaminados, montanhas cortadas ao meio para extração de carvão e minerais e florestas reduzidas à monocultura ou destruídas por desmatamentos?

Essas tentativas poderiam ser destacadas pela ampla disseminação de habilidades, recursos e responsabilidades hoje carregadas por indivíduos e famílias trancafiadas em suas vidas privadas. Elas podem também envolver a criação de terras, hortas e locais de coleta, responsabilização coletiva pelo cuidado das crianças e pela moradia, tudo isso em uma base comunitária. Atividades de subsistência seriam exploradas e praticadas. Secessionistas iriam conscientemente estabelecer como objetivo a libertação permanente de seu território e seu habitat das forças do poder político.

No começo, a abertura para a intimidade com os outros, com estranhos, será essencial, porque nos tornamos todos estranhos uns para os outros. Em última instância, esses movimentos locais buscam por verdadeira afinidade, comunidade autêntica, e inter-relações genuínas que permitam que cada indivíduo possa ser tudo o que ela pode ser ainda sendo parte de um todo. Essas expressões de desejo coletivo envolveriam medidas de ataque e defesa, isso porque há aqueles que não aceitam a autonomia comunitária, que temem a liberdade individual ou que têm um interesse em manter o controle a partir de cima.

 

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Muitas pessoas assumem que um caos impiedoso está em nosso horizonte. Um caos gerado e motivado por um sistema baseado na hierarquia e exploração. Nossa biosfera frágil está doente. Sua saúde está se deteriorando rapidamente. A desertificação de varias áreas, o aquecimento global, a diminuição da luz do sol, o câncer generalizado e extinções diárias são apenas alguns dos sintomas. A diversidade de formas de vida de nosso planeta está em perigo.

Essa crise tem sido causada pelas instituições do Estado e pelo modo de vida urbano do capitalismo industrial. Ela é mantida pela nossa crença em ideologias. Nossa saída é coletivamente desurbanizar e desindustrializar. É reaprender como nos alimentar e nos abrigar sem governos ou mercados. É criar nossos habitats enquanto somos simultaneamente criados por eles, e assim, restabelecendo uma relação saudável com nosso ambiente.

Infelizmente, cada crise é agravada pela existência de ainda outras crises em nosso horizonte: lixo nuclear esperando para decantar como um cadáver e espalhando sua morte, a ainda presente possibilidade de uma guerra nuclear, o desaparecimento da camada de ozônio protetora, escassez de água potável e até mesmo o colapso ecológico completo. As luzes de alerta estão piscando loucamente, os alarmes estão se tornando mais altos e os sábios estão nos alertando: isso é urgente.

Nosso futuro está se esvaindo.

Sempre haverá sementes do antigo mundo na revolta pelo novo? Talvez, mas uma rebelião genuína não seria um chão fértil o suficiente para que elas possam se desenvolver. Libertar humanos da vida urbana é possível. Somos todos agentes de mudança em potencial. Com a ênfase na resistência local, nossas forças se tornam mais óbvias e o derrotismo diminui. Nós não precisamos prolongar a viagem do possível para o impossível.

Isso não quer dizer que uma insurreição anti-autoritária global não possa ou não irá acontecer. Mas sim, que devemos nos perguntar como isso poderia acontecer se reconhecermos que instituições de dominação são complexas e globais e que há muitas variáveis para que cada grupo minoritário em particular entre nessa e mantenha tudo sobre controle a fim de instigar intencionalmente e estrategicamente tal processo global. Muitos marxistas apostam que essa revolução planejada e coordenada seja possível colocando nosso poder nas mãos de uma inteligentsia especializada e muitas vezes, ao partido político para o qual eles trabalham, mas a história nos mostrou a miséria e repressão que espera por nós quando permitimos que eles sequestrem nossas insurgências.

As rupturas que estou encorajando não necessitam da permissão de familiares, partidos ou forças produtivas. Não há necessidade de esperar que a história, deus ou as condições materiais as autorize. Estou explorando rupturas intencionais entre amigos, vizinhos, companheiros recrutados e camaradas, rupturas e quebras que são aventuras válidas por si mesmas, e que ainda podem se desenvolver em algo maior, algo até mesmo planetário.

Onde rebeliões autenticas se originam? Elas se originam mais frequentemente onde as pessoas passam muito tempo juntas e por isso se conhecem o suficiente para poderem compartilhar suas angústias e desejos e construir alguma confiança: guetos, vizinhanças, fábricas, universidades, prisões, reservas. Frequentemente essas rebeliões acontecem em linhas de afinidade étnica e tribal.

É claro, qualquer individuo que queira realizar uma ruptura, que queira viver uma vida intensa, pode fazê-lo. Isso torna a vida uma causa suficiente por si mesma. Essas pessoas podem inspirar outras, podem implicitamente dar a outros a inspiração para se levantar, brilhar e florir. Mas, quando indivíduos se comprometem, seja onde for, e estão cercados por amigos e vizinhos com quem eles tentam ter relacionamentos reais, o vírus pode infectar mais facilmente, o contágio pode se alastrar. Se eles estiverem arraigados apenas a um meio social, uma cena ou subcultura baseada exclusivamente em perspectivas ou interesses compartilhados, então o contágio irá provavelmente ser contido por seu tipicamente restrito limite demográfico. Ocasionalmente, radicais anti-autoritários dessas subculturas podem se engajar em várias lutas opostas para tentar redirecioná-las ou a fim de levantar reflexões acerca das noções de direção e representação, mas essas oportunidades não estão sempre presentes e, de qualquer forma, nós não devíamos estar baseando a realização de nossos sonhos e desejos em uma estratégia de intervir em revoltas reformistas.

 

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É possível pôr fim ao fluxo de catástrofes ecológicas e sociais aparentemente interminável que temos presenciado. Quando se está em uma batalha não há muitas escolhas: continuar a lutar, se render ou bater em retirada e, posteriormente, reagrupar. Seria sábio olhar para todos os meios a nossa disposição, considerar todos os caminhos que podem nos levar para um lugar e tempo onde pessoas auto-organizadas podem criar as vidas que eles escolherem.

Se excluirmos a rendição, o que nos resta?

Lutar inclui revoltas, sabotagem, insurreições e outras formas de motim auto-organizado. Algumas formas são espontâneas, como ondas que parecem engolir de repente tudo e nas quais você pode participar. Outras podem envolver instigação e resistência, como bloqueios e ocupações.

Nós podemos abandonar, cair fora, encorajar o absenteísmo, parar de participar e recusar várias formas de conscrição. Nós podemos nos reagrupar, construir confiança, chegar a alguns acordos, e então talvez estabelecer alguns planos.

Nós também podemos plantar sementes para o futuro. Isso por vezes envolve tentar criar um novo mundo aqui e agora. Outras vezes, isso significa adquirir habilidades e ferramentas que podem ser úteis para nosso sustento caso um cataclismo vire o mundo de cabeça para baixo. Isso ajudaria a garantir que o Velho Mundo não retorne imediatamente para evitar que os Novos Mundos tomem seu lugar. Isso frequentemente prioriza o “bater em retirada” ao invés da realização de ataques diretos. Compartilhar habilidades, cultivar alimentos, caçar e pescar, priorizar a convivência, rádios piratas, reuniões e cuidados coletivos de crianças são apenas alguns exemplos dessa abordagem.

Não há uma abordagem que garanta que nós podemos criar um mundo menos prejudicial e autêntico, um mundo sem mercadorias e dinheiro, sem Estado ou trabalho assalariado, sem prisões e políticos. De fato, o que mais podemos esperar alcançar é libertar, temporariamente ou permanentemente, nossa casa, o lugar onde vivemos, dessas instituições e modos e valores.

É claro, nós queremos que nossas rebeliões sejam globais porque nosso adversário é global, mas devemos  evitar sermos paralisados por uma atitude que enxerga todas as tentativas e atividades locais como marginais e inefetivas. Devemos nos contrapor a todas as doutrinas que promovam uma visão dos humanos como desamparados e impotentes objetos da história. A história pode ser uma estória cuja autoria tem todas as nossas vozes. São nossas atividades, tomadas coletivamente, que criam a história.

Mas agora nosso poder está sob o controle de instituições malevolentes e impessoais as quais nos ironicamente reforçamos quando continuamos a não só obedecê-las, mas também acreditando nelas, como se fossem deuses. Há deuses, mas eles são você e eu. Nós apenas temos medo de nossos poderes, das possibilidades que eles podem desencadear.

Uma coisa é certa: esperar, seja pelo colapso ecológico ou econômico, por uma rebelião global ou uma insurreição local, não pode ser a principal escolha. Nós podemos mudar o mundo porque nós podemos mudar o nosso mundo, o lugar onde cada um de nós vive.

 

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Um novo mundo não pode ser criado pela atividade de um pequeno grupo de radicais. Porém, não há nenhuma megalomania em considerar criticamente a possibilidade de dar inicio e participar de grupos de confiança locais organicamente autogeridos voltados a liberar o lugar em que vivemos dos gananciosos e míopes agressores que impõem a injustiça, a pilhagem ecológica e a exploração. Esse processo poderia nos curar, porque isso provavelmente criaria o espaço e a possibilidade de melhores relações entre nós, e essas novas relações criariam, por sua vez, a possibilidade de uma ruptura completa com a atual realidade de enfermidade e dominação.

Ainda, não é apenas uma classe econômica e seus capangas e polícia que precisam ser confrontados, mas também os valores que geralmente permeiam sociedades autoritárias. Em outras palavras, cada um de nós deve travar uma luta interna e em processo de auto-libertação ajudando a criar uma atmosfera que apoie outros à fazerem o mesmo.

O mundo orgânico consiste em paradoxos, caos, espectros e gradações, e não em redes de engenharia, padrões previsíveis e axiomas. Nenhuma pessoa ou visão de mundo ou ideologia tem todas as respostas. Confiando em nossos instintos e nossos desejos, novas possibilidades se abrirão. Podemos tornar publico o que o Poder deseja manter como privado: nossos sonhos, nossas visões, nossa infelicidade e nossa raiva.

Uma viagem de mil milhas começa com a primeira passada; uma velha verdade.

A civilização autoritária fundamenta-se em nossa auto-escravização e auto-exploração. Os humanos estão no comando, nossos pais, irmãos, irmãs e mães estão no comando. Quase todos nós contribuímos para a reprodução dessa autoritária, destrutiva, injusta, opressiva e pouco imaginativa realidade planetária. Isso é hegemônico e, portanto, difícil de se manter fora.

Ainda assim, um motim persistente nesse navio de escravos chamado civilização poderia destravar todas as portas, poderia libertar os animais, poderia deixar que todos nós encontrássemos nossas asas e nossa imortalidade novamente. Qualquer geração pode mudar o mundo. Mas uma geração irá fazer isso em breve, porque pode não haver um futuro saudável o bastante para que isso seja feito.

Essa transformação criaria a possibilidade de vidas autênticas e intensas vividas em comunidades genuínas e autônomas dentro de habitats saudáveis.

Ter um habitat saudável para viver oferece a oportunidade de ter um senso de pertencimento. Um senso de pertencimento, por sua vez, oferece a oportunidade de redescobrir sentimentos e experiências de admiração, reverência e deslumbre, não pela ciência e tecnologia, mas sim pela natureza e suas maravilhas.

Esta é a simples proposta: uma insurgência generalizada, baseada em múltiplas rebeliões locais, cada uma em demanda de terra o suficiente para sustentar seus habitantes. Mais especificamente, ocupando e re-ocupando território com o objetivo explícito de torná-lo nosso habitat. E esses rompimentos, enquanto fins em si mesmos, na medida em que conseguirem ir adiante sob condições adversas, também são um meio para uma visão muito maior. Nós rompemos para criar força, para termos sucesso, mas também para oferecer assistência para outros projetos e tentativas revolucionárias, para entrelaçar nossos espaços liberados com a luta de outros que querem realizar uma ruptura final para com as instituições globais de dominação.

Sim, nós temos muita raiva e fúria contra a classe dominante; sim, somos inspirados por expressões de ódio e destruição direcionado contra os agressores que organizam a sociedade. Mas eu sugiro que nós enfatizemos, entre nós, fraternidade e cooperação. Essa proposta trata de compromisso, sobre não esperar pelas condições ideais, sobre conscientemente tomar vantagem das rachaduras e fissuras na realidade dominante de onde você vive, mantendo-as abertas, criando espaço para nós mesmos. É de muitos desses acampamentos livres que o capitalismo pode potencialmente ser atacado enquanto rebeldes e sonhadores se juntam a outros que também veem a vida sobre a ordem civilizada como algo insuportável.

Há longo prazo, adquirir uma casa, um habitat, é essencial. Isso significa libertar terras colonizadas, reabilitar terras devastadas ou adquirir terras. Em curto prazo, isso pode significar calotes no aluguel ou ocupação. Envolveria campos selvagens, cabanas de pesca, acampamentos compartilhados, colheitas coletivas de comida selvagem e permacultura e horticultura grupais, etc. Conhecer e solidarizar com os povos da terra, anciões e tradicionalistas entre os povos indígenas, por exemplo, que possam viver nas proximidades, pode ser uma prioridade. Parece óbvio que adquirir comida em grupos e compartilhar comida com muitos são possíveis pedras fundamentais. De qualquer angulo, uma base de terra se torna essencial.

De uma forma pequena, porém significativa, esta é uma proposta para tomar a iniciativa, porque não podemos ganhar se ficarmos sempre na defensiva.

Esses movimentos de subsistência organicamente auto-geridos são autônomos, porém conectados, pequenos, porém muitos, locais, mas espalhados e juntos ocupam grande quantidade de território. Eles não querem novos papas e estadistas, melhores governos ou melhores representações, novos países ou novas republicas. Eles objetivam um mundo de clãs, tribos e vilarejos, de liberdade e comunidade.

Essa estratégia não objetiva um movimento de massas, mas sim uma dinâmica de rebeliões locais que tendem a varrer qualquer um que não tenha medo de ser energizado ou carregado por ela.

Não há livros que precisam ser lidos, nem líderes para serem seguidos, nenhuma tradição, jargão ou vocabulário que precise ser adotado. Você não precisa viver no campo ou na cidade. Isso é endógeno, como uma erva eufórica que cresce por todo lugar e se espalha com facilidade. Isso é contra a lei dos injustos, dos arrogantes e das elites, dos poderosos, do intolerante e do pouco imaginativo. Isso é fortalecido pela observação crítica. E não há espaço para agressores. É intuição e racionalidade de mãos dadas. Esse esforço será corajoso e celebrativo. Terá sucesso por meio de persistentes atividades auto-dirigidas tomadas por pessoas sem rótulos.

Isso promete ser uma viagem incrível, e você está convidado.

 

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Qualquer resistência anti-autoritária autêntica deveria ser uma proposta: uma proposta aberta a todos que apreciam a liberdade, a partilha, a dádiva, habitats saudáveis, ajuda mútua, cooperação e associação voluntária.

Isso não é apenas para os ultra-explorados ou para os escravos marginalizados. Não é aberto apenas ao excluído, ao aprisionado, ao faminto ou ao pobre. Mas escuta cuidadosamente todas essas vozes porque elas conhecem de perto tudo de mais brutal do que sistemas autoritários impõem sobre seus habitantes. Não exclui ninguém por sua morfologia genital. Não faz acusações arrogantes a respeito de tons de pele ou grupos linguísticos. Não exclui alguns pelo seu local de nascimento ou sua posição social. Tem apenas uma pequena tolerância ao julgamento, culpa e vergonha enquanto armas ou ferramentas. Estamos todos juntos dentro dessa confusão, e precisamos dar a oportunidade para que todos nós possamos contribuir de maneira significativa para sairmos dessa. Nossa solidariedade é um convite a todos.

Mas a História têm criado identidades marcadas pelo privilégio de alguns e vitimização/desempoderamento de outros, e os rebeldes estão determinados a livrar qualquer um dessas correntes. No momento certo, não haverá lugar para aqueles que desejam poder, que desejam controlar os outros.

Uma rebelião anárquica focada em habitats saudáveis e liberdade, indivíduos únicos unidos em autênticas comunidades, abre espaço para os velhos e frágeis, para os jovens e fortes, para o impaciente e para o paciente, para aqueles que sentem repulsa pela violência e para aqueles que enxergam sua utilidade como mais uma arma em nosso arsenal. Moralidade e visões de mundo dicotômicas não podem sufocá-la, porque ela é baseada num ímpeto orgânico especificamente ligado ao local. Cada região, cada cidade, bairro, cultura, grupo de afinidade ou tribo pode basear sua secessão do estado-nação em seus próprios desejos, princípios e sonhos.

Partindo de um grupo de amigos – ou uma vizinhança, uma ecovila, uma ilha, uma comuna, um grupo étnico, parte de uma cidade, uma cidade, uma região, um clã, uma reserva, um culto – seu objetivo principal é sempre ter acesso ao território do qual o grupo possa retirar seu sustento. Isso significa que sempre busca o acesso à terra. Naturalmente, há espaço para lobos solitários errantes, famílias nômades e tribos, assim como vilarejos livres e zonas libertas, contanto que não sejam vistas como pequenos estados de bem-estar do qual as pessoas irão depender para viver.

Você sabe como plantar ou coletar alimento? Algum de seus vizinhos sabe? Eu não falo de uma horta de fim de semana, mas o suficiente para sustentar você e sua família estendida durante o inverno. Se o mercado capitalista colapsar, e seus suprimentos forem todos saqueados, o que você vai comer? Você tem sementes, uma vara de pesca ou uma arma de caça? Você sabe como usar essas coisas? Há algum lugar suficientemente não-poluído onde você possa conseguir comida? Você é parte de uma tribo, uma comunidade ou um clã? Você está suficientemente inserido em algum grupo social que poderia ajudar uns aos outros em um momento de crise, ou você é um indivíduo atomizado cujo grupo social consiste, basicamente, em sua família próxima, com alguns amigos que você vê ocasionalmente no trabalho ou nas horas vagas?

A grande maioria dos europeus e dos norte americanos, e de pessoas que vivem em zonas urbanas em qualquer lugar, são exatamente como você. Eles não têm sementes, nenhuma habilidade de sobrevivência nem equipamento de pesca ou arma de caça, não pertencem a nenhuma comunidade genuína, não têm hortas ou acesso à lugares não-poluídos de onde possam conseguir comida ou medicamentos. Você não está sozinho, pelo menos em seu dilema.

Nem todos têm sempre a opção de se juntar em meio a distúrbios sociais, a maioria das pessoas frequentemente precisa tomar responsabilidade e ajudar a criá-los. Isso não é tão difícil quanto você possa pensar num primeiro momento. Envolve conseguir tempo livre fora do trabalho. Envolve dizer olá para um estranho. Isso envolve desligar sua TV e outras armas de controle social. Onde for possível, envolve explorar a natureza e áreas rurais próximas de você.

Revolta requer otimismo frente ao quase intransponível. Significa ver a privacidade não como algo para se preservar e proteger, mas sim para nos aliviar. Isso demanda que você passe mais tempo com crianças, não apenas as suas, mas sim crianças em geral. Exige que você enxergue humanos como um conjunto de formas de vida individuais integrantes de um lar natural.

 

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Cidades não são habitats, pessoas que vivem em cidades deveriam exercer um esforço contra o modo de vida urbano, isso porque a vida em cidades é uma das raízes de nosso problema e são os habitantes de cidades que irão sofrer mais nos anos que virão.

Obviamente, centenas de milhões de pessoas não podem sair de uma cidade da noite para o dia. Sendo assim, talvez, trazer alguma natureza para a cidade pode ser uma parte de nosso caminho de volta para casa. Cidades precisam ser desurbanizadas. Isso vai exigir uma criatividade insurgente e insurgências criativas. Cidades podem se tornar parcialmente abandonadas e parcialmente recriadas por meio de uma multiplicidade de vilarejos autônomos e zonas separadas por vastas extensões de cultivos, hortas, florestas re-emergentes e natureza selvagem em restabelecimento, com toda a região curada ao se tornar uma espécie de vasta zona permacultural.

Cidades não terminam onde os subúrbios se dissipam e começamos a enxergar as áreas rurais. A vida rural atualmente não é mais do que a outra face da mesma moeda da civilização capitalista. Povos rurais também trabalham e compram, pagam alugueis e hipotecas, vivem uma vida atomizada. O ar é mais limpo e ao menos as pessoas podem se deparar com um cervo e olhar as estrelas à noite, mas a propriedade privada, o trabalho e a polícia também controlam o campo. Lá os habitats também foram invadidos, pilhados e poluídos. Pessoas do campo também são encarceradas, carcinogenizadas, monitoradas e punidas.

Nossa destruição da vida urbana implica a destruição da vida rural. O objetivo é uma geografia onde vilarejos, clãs e grupos de amigos sejam predominantes na paisagem social, e não vastas extensões de campos agrícolas que alimentam cidades ou propriedades rurais sob o domínio de privilegiados. O objetivo é ter acesso à um lar natural, a criação de ambientes saudáveis e a cura dos que foram adoecidos, de forma que possam sustentar todas as formas de vida que vivem dentro deles.

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Imagine seu bairro sem carros. Os sons estão retornando: pássaros, o farfalhar das folhas, crianças rindo e gritando. Os cheiros também estão retornando. Na primavera e verão, o perfume de brotos e flores em crescimento preenchem o ar; a névoa de poluição dos automóveis está começando a se dissipar e o céu já é visível novamente. É muito mais seguro sair na rua quando não há máquinas de duas toneladas zunindo à 60 quilômetros por hora. A maioria das ruas estão se rachando com novas plantas crescendo entre o pavimento e concreto. Há trilhas de pegadas para todos os lados. Até mesmo bicicletas parecem fora de contexto.

Praças se tornaram hortas comunitárias e cultivos. Riachos e pequenos rios estão começando a se formar, e voltar a se formar, em todas as partes. Alguns afirmam ter visto um salmão nadando em um riacho em regeneração durante a temporada de desova. A vida está retornando! A partilha e a dádiva se tornaram a forma preferida de fazer qualquer coisa circular. Você não acorda e vai diretamente trabalhar em uma fábrica, ou em uma mina ou em uma loja para gerar lucro para outra pessoa. Você embrulha um lanche e se dirige para a horta. Este será um longo dia, mas também um muito agradável.

Há milhares de pessoas em sua vasta horta comunitária. Hoje vocês estão todos capinando, regando, cobrindo o solo com palha e consertando os sistemas de captação de água e as cercas. Há um playground dentro dela onde as crianças brincam. Mas em todo lugar também há alimento selvagem que pode ser recolhido, pescado ou caçado, dependendo de onde sua cidade está localizada e do nível de conhecimento de seus habitantes. Hortas precisam de cercas e atenção constante. Mas, com o passar do tempo, enquanto as habilidades de subsistência se expandem e se desenvolvem, hortas e cultivos diminuem abrindo espaço para a expansão do sonho e do tempo de diversão, para a criação e despertar de aventuras carnais e lúdicas.

Amanhã é dia de música no campo logo ao lado da horta. Haverá uma fogueira com carne selvagem, peixes e ervas compartilhadas. O que antes era uma zona morta, uma cidade poluída, homogeneizada, uma habitação sem natureza, uma insana densidade de pessoas atomizadas está se tornando um conjunto fascinante de vizinhanças e vilarejos.

Se você caminhar para o sul durante uma hora vai encontrar o que costumava ser apenas outro aspecto da mesma vida urbana padronizada de produtores e consumidores que existia em todo lugar antes da ruptura ter sucesso. Agora ela parece pertencer a outra realidade. Uma etiqueta diferente, diferentes formas de coletar e preservar comida, diferentes abordagens da sexualidade, talvez até mesmo um dialeto diferente pode estar emergindo aos poucos. Tudo é diferente porque a individualidade pode florescer e identidades comuns apenas se desenvolvem organicamente e voluntariamente. Não é mais preciso viajar para longe para poder viver alguma aventura em busca de diversidade e diferença. Caminhe por apenas algumas horas até as vilas próximas e você entrará em uma zona única.

Na zona rural, a subsistência pode se tornar imediatamente o modo de vida primário. Em zonas em regeneração de antigos centros urbanos, a permacultura pode ter um papel central. A permacultura é uma variedade de práticas que enfatizam eficiência em nossa atividade de produção de alimento. Compostar dejetos humanos para produção de esterco, por exemplo, seria uma excelente prática. Com uma filosofia e prática permacultural, várias técnicas de preservação precisam ser disseminadas junto com uma variedade de outras habilidades culturais. Neste sentido, a permacultura pode ser um trampolim enquanto atravessamos as águas turbulentas da vida pós-urbana.

Também há lugares dentro dos muros da cidade onde ninguém nunca mais entrará. Essas são zonas mortas. Elas são tão poluídas, feias e inseguras que nós empilhamos a muito tempo atrás uma montanha de pneus em volta delas para certificar de que as pessoas ficarão longe: uma fábrica química, uma prisão, lugares de feiúra psicológica e de doença ecológica. É por isso que áreas físicas específicas das cidades precisarão ser abandonadas, e não apenas o modo de vida urbano que as sustentavam.

Se as cidades são apenas um experimento ruim que não deveria ser repetido, ou se elas são uma imposição de forças opostas à vida genuína, reformá-las não pode ser parte da solução. A transformação será a medicina curativa desta vez. Nossas terras serão lugares onde experimentos de vida são uma oportunidade constante.

 

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O que é subsistência? Subsistência significa comprometimento com o lugar onde se vive e com as pessoas que nele vivem. Significa conseguir comida de sua própria região já que esta é a área geográfica que você conhece e com a qual tem familiaridade, por isso, você sabe quando e quanto de itens, tanto vegetais quanto animais, é aceitável colher ou caçar.

Subsistência significa pescar com seus amigos. Significa preservar comida com outros de seu grupo, ou vilarejo, ou clã, ou seja o que for. Subsistência é estar junto, voluntariamente, de amigos com quem você tem familiaridade, é prover-se de alimento, abrigo, instrumentos musicais e amizades.

Subsistência significa abundância e equilíbrio, significa selvageria e harmonia ao mesmo tempo. A subsistência não é uma existência empobrecida e de escassez.

O tempo gasto consertando as redes de pesca, ou colhendo vegetais, ou construindo uma sala de defumação comunitária, não é tempo alienado. É um tempo prazeroso e com significado. Em alguns lugares comumente caracterizados por canções e bebidas quentes, em outros por satisfação silenciosa. Significa prover para si mesmo a partir de onde se vive.

A subsistência é participativa. Envolve entender seu habitat e encontrar um lugar saudável dentro dele.

A subsistência pode ser o alicerce sobre o qual uma cultura anárquica se estrutura. É o fundamento de um conjunto de práticas saudáveis, independentes e autônomas baseadas nos ciclos do lugar onde você vive. Senso de pertencimento. Sabedoria sensual.

Isso não significa que povos tradicionais não cometem enganos. Mas, em geral, eles contam com uma experiência diretamente vivida, complementada por sabedoria ancestral, para tomar suas decisões.

A vida na natureza não é desagradável, brutal e curta. Essa é uma mentira de medrosos e disseminadores de temores das classes governantes para conquistar povos dependentes da terra.

Subsistência significa pouco ou nenhum desperdício material: ausência de lixões, ausência de pilhas de lixo incinerado, ausência de uma indústria de reciclagem – já que seria desnecessária. Ela é baseada nos ciclos naturais do território em que seu grupo vive. Significa respeitar a natureza de onde você vive, de todas as formas de vida com as quais você compartilha esse habitat, mesmo aquelas que podem te prejudicar, porque somos todos interconectados.

Subsistência não tem nada a ver com procurar restos em lixeiras, com fraudes, com dependência de programas de alimentação grátis, com roubo ou ajuda governamental. Subsistência é a participação direta em um futuro coletivo, e assim, assegurando seu próprio futuro.

No momento, um grupo de cinco ou dez amigos tentando conseguir comida e abrigo juntos já é uma forma de sobrevivência e de pioneirismo. Quinze ou vinte pessoas tentando conseguir comida e abrigo por si mesmas, cuidando comunalmente de suas crianças e cuidando umas das outras, talvez seja o embrião de um clã, mas construir uma verdadeira afinidade provavelmente leve algumas gerações.

Quando cinqüenta pessoas ou mais passam sua vida dentro do contexto de uma ruptura bem sucedida para com o mundo atual de hierarquia, propriedade privada e ideologia, se certificando que todos dentro de seu grupo estão alimentados, abrigados e cuidados e têm construído uma infraestrutura de técnicas e ferramentas para se ajudarem, a anarquia começa a se manifestar.

Esse vislumbre especulativo é apenas a minha noção de como uma área desurbanizada poderia mudar a presente ordem social. Hoje, habitantes de comunas rurais e ecovilas praticam algumas habilidades de subsistência, mas esses são geralmente projetos para os afortunados, fora do alcance da maioria, e não podem ser vistas como a tática principal de um impulso rumo a comunidades autônomas, genuínas e incorporadas à natureza. Uma comunidade intencional rural baseada em princípios de apoio mútuo, cooperação e ecologia pode ser um lugar para se viver qualitativamente superior à grande maioria de outros lugares, mas pessoas verdadeiramente auto-gestionadas incorporadas em um habitat requer secessão da propriedade privada e a recusa de obedecer à leis, tanto as de mercado quanto as de estados-nações.

O poder abomina a subsistência. O capitalismo depende de produtores obedientes e consumidores gastando suas vidas comprando e trabalhando, e não de amigos e vizinhos praticando a autoconfiança comunal dentro de um habitat compartilhado. Mas juntos podemos dizer não, podemos desobedecer, e com essa negação nascerá uma força positiva e criativa.

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Fonte: Land and Freedom. Seaweed. Black Powder Press: 2013. pp: 1-19
Tradução: Ctenomys (2015)

RUMO À SELVAGERIA – por Abe Cabrera

RUMO À SELVAGERIA: Desenvolvimentos Recentes no pensamento Eco-Extremista no México

Introdução

“Isso foi chamado de Guerra Chichimeca e começou perto do momento da morte de Hernan Cortes (1547), simbolicamente fechando a “primeira” conquista do México. A nova guerra, travada na vasta área selvagem que se estende para o norte das terras da vitória de Cortes, ensanguentou quatro décadas, 1550-1590, a mais longa guerra indígena na história norte-americana. Foi a primeira competição plena e constante entre civilização e selvageria do continente.”

Philip Wayne Powell, Soldiers, Indians, & Silver: North America’s First Frontier War, vii

 

Em 2011, um grupo que se autodenomina “Individualidades Tendendo ao Selvagem” (Individualidades Tendiendo A Lo Salvaje – ITS) iniciou uma série de ataques eco-terroristas no México. Estes ataques variavam de cartas-bombas enviadas para diversas instituições de pesquisa em todo o país até o assassinato de um pesquisador em biotecnologia em Cuernavaca, Morelos. Para cada tentativa de atentado à bomba ou ação, o ITS publicava comunicados explicando os motivos por trás dos ataques, e usavam os ataques como “propaganda pelo ato” para propagar suas idéias. Em 2014, após uma série de polêmicas e auto-críticas, suas forças supostamente se juntaram com outros grupos aliados no México e mudaram seu nome para “Reação Selvagem” (Reacción Salvaje – RS). Este último grupo caracteriza-se como um grupo de “sabotadores niilistas, nômades incendiários, delinquentes individualistas, anarco-terroristas e críticos política e moralmente incorretos” [1], entre outros. Desde sua re-nomeação, o RS assumiu a responsabilidade pelo bombardeio de um Teleton, bem como pela recente agitação durante manifestações contra o governo na Cidade do México.

Não há nenhuma maneira de saber o número ou o tamanho de ITS/RS, as suas origens para o observador externo parecem obscuras e suas influências parecem indefinidas. Em seus comunicados há muitas citações de Theodore Kaczynski (conhecido como “Unabomber” ou “Clube da Liberdade” [Freedom Club]), bem como referências passageiras a Max Stirner e vários pensadores anarco-primitivistas. Seu método de ação e preferência por comunicados também sugerem óbvia influência de Kaczynski. Ao longo de seus escritos, no entanto, os indivíduos do ITS/RS insistem que não representam ninguém além de si mesmos, ética e ideologicamente. Conforme expresso no primeiro comunicado do ITS:

“Se tivéssemos de dar nomes para a guerra contra a civilização como aqueles que defendem a “revolução”, os “revolucionários” ou “pseudo-revolucionários”, estaríamos caindo no mesmo erro que os marxistas quando excluem as pessoas enquanto “contra-revolucionárias”. Além disso, nós estaríamos caindo no mesmo dogmatismo religioso de regimes de esquerda; onde Deus é a natureza selvagem; o Messias é Ted Kaczynski; a Bíblia é o Manifesto Unabomber, os Apóstolos são Zerzan, Feral Faun, Jesus Sepulveda, entre outros; o Paraíso muito aguardado é o colapso da civilização; o iluminado ou pregadores são os “revolucionários”, mantidos pela fé cega de que um dia a “Revolução” virá. Os discípulos serão aqueles que são “potencialmente revolucionários”, as cruzadas ou as missões serão a de levar a palavra aos círculos envolvidos nas lutas ambientalistas ou anarquistas (onde eles podem encontrar “potenciais revolucionários”); e os ateus ou seitas seriam aqueles de nós que não acreditam em seus dogmas, nem aceitamos as suas ideias como coerentes com a realidade presente. [2]

O objetivo deste artigo é analisar a trajetória ideológica do ITS/RS e tentar vinculá-lo a correntes intelectuais e históricas mais amplas. Nesta análise, tenho a intenção de mapear o desenvolvimento deste grupo a nível ideológico, mostrando mudança e continuidade dentro de suas idéias como reflexo da ação militante. Acredito que a história do ITS/RS é mais uma fuga ideológica de tendências anarquistas de esquerda, que inclui retórica tomada do anarquismo insurrecionalista e de lutas pela libertação animal, até de uma crítica aprofundada à ideologia anti-tecnologia de Theodore Kaczynski. Esta fuga incluí uma polêmica intensa em oposição à idéia de Kaczynski de revolução contra o “sistema tecno-industrial”. Em vez disso, o ITS/RS tem favorecido uma crítica egoísta individualista à ação das massas fundamentada por uma visão de suas próprias investigações antropológicas acerca da vida de caçadores-coletores no contexto mexicano. Vou argumentar que eles chegaram a uma abordagem “pós-política” para suas ações terroristas extremas, buscando uma reversão para uma selvageria indígena encontrada na longa história da civilização e resistência do México. Finalmente, vou avaliar as atuais tendências ideológicas do RS contra o registro histórico e pesquisa antropológica. Na minha opinião, o desenvolvimento ideológico do ITS/RS possui uma abordagem inovadora para o pensamento anti-civilização, embora esteja anexado ao romantismo vestigial e retórica exagerada que muitas vezes ofusca sua mensagem.

 

Para fora do Esquerdismo, Para dentro do Selvagem

O sétimo comunicado do ITS, publicado em 22 de Fevereiro de 2012, estabelece o seguinte:

“Seguindo temas de caráter anarquista, publicamente aceitamos que cometemos o erro em comunicados anteriores (especificamente o primeiro, segundo e quarto) quando nos referimos a assuntos que não conheço pessoalmente à respeito, mas aos quais naquela época nos considerávamos potenciais aliados. Durante esse tempo, o ITS foi muito influenciado pelas correntes de libertação (dos animais e da terra) e por insurrecionalistas, que foram no início uma parte integrante do nosso desenvolvimento ideológico, mas agora nós deixamos isso para trás, e como se pode ler acima, temos nos transformado em algo diferente.”

Uma das organizações mexicanas que popularizou os materiais do ITS/RS é a Ediciones Aborigen. Esta organização tem publicado vários comunicados do ITS/RS, bem como materiais de pesquisa produzidos muitas vezes em colaboração com o ITS/RS.[3] Em uma edição da revista Ediciones Aborigen [4], Palabras Nocivas, Ediciones Aborigen descreve sua própria história; digno de nota é o fato de que esse esforço de publicação saiu da dissolução de uma revista anterior, Rabia y Acción. Esta é uma revista insurrecionalista extinta que já havia coberto lutas de animais e de Libertação da Terra durante todo México e em outros lugares. A décima edição da revista, publicada em 2012, anunciou a sua dissolução, afirmando que os autores agora se opõem a sua antiga orientação voltada a ações pelos direitos dos animais e da terra. Eles vieram a considerar estas ações como “reducionistas”, “uma fuga psicológica” e “sentimentalista”. [5] Os autores também expressaram apoio à contenda de Kaczynski que afirma que a luta contra o “sistema tecno-industrial” é a única que importa . Eles também republicaram um ensaio em meados de 2003, intitulado “Stirner, o Único, o Egoísta e o Selvagem”, onde o autor afirma o seguinte: “O homem de verdade, e não o civilizado, o selvagem, foi sacrificado para o engrandecimento da glória da dominação pela pira civilizatório, juntamente com o resto dos animais selvagens e do próprio planeta”.

Muitos dos temas abordados pelos autores do Rabia y Acción ecoam os do ITS/RS, incluindo a crítica ao esquerdismo, lutas coletivistas e domesticação no coração da civilização. Os primeiros comunicados do ITS também expressam um horizonte expandido de ação de ativismo pela libertação animal e da terra. Seus ataques a nanotecnologia e cientistas trabalhando em diversos empreendimentos tecnológicos foram uma tentativa de atingir um alvo mais amplo do que campanhas contra fazendas industriais e vivissecação de animais que tinham sido os projetos anteriores de grupos eco-anarquistas no México. Considerando que os ataques até então tinham se focado no sofrimento concreto e exploração de determinados animais e extensões de terra, o ITS se focou no “sistema tecno-industrial” como um todo, conforme definido por Kaczynski durante sua suposta campanha contra a infra-estrutura científica durante todo o intervalo entre 1980 e meados de 1990.

A trajetória ideológica do ITS/RS e, portanto, de seus aliados, parece ser uma de purificação sem fim, talvez até mesmo paranóica, da mensagem acerca do ataque à tecnologia e à civilização. Neste processo de auto-crítica, o ITS/RS se desfizeram das suas ligações com o esquerdismo, o anarquismo e o coletivismo objetivando chegar cada vez mais a uma mensagem “mais pura” da guerra absoluta contra a civilização técnico-industrial, bem como a auto-conversão à “selvageria” na medida em que eles são capazes. Como se afirma em seu primeiro comunicado:

Vamos ver a verdade. Vamos plantar nossos pés na terra e parar de voar iludidos dentro da mente esquerdista. A revolução nunca existiu e, portanto, nem há revolucionários. Aqueles que se visualizam como “potencialmente revolucionários”, e que procuram por “mudança radical anti-tecnológica” estão sendo verdadeiramente irracionais e idealistas, porque tudo isso não existe. Tudo o que existe neste mundo moribundo é a autonomia do indivíduo e é para isso que nos esforçamos. E mesmo que tudo isso seja inútil e permaneça estéril em seus resultados, nós preferimos nos levantar em uma guerra contra a dominação do que nos manter inertes, meros observadores, passivos, ou parte de tudo isso. [6]

A crítica do ITS acabaria por afastar qualquer aparência de discurso esquerdista, incluindo a sua identidade anterior de “ecologista radical”. Posteriormente, ele também renunciaram a categorias ideológicas tais como “humanismo”, “igualdade”, “pluralidade”, e assim por diante [7]. No processo, o ITS/RS desenvolveu uma crítica pungente à revolução, ao esquerdismo e até mesmo à própria sociedade, em favor do objetivo singular da desestabilização do sistema tecnológico moderno. A conclusão definitiva do ITS/RS foi posta logo no início: a verdadeira solidariedade e comunidade humana não pode ser alcançada sob a civilização tecno-industrial, e, portanto, todas as idéias e valores que vem atreladas à ela são obsoletas e perniciosas. A ação coletiva é, portanto, fora de questão; somente a resistência de indivíduos que confrontam este sistema é adequada para aqueles que estão voltando à selvageria. A este respeito, nenhum curso de ação ou tática está fora de questão.

 

O Filho Bastardo de Ted Kackzynski [8]

Em janeiro de 2012, o ITS publicou o seu sexto comunicado que foi uma auto-crítica de várias tendências apresentadas anteriormente em comunicados anteriores. O comunicado começa por criticar o anterior uso ortográfico de colocar um “x” em vez de um “o” ou “a” em certos substantivos pessoais para preservar a neutralidade de gênero. [9] O ITS também clarificou a sua posição em relação ao “esquerdismo”, indicando que deixaria de enviar mensagens de solidariedade à prisioneiros anarquistas como vinha fazendo em comunicados anteriores, e que não iria nem mesmo se referir aos seus atos como parte de um “movimento” ou “revolução” para derrubar ou alterar o “sistema Techno-industrial.” O ITS resumiu a sua crítica ao esquerdismo afirmando:

“Com relação à nossa posição, o que isso tem a ver com a nossa guerra contra o esquerdismo? Temos reavaliado o que dissemos no passado, e concluímos que o esquerdismo é um fator que não merece nada mais do que mera rejeição, crítica e ruptura por parte de todos aqueles que lutam contra o sistema industrial Tecnológico.” [9]

A crítica ao esquerdismo é tomado em grande parte de Theodore Kaczynski. No parágrafo 214 de seu famoso “Sociedade Industrial e o seu Futuro”, Kaczynski afirma:

“Para evitar isso, um movimento que exalta a natureza e se opõe à tecnologia deve assumir uma posição resolutamente anti-esquerdista e deve evitar toda a colaboração com os esquerdistas. O esquerdismo é a longo prazo incompatível com a natureza selvagem, com a liberdade humana e com a eliminação da tecnologia moderna. O esquerdismo é coletivista; que busca unir o mundo inteiro (tanto a natureza quanto a raça humana) em um todo unificado. Mas isto implica gestão da natureza e da vida humana por parte da sociedade organizada, e isso exige tecnologia avançada. Você não pode ter um mundo unido sem transporte veloz e comunicação, você não pode fazer todas as pessoas amarem umas as outras sem técnicas psicológicas sofisticadas, você não pode ter uma “sociedade planejada” sem a base tecnológica necessária. Acima de tudo, o esquerdismo é impulsionado pela necessidade de poder, e o esquerdista procura sua energia numa base coletiva, através da identificação com um movimento de massas ou uma organização. O esquerdismo provavelmente nunca desistirá da tecnologia, porque a tecnologia é uma fonte muito valiosa de poder coletivo.” [11]

No sétimo comunicado, o ITS desenvolve uma crítica à afinidade entre anarquismo e sociedades primitivas. Por exemplo, o ITS defende na discriminação deste comunicado, a autoridade e a hierarquia familiar no contexto da vida de caçadores-coletores. Este também parece ser um reflexo da própria crítica de Kaczynski em seu ensaio, “A verdade sobre a vida primitiva: uma crítica ao anarco-primitivismo”:

“O mito do progresso pode ainda não estar morto, mas ele está morrendo. Em seu lugar um outro mito está crescendo, um mito que tem sido promovido principalmente pelos anarco-primitivistas, embora seja difundido em outros grupos também. De acordo com este mito, antes do advento da civilização ninguém nunca teve de trabalhar, as pessoas simplesmente arrancavam a comida das árvores e colocavam na boca e passavam o resto de seu tempo brincando de joguinhos com as crianças. Homens e mulheres eram iguais, não havia nenhuma doença, nem concorrência, nem racismo, sexismo ou homofobia, as pessoas viviam em harmonia com os animais e tudo era amor, partilha e cooperação.

É certo que o precede é uma caricatura da visão dos anarco-primitivistas. A maioria deles – espero – não estão tão longe do contato com a realidade como fiz parecer. Eles, no entanto, estão bastante longe da realidade, e é tempo de alguém desmascarar seu mito.” [12]

Estas posições, assim como as citações freqüentes de escritos e ações de Kaczynski, indicam claramente uma influência do legado “Unabomber” sobre o grupo mexicano. No entanto, o que eles herdam de suas leituras de Max Stirner e outros teóricos radicais aponta em uma direção bem longe da “revolução” contra a sociedade tecno-industrial de que Kaczynski falou. Na verdade, esta posição foi prevalecente no ITS desde os primeiros comunicados, mesmo que fosse muitas vezes revestida de açúcar ou apenas vagamente reconhecida, como na seguinte passagem do segundo comunicado:

“Recordamos que Kaczynski está em uma prisão de segurança máxima, isolado do mundo que o rodeia, desde 1996; certamente, se ele deixasse a prisão agora, iria perceber que tudo está pior (muito pior) do que estava da última vez que pode o ver no século passado, ele iria perceber o quanto a ciência e a tecnologia têm avançado e quanto elas têm devastado e pervertido. Ele iria perceber que agora as pessoas estão mais alienadas com o uso da tecnologia e que elas têm até mesmo colocado-a em um altar como a sua divindade, seu sustento, a sua própria vida. Como tal, o conceito de “revolução” é completamente antiquado, estéril e fora de contexto com as idéias anti-civilização que se gostaria de expressar. Uma palavra que em si tem sido usado por diferentes grupos e indivíduos na história a fim de chegar ao poder, a fim de mais uma vez dominar e ser o centro do universo. Uma palavra que tem servido como o ansiado sonho de todos os esquerdistas que têm fé de que um dia ela virá para libertá-los de suas cadeias.” [13]

Depois que o ITS se tornou o RS em 2014, começou uma polêmica bastante acentuado contra o Ediciones Isumatag (EI), um site de língua espanhola pró-Kaczynski. Em um comunicado intitulado “Algumas respostas sobre o presente e não sobre o futuro” várias facções do RS deram sua resposta às críticas do EI contra o RS por sua falha em endossar um movimento anti-tecnológico que poderia levar a uma derrubada revolucionária do sistema industrial tecnológico . Na sua resposta, o RS afirma que uma tal revolução teria de ser sustentada por um longo período de tempo em âmbito internacional, um evento que nunca aconteceu anteriormente na história. Na verdade, de acordo com o RS, a única revolução que teve um efeito transformador global foi a Revolução Industrial. [14] Aguardar uma revolução em um futuro indefinido é uma esperança “sem nada de concreto, totalmente no ar”. A “revolução” é, em uma palavra, impossível, e talvez nem mesmo desejável. O RS escolhe assim viver e lutar no presente contra a sua domesticação e subjugação:

“Quando o ITS (em seu momento), ou as facções do RS, declaram que não esperam nada dos ataques que realizamos, estamos nos referindo ao que é estritamente associado com o “revolucionário” ou “o que é transcendental na luta”. Nós não esperamos por uma “revolução”, nem por uma “crise mundial”, nem pelas “condições ideais.” A única coisa que esperamos é que depois de um ataque, nós possamos sair intactos com a nossa vitória individualista, com as mãos cheias de experiências para os próximos passos que serão ainda mais constantes, destrutivos e ameaçadores.” [15]

Assim, o RS classifica a revolução anti-tecnológica de Kaczynski tanto como delirante quanto um impedimento à ação extremista no aqui e agora. O único caminho aceitável de ação para o ITS/RS é um em que apenas o presente importa, um que golpeia a máquina tecnológica com pouca preocupação com efeitos ou consequências de longo prazo. O ITS/RS abdicou assim a sua obrigação para com o futuro em nome de atos individualistas de violência que são uma feroz desconstrução de sua própria domesticação. É claramente observável que o ITS/RS nunca acreditou que qualquer outra coisa fosse possível ou construtiva. O que vou tentar mostrar no restante deste ensaio é como eles chegaram a essas conclusões, e como o seu próprio estudo do passado os levou a rejeitar o futuro em nome de um presente selvagem.

 

Axcan kema, tehuatl, nehuatl! (Até sua Morte, ou a minha!)

A transição do Individualidades Tendiendo a lo Salvaje à sua nova identidade de Reacción Salvaje em 2014 foi marcada por um enfoque decisivo na história no contexto mexicano. O pensamento anti-civilização no México aborda a longa história de resistência à civilização que já acontecia mesmo antes da chegada dos europeus. Em particular, tribos de caçadores-coletores do norte do México central eram uma ameaça constante para as prósperas civilizações que os europeus encontraram após a sua chegada. Embora esta região do mundo tenha domesticado algumas culturas como o milho, que serviu como a espinha dorsal da agricultura sedentária em todo o continente, a dominância da forma civilizada de vida não alcançava algumas das regiões vizinhas dos impérios da Mesoamérica pré-conquista. Mesmo após a conquista espanhola em 1521, estas tribos do norte, chamado de “Gran Chichimeca” (Grande Chichimeca), travaram uma guerra feroz com o crescente império espanhol. Esta guerra duraria quase quarenta anos. O RS retira substancial inspiração ideológica deste evento histórico, como declarou em uma polêmica recente:

“Ediciones Isumatag escreve em seu texto que o confronto direto constitui, mais cedo ou mais tarde, suicídio, e eles estão certos. Mas decidimos que, para nós mesmos, sabemos que talvez teremos que compartilhar o mesmo destino de prisão ou morte dos selvagens guerreiros Chichimecas Tanamaztli e Maxorro, o mesmo que aconteceu com indomável Chiricahua Mangas Coloradas e Cosiche. Isso nós sabemos bem, nós escolhemos nos engajar em uma luta até a morte com o sistema antes de conformar-nos e aceitar a condição de seres humanos hiper-domesticados que eles querem nos impor. Lembramo-nos de que cada indivíduo é diferente. Para alguns, é bastante reconfortante se enganarem pensando que um dia uma grande crise vai chegar e só então eles vão trabalhar ativamente para o colapso hipotético do sistema. Mas para nós, esse não é o caso. Nós não somos idealistas, vemos as coisas como elas são, e elas nos impelem à confrontação direta, assumindo sobre nós mesmos as últimas conseqüências.” [16]

Outro trabalho que o RS e seus aliados têm realizado é imprimir publicações como o Regresión e o Palabras Nocivas que publicam tanto propaganda do RS quanto matérias informativas sobre a história indígena de luta contra a civilização. Por exemplo, em outubro de 2014, um número do Regresión foi lançado com informações sobre a resistência Chichimeca à colonização espanhola e à Guerra de Mixtón do século 16. [17] A Guerra de Mixtón foi uma revolta, em 1541, dos povos recentemente conquistados contra a dominação espanhola no centro do México. Esses povos indígenas tinham sido agricultores sedentários que “reverteram” para um estilo de vida caçador-coletor nas colinas e montanhas da região central do México para combater os espanhóis. No decorrer do ano, as forças indígenas conquistaram vitórias bastante impressionantes, mas em 1542 eles foram decisivamente derrotados por uma coalizão de espanhóis e seus aliados indígenas. Como o autor do artigo Regresión escreve:

“Cinvestav alterou e modificado geneticamente um grande número de plantas antigas e exóticas. Uma dessas plantas é a chilague, uma de nossas raízes ancestrais. Muitos selvagens foram salvos da morte através do uso desta raiz, e assim eles foram capazes de continuar sua guerra contra a civilização. Pode-se afirmar com firmeza que a Guerra Mixtón (1540-1541), a Guerra Chichimeca (1550-1600) e a Rebelião de Guamares (1563-1568) foram todas autênticas guerras contra a civilização, tecnologia e progresso. Os Chichimecas selvagens não querem um novo ou melhor governo. Eles não desejavam nem defendiam as cidades ou centros das civilizações mesoamericanas derrotadas. Eles não buscavam a vitória. Eles só desejavam atacar aqueles que os atacaram e os ameaçaram. Eles buscavam confronto, e de lá vem a grito de guerra: “Axkan kema, tehualt, nehuatl”. (Até a sua morte, ou a minha)” [18]

O Chichimeca é o “selvagem” arquetípico no pensamento atual do RS, mais do que qualquer outro grupo de caçadores-coletores. Os nômades caçadores-coletores que se encontravam aonorte da civilização mesoamericana foram inimigos ferozes das cidades agrícolas sedentárias da região central do México antes da chegada dos espanhóis. A afinidade recém-descoberta do RS com a história do Gran Chichimeca é a melhor indicação de uma mudança ideológica dentro de suas fileiras. Não só é necessário rejeitar o esquerdismo e a “revolução” contra o sistema tecno-industrial, mas em sua mentalidade, é preciso voltar a “selvageria”, e adotar o ethos dos antigos “selvagens” que lutaram contra a civilização. O RS pretende, assim, ir da crítica ao abandono imediato da mentalidade civilizada, em direção a uma atitude que eles reconhecem como “selvagem” e mais em sintonia com a natureza, que é a única considerada boa.

A tendência intelectual do RS no sentido de uma nova barbárie parece ser um resultado de um envolvimento com fontes acadêmicas disponíveis. Enquanto estas fontes tendem a documentar o Gran Chichimeca como um lugar inóspito e violento, sem dúvida essas calúnias só inspiraram ainda mais o RS na adoção de uma identidade “feroz”. A dureza da vida de caçadores-coletores em uma região árida ainda equivale a liberdade em seus olhos. Um artigo de investigação independente citado no blog El Tlatol é intitulado, “Repensando o Norte: O Grande Chichimeca – Um Diálogo com Andres Fabregas.” [19] Uma passagem deste trabalho cita o imperador asteca pré-colombiano, Montezuma Ilhuicamina, que afirmou o seguinte, relativo à re-escrita da história asteca:

“Temos que reconstruir nossa história, porque ainda somos como os Chichimecas do Vale do México, e isso não pode acontecer. Assim, devemos apagar essa história Chichimeca de nosso passado e construir outra: a história de como nós somos o povo civilizador do México, e como nós somos os construtores da grande Tenochtitlan.”

Fabregas nesta entrevista também resume as atitudes dos astecas e outros índios civilizados como a seguir:

“E, efetivamente, os mexicas renunciaram ao passado, afastaram-se de seu passado, que era um passado Chichimeca, inventaram o termo: mais do que o termo, eles inventaram o conceito, o que torna as pessoas do norte, ao norte do centro do mundo – já que o México é o centro do mundo – povos incivilizados. E eles usaram um argumento que agora parece lunático para nós, mas naquele momento foi crucial. O argumento era: os Chichimecas não sabiam como fazer tamales, para não mencionar como comê-los. Nós achamos isto estranho, mas o fato é que fazer tamales exigia toda uma transformação da natureza. Um conhecimento impressionante da natureza. Era como um resumo da história cultural. Com isto queriam dizer que os Chichimecas não são capazes de criar cultura.” [20]

Outros mexicas prenunciaram preconceitos europeus contra a vida “primitiva” de caçadores-coletores, descrevendo a terra dos Chichimecas aos primeiros cronistas espanhóis sob uma luz muito negativa: “É uma terra de penúria, de dor, de sofrimento, fadiga, pobreza e tormento, é um lugar de aridez pedregosa, de fracasso, um lugar de lamentação; é um lugar de morte, de sede, um lugar de desnutrição. É um lugar de muita fome e muita morte”. [21]

A rejeição à moralidade recebeu das RS até parece, em certa medida, inspirada pelo que eles consideram ser as atitudes dos Chichimecas em relação à sociedade cristã ocidental. Por exemplo, em um comunicado assumindo a responsabilidade por um ataque recente sobre o Teleton Nacional em Novembro de 2014, o “Nocturnal Hunter Faction” do RS declarou: “Sem o recurso a mais explicações, não somos cristãos, e nobreza é algo que não pode ser atribuído a nós! Nós somos selvagens! Nós não desejamos defender ou caridade dos outros e para os outros!” [22] A aparente imoralidade e ardor de luta é uma característica comumente conhecida dos Chichimecas em sua guerra contra os espanhóis e seus aliados indígenas cristianizados. O estudioso norte-americano, Philip Wayne Powell, em seu livro seminal sobre a Guerra Chichimeca, “Soldados, Índios e Prata”, afirma o seguinte sobre o tratamento dos Chichimecas à seus inimigos capturados em batalha:

“A tortura e mutilação de inimigos capturados pelos Chichimecas tomou muitas formas. Às vezes, o peito da vítima era aberto e o coração era removido enquanto ainda estava pulsando, na forma do sacrifício asteca; esta prática era característica das tribos mais próximas dos povos sedentários do sul. O escalpelamento foi amplamente praticado no Gran Chichimeca e, com freqüência, enquanto a vítima ainda vivia… Os guerreiros também cortavam os órgãos genitais e enfiava-os na boca da vítima. Eles empalavam seus cativos, “como os turcos faziam.” Eles removiam várias partes do corpo, perna e braço, ossos e costelas, um por um, até que os prisioneiros morressem; os ossos eram, por vezes, levados como troféus. Algumas vítimas eles jogavam do alto de penhascos; alguns eles enforcavam. Eles também abriam as costas e arrancavam os tendões, que eles usavam para amarrar pontas de seta em flechas. As crianças pequenas, que ainda não caminhavam, eram agarradas pelos pés e as cabeças eram batidas contra rochas até que seus cérebros esguichassem para fora.” [23]

Apesar de sua barbárie, e talvez por causa dela, os Chichimecas foram praticamente invictos militarmente pelos espanhóis e seus aliados indígenas subjugados. Eles eram guerreiros ferozes com “vantagem de jogar em casa” em terreno hostil, e a guerra da Espanha contra eles se arrastou por décadas no final do século XVI. Para o Reacción Salvaje, eles são oponentes arquetípicos contra a civilização no contexto mexicano. Num comunicado recente, alguns membros admitem ter para a região onde estas batalhas ocorreram para interrogar os moradores locais para obter mais detalhes e confirmar o que leram nos livros de história “civilizados”. [24]

Os membros do RS, juntamente com o jornal Regresión e o Ediciones Aborigen, resumiu o que a Chichimeca significava para sua versão de ideologia eco-extremista em sua compilação antropológica, “O Lugar das Sete Cavernas”:

“Nós entendemos Chicomoztok [O Lugar das Sete Cavernas] como aquele lugar isolado da civilização, o local de convergência de várias tribos nômades selvagens, que representa a vida selvagem e plena que nossos ancestrais viviam antes de serem convencidos a adotar a vida sedentária. É uma visão do passado que tende para a regressão e uma lembrança daquilo que temos vindo a perder pouco a pouco. Ele simboliza para nós a clivagem ao nosso passado primitivo e, assim, a defesa extrema da natureza selvagem; o fogo inicial que incita conflito individual e em grupo contra o que representa artificialidade e progresso.” [25]

Os Chichimecas são o símbolo da intransigência do RS ao ponto de morte contra uma força que está destruindo a natureza através da tecnologia e vida civilizada. Note-se também que o símbolo do RS, com a sua representação de um indígena vestido em pele de coiote acendendo um fogo, é tomada a partir de um códice que representa um guerreiro Chichimeca em Chicomoztok. Mesmo a própria idéia de tempo é concebida como sendo “muito civilizada” para o RS e seus aliados e, portanto, o objetivo é concebido em termos os quais apenas um “selvagem” adequado poderia compreendê-los:

“Nós não acreditamos na possibilidade de “revoluções anti-industriais”, nem nos movimentos futuristas que podem trazer (de acordo com aqueles pensadores) a queda deste sistema artificial. Na natureza selvagem, não existe “possivelmente”, nem “talvez”. Não há pontos intermediários, nem neutros. Só existe o concreto: é ou não é. A sobrevivência sempre foi assim, e obedecemos essas leis naturais. O presente é tudo o que há, aqui e agora. Tentar ver o futuro, ou trabalhar para realizar algo no futuro, é um desperdício de tempo. Esse tem sido o verdadeiro erro dos revolucionários.” [26]

 

Conclusão: o Orgão do Capitão Vancouver, Ou: como o Norte venceu?

Tendo percorrido a trajetória ideológica do ITS/RS, neste momento eu sinto a necessidade de fazer uma avaliação da recente “selvageria” do RS. O aspecto que mais precisa ser interrogado é  “anti-hagiografia” que o RS faz dos Chichimecas. Embora seja claro que a guerra terminou com a dominação espanhola, não fica claro, pela narrativa ideológica do RS, como ela terminou. Era realmente um “lutar até a morte”? Foram todos os Chichimecas abatidos? E se não, por que eles finalmente se renderam? Ou, isso poderia mesmo ser chamado de “rendição”?

O que o RS e seus aliados parecem não se importar de falar é que, pelo menos de acordo com o livro inovador de Philip Wayne Powell sobre o assunto, o fim da Guerra Chichimeca foi relativamente pacífica e anti-clímax. Enquanto alguns guerreiros, de fato, “lutaram até a morte”, a grande maioria não o fez. Eles eram militarmente parelhos ou mesmo superiores aos seus adversários espanhóis, mesmo com a ajuda de indígenas “sedentários” aliados. Enquanto muitos Chichimecas foram levados cativos durante a fase da guerra que Powell denomina, “la guerra a fuego y a sangre” (a guerra à fogo e sangue, ou menos figurativamente, a guerra total), o impasse que se seguiu obrigou os espanhóis a adotar outra abordagem para acabar com as hostilidades. Em vez de utilizar um método de pacificação que incentivava a escravização dos índios como forma de pagamento aos soldados mercenários, a Coroa decidiu pegar os fundos para a guerra e usá-los para pagar a lealdade de vários líderes Chichimecas. Em tantas palavras, os espanhóis compraram os Chichimecas:

“A diplomacia de paz tornou-se um pouco menos difícil durante a última década do século [XVI], como as tribos Chichimecas perceberam que poderiam obter vantagens a partir dos tratados de paz e que eles não seriam prejudicados pelos espanhóis. Vez após vez, os próprios índios iniciaram negociações de paz, mostrando vontade real de abandonar a sua vida nômade e se estabelecer nas terras de nível.” [27]

Avançando apenas mais de dois séculos pode-se ver este processo replicado mais ao norte, desta vez na Califórnia colonial tardia. Enquanto este último exemplo se deu com ainda maior tragédia e violência devido a uma mortandade em massa de doença e violência dos colonos, no geral, a subjugação dos índios da Califórnia frente o sistema de missão foi um caso quase voluntário. Como comenta Randall Milliken em seu livro, A Time of Little Choice: The Disintegration of Tribal Culture in the San Francisco Bay Area 1769-1810:

“Os moradores da área da baía foram tentados por produtos materiais e tiveram suas práticas tradicionais denegridas pelos agentes da complexidade tecnológica e organizacional ocidental. As taxas de mortalidade elevadas e a ameaça contínua de violência militar esmagadora contra qualquer grupo que tentasse barrar os proselitistas missioneiros aumentou a pressão. É de se admirar que os povos tribais tenham chegado a duvidar do valor de sua cultura nativa, e começado a aceitar uma definição de si mesmos como ignorantes, não qualificados, e merecedores de uma vida de subordinação na nova estrutura social baseada em castas?” [28 ]

Em alguns casos, não foi necessário muito contato para convencer as tribos indígenas para subjugarem-se ao jugo cristão espanhol. Nos anais da missão de San Juan Bautista, na Califórnia, é contada uma história de um órgão que pertenceu ao capitão britânico George Vancouver:

“Em uma ocasião, esse órgão foi designado para salvar a missão da destruição nas mãos dos bélicos índios Tulare, que atacaram San Juan Bautista, assassinando neófitos e fugindo conduzindo os cavalos. Índios cristãos recuperaram os cavalos, e os Tulares, gritando gritos de guerra, apareceram novamente. Padre de la Cuesta arrastou o órgão apressadamente para fora e começou a acionar a manivela furiosamente. O clangor da música primeiramente deixou os agressores intrigados, e depois os encantou, então pacificamente se renderam à missão que eles tinham a intenção de destruir.” [29]

Dessa forma, o RS cometeu um erro raro, mas ainda assim grave, de considerar certos povos como “selvagens ignóbeis” completamente imunes ao comportamento e consideração “civilizados”. Este, claramente, não foi o caso do registro histórico. Enquanto os Chichimecas empreenderam duras batalhas na fronteira para defender seu modo de vida, uma vez que se tornou claro que o espanhol iria lhes dar presentes e não escravizá-los, em sua maior parte, eles se estabeleceram de bom grado ao lado de seus antigos inimigos indígenas sedentários e fizeram as pazes com a ordem colonial. Em última análise, os chichimecas e outros índios na fronteira não travaram uma guerra de morte contra a civilização. Com efeito, não se pode projetar um discurso anti-civilização da parte deles, porque eles não sabiam o que isso significava. Os povos indígenas não foram nem homogêneos nem aliados uns dos outros de alguma forma coesa. Eles não estavam unidos como uma força contra algo que viríamos chamar de “civilização”. Quando foi dada uma forma de se comprometer, pelo menos na questão da guerra Chichimeca e na Califórnia colonial, os nativos aceitaram o fim de seu modo de vida sem muita resistência.

O ato do ITS/RS de olhar para a sua própria história local buscando fundamentar sua luta em guerras anteriores contra a civilização travadas em solo mexicano é altamente admirável e renovador no contexto de conceitos de esquerda muitas vezes abstratos. No entanto, a sua atitude a respeito da necessidade de um “retorno à selvageria”, uma espécie de purificação da poluição da modernidade e da esquerda, é um enquadramento intelectual mal concebido. A única razão pela qual nós sabemos que a civilização é o mal é porque temos passado por isso e temos vindo a temer o atual Prometeica vontade de poder sobre a natureza. “Purificação” é, portanto, muito mais difícil do que o ITS/RS as vezes deixa transparecer.

No entanto, ainda que os nossos antepassados tenham ​​falhado na luta contra o Leviatã civilizado, eu e outros acreditamos que essa luta deve continuar. A retórica semi-suicida do ITS/RS à respeito do enfrentamento contra a civilização tecno-industrial pode parecer exagerada às vezes, mas, dada a cooptação de todas as lutas anteriores e o verdadeiro beco sem saída que é o esquerdismo, é difícil argumentar contra a adequação de tal militância. Um animal selvagem pode fugir, mas quando encurralado, ele não senta e obedece; ele ataca; mesmo que as probabilidades estejam contra ele, mesmo que a morte seja certa. Um animal selvagem só pode ser morto pela civilização porque não serve a nenhum uso para ela. Aqueles animais que obedecem e encontram uma maneira de se acomodar à seus mestres são a história de sucesso da domesticação. Os animais que se escondem na auto-preservação são o que a civilização precisa. Esquemas e revoluções para “um futuro melhor” podem muito bem ser a armadilha na qual sempre caímos. Esta é a armadilha que leva à domesticação e conformidade, que é uma morte em vida que conduz rapidamente à morte real maciça em uma escala global.

Assim, pode-se criticar as táticas das ITS/RS, a sua falta de empatia para com as vítimas que se tornam “danos colaterais” em seus ataques, sua prosa histriônica, seu romantismo sádico, e assim por diante. Mas quando tudo tiver sido dito e feito, a lápide da Terra dirá que ela morreu por culpa de um modo de vida que procurou trazer paz e prosperidade à custa da escravidão de todas as coisas para os seus fins. Esse tipo de violência generalizada e despretensiosa faz ações como as do ITS/RS parecerem insignificantes, por comparação. Talvez, nesse sentido, nós também devemos evocar a “selvageria”, aquela vida interior ainda não conquistada, que proclama uma firme não-servidão a um sistema que oferece paz ao preço de nossa morte lenta. Talvez seja por isso que está escrito: “E desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam pela força” (Mateus 11:12).

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Original: Toward Sevagery – recent developments in eco-extremist thought in México.
Autor: Abe Cabrera
Tradução: Ctenomys (fevereiro de 2017)

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[1] First communiqué of Wild Reaction, 113, found at: https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/11/la-naturaleza-es-el-bien-la-civilizacic3b3n-es-el-mal.pdf. The title of the book containing the communiqués is: La Naturaleza es El Bien, La Civilización es el Mal: Comunicados de Individualidades tendiendo a lo salvaje. Edicions Matar o Morir: Mexico, 2014. All translations are the author’s unless otherwise noted.

[2] Second ITS communiqué, 20.

[3] See for example this link: https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/12/el-lugar-de-las-siete-cuevas.pdf

[4] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/palabras-nocivas-5.pdf

[5] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/rabia-y-accion-10.pdf

[6] First ITS communiqué, 11.

[7] First communiqué of Wild Reaction, August 2014.

[8] The title is taken from this link: https://eltlatol.wordpress.com/2015/01/12/eco-extremismo/

[9] In Spanish, as in most Romance languages, plural personal nouns where a mixed group of people of both genders are present are made masculine by default, no matter what the makeup of the group. Some radical groups of feminist sensitivities try to get around this by placing a gender neutral “x” instead of an “a” or “o” at the end of plural personal nouns to avoid this grammatical rule, e.g. “compañeros” (comrades) becomes “compañerxs”.

[10] Sixth ITS communiqué, 74.

[11] Technological Slavery, 106.

[12] Technological Slavery, 129.

[13] Second communiqué, 18.

[14] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/24/algunas-respuestas-sobre-el-presente-y-no-del-futuro-2/

[15] Ibid.

[16] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/24/algunas-respuestas-sobre-el-presente-y-no-del-futuro-2/

[17] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/10/regresion2.pdf

[18] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/08/regresic3b3n-1.pdf

[19] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/10/la-gran-chichimeca.pdf

[20] Ibid.

[21] Braniff, 7.

[22] https://eltlatol.wordpress.com/2014/11/18/artefacto-explosivo-detonado-en-fundacion-teleton-mexico/

[23] Powell, 51.

[24] https://eltlatol.wordpress.com/2015/02/27/ya-se-habian-tardado-reaccion-salvaje-en-respuesta-a-destruye-las-prisiones/

[25] https://eltlatol.files.wordpress.com/2014/12/el-lugar-de-las-siete-cuevas.pdf

[26] https://eltlatol.wordpress.com/2014/09/22/algunos-comentarios-criticos-al-articulo-de-john-zerzan-en-vice/

[27] Powell, 207.

[28] Milliken, 226-27.

[29] http://www.sandiegohistory.org/journal/63january/organ.htm

 

Bibliography

Braniff, Beatriz, ed. La Gran Chichimeca: El lugar de las rocas secas. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 2001.

Individualidades Tendiendo a lo Salvaje (ITS). La Naturaleza es El Bien, La Civilización es el Mal: Comunicados de Individualidades tendiendo a lo salvaje. México: Ediciones Matar o Morir, 2014.

Kaczynski, Theodore. Technological Slavery: The Collected Writings of Theodore J. Kaczynski, a.k.a. “The Unabomber.” Port Townsend, WA: Feral House, 2010.

Milliken, Randall, A Time of Little Choice. Menlo Park, CA: Ballena Press, 1995.

Powell, Philip Wayne. Soldiers, Indians, & Silver: North America’s First Frontier War. Tempe: Center for Latin American Studies, 1975.

 

“Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação – por Chahta Ima


“Cada Apache decide por si mesmo se ele luta ou não. Somos um povo livre. Não forçamos os homens a lutar como fazem os mexicanos. O serviço militar forçado produz escravos, não guerreiros.”

– “Avô”, citado em In the Days of Victorio: Recollections of a Warm Springs Aparche, por Eve Ball e James Kaywaykla

O contexto desta citação é interessante por ter sido proferida em uma reunião de líderes apaches cujo tema era sobre se devem ou não continuar a resistência contra o homem branco invasor ou sucumbir à poderosa força invasora. Com uma visão retrospectiva, pode-se afirmar que tal postura é uma tolice: se os Apaches fossem uma “frente unida” em vez dos diversos bandos que sempre foram, eles poderiam ter tido uma chance de vitória, é o que nosso raciocínio nos faz pensar. Em vez disso, sua incapacidade de adaptar sua organização social a novas condições levou-os diretamente à sua queda. Diante de uma sociedade de cidadãos intercambiáveis que constituem um Leviatã maciço e unificado, os Apaches continuaram a ser o povo indomável e selvagem de antes. E eles pagaram o preço final por isso: derrota, humilhação, exílio e, em muitos casos, morte prematura.

Mas talvez, mesmo assim, os fins não justifiquem os meios. Ou melhor, os “fins” são realmente os “meios” projetados e amplificados em uma conclusão lógica e monstruosa. Mesmo que os chefes apaches tivessem recrutado todos os guerreiros e os tivessem obrigado a lutar, mesmo que alguns dos guerreiros não tivessem fugido e se tornado caçadores de seu próprio povo para o exército branco, mesmo que pudessem ter segurado o Exército dos EUA por alguns anos mais, eles não teriam feito isso como Apaches, ou como o povo que sempre foram. O caso aqui é parecido, “para salvar a cidade, teríamos que destruí-la”. Ou melhor, para evitar que a cidade fosse estabelecida na terra dos apaches, eles tinham que se tornar a cidade no raciocínio da civilização. E eles sabiam o que isso significava: a escravidão de uma forma ou de outra. Eles aceitaram as conseqüências de sua recusa, mesmo que tivessem dúvidas sobre isso.

Podemos aplicar essas lições à nossa própria situação. Muitos grupos “anarquistas verdes” ou “pós-esquerdistas verdes” como o Deep Green Resistance e outros semelhantes têm uma atitude “militarista” ou “militante” em relação ao “desmantelamento” ou “destruição” da civilização. Existem até mesmo grupos “pró-Unabomber” que sonham com uma “revolução” contra a “sociedade tecno-industrial”. Mas e se, como diz o avô acima, em seus esforços para combater a escravidão, eles estiverem apenas criando mais escravos? Não seria esta a essência do projeto esquerdista/revolucionário: uma última “escravidão”, um último “martírio” que acabará com todas as escravidões e martírios? Só mais um grande empurrão e vamos constituir o lugar onde não há tristeza, nem suspiros, nem mais dor. O Leviatã já teve esse sonho antes, uma miríade de vezes agora, e as pessoas se lançaram contra as rodas do Progresso para torná-lo realidade. Eles ainda estão mortos, e não estamos mais perto da liberdade.

Ainda assim, há outros, como John Zerzan, que pensam que “desistir” de defender o mundo que a civilização criou é algo semelhante ao niilismo e ao desespero. “Esperança”, de acordo com esse raciocínio, seria encontrar uma maneira de “deixar todo mundo terminar bem”, de evitar todas as conseqüências negativas do fim de um modo de vida que não tem produzido nada além de conseqüências negativas para aqueles que se opuseram a ela (como nossos Apaches aqui). O Réquiem cantado para um mundo construído no enorme cemitério de outros mundos mortos deve ser pastoral e pacífico, é o que nos dizem, para que não sucumbamos à vingança e ao ódio, para que não pecamos contra os valores da “Iluminação” que de algum modo escaparam de ser plenamente domesticados, mesmo quando tudo o mais foi (mirabile visu!).

Mas e se esse desejo de salvar o mundo, esse desejo de “derrubar a tirania”, não importando o custo, essa coceira para “lutar por um mundo melhor”, for apenas mais uma roda de hamster, outro jugo para ser colocado em nós, para resolver problemas que nós não criamos e para nos sacrificarmos por um mundo melhor que nunca veremos (engraçado como isso funciona)? E se a perspicácia da civilização domesticada se baseia em aproveitar nossa hostilidade para torná-la melhor, mercantilizando nosso radicalismo e perpetuando valores civilizados em inimigos auto-proclamados como um vírus em um hospedeiro inocente? Por que não apenas manter nossos princípios, como fizeram os Apaches derrotados, e deixar as fichas caírem onde elas irão cair? E se percebêssemos que, como animais, não sabemos o que o futuro vai trazer, que a única resistência que temos é a resistência no agora, e os cuidados de amanhã cuidarão de si mesmos? Na verdade, simplesmente não temos poder sobre o amanhã, assim como não temos poder para ressuscitar o passado. Se o fizéssemos, não seríamos animais, e o revolucionário/esquerdista/tecnocrata estaria certo.

Os eco-extremistas mexicanos estão incorporando essas idéias como na seguinte passagem, que eu traduzi de um trabalho recente deles:

“Percebemos plenamente que somos seres humanos civilizados. Encontramo-nos dentro deste sistema e usamos os meios que ele nos proporciona para expressar uma tendência oposta a ela, com todas as suas contradições, sabendo muito bem que há muito tempo estamos contaminados pela civilização. Mas mesmo como os animais domesticados que somos, ainda nos lembramos de nossos instintos. Vivemos mais tempo como uma espécie em cavernas do que em cidades. Não estamos totalmente alienados, e é por isso que atacamos. A característica distintiva do RS nessa conversa é que dizemos que não há melhor amanhã. Não há como mudar o mundo para um mundo mais justo. Isso nunca pode existir dentro dos limites do sistema tecnológico que engloba todo o planeta. Tudo o que podemos esperar é um amanhã decadente, cinza e turbulento. Tudo o que existe é o agora, o presente. É por isso que não estamos apostando na “revolução” tão esperada nos círculos esquerdistas. Mesmo que isso pareça exagerado, é assim que é. A resistência contra o sistema tecnológico deve ser extremista no aqui e agora, não esperando por mudanças em condições objetivas. Não deve ter “metas de longo prazo”. Deve ser realizado agora por indivíduos que assumem o papel de guerreiros sob sua própria direção, aceitando suas próprias inconsistências e contradições. Deve ser suicida. Não pretendemos derrubar o sistema. Nós não queremos seguidores. O que queremos é a guerra individualista travada por várias facções contra o sistema que nos domina e subjuga. Nosso grito para a Natureza Selvagem será sempre o mesmo até o nosso próprio extermínio violento: “E iraram-se as nações, e veio a tua ira… e o tempo em que tu deverias destruir os que destroem a terra” (Apocalipse 11:18).”

Talvez a única resposta verdadeiramente livre, a única que escapa ao ciclo da domesticação, seja aquela que afirma firmemente que este mundo não vale a pena ser salvo, que seus dias estão contados e quanto mais cedo o mal cair, melhor. Às vezes, a condenação na escatologia cristã não é meramente um castigo, mas é o que é melhor para a alma saturada de iniqüidade. O mundo deve cair, e provavelmente nada irá substituí-lo, nada que possamos prever de qualquer maneira. A única práxis real, portanto, é a da rejeição e não a da reconstrução: um dos animais heróicos que se defronta com o gigante civilizado da escravidão e do medo.
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Autor: Chahta-Ima
Tradutor: Ctenomys (novembro de 2016)
Fonte: “Saving the world” as the highest form of domestication. In: Desde el Instinto

DESCIVILIZANDO A PERMACULTURA – por Tanday Lupalupa

florestal

 

Tanday Lupalupa


Neste ensaio, quero explorar como a permacultura se cruza com a crítica anarquista/anárquica, anti-colonialista e anti-civilização. De forma alguma eu desejo trazer de reboque alguma linha anarco-primitivista (embora eu não possa negar que haja alguma inspiração), mas sim levantar questões sobre onde a permacultura acompanha uma crítica à civilização, e onde, possivelmente, diverge. Algumas das críticas que eu levantarei aqui decorrem de meus anos de estudo e experiência na área, onde a minha visão crítica muitas vezes chegou a estar em desacordo com os meus colegas.

No meio ambientalista contemporâneo, tanto a teoria da permacultura quanto a sua prática se tornaram populares como meios para reparar os solos que foram empobrecidos e, assim, tentar viver de forma mais sustentável em nosso planeta. É uma resposta à crise ecológica que enfrentamos, independente se a conversa está centrada em torno da mudança climática, da destruição do meio ambiente, da segurança alimentar ou de tudo isso.

Então, o que é permacultura? Um dos co-criadores do conceito de permacultura, Bill Mollison[1], e seu colega Scott Pittman, a definem da seguinte forma:

“Permacultura (Agricultura Permanente) é o planejamento e manutenção consciente de ecossistemas cultivados que tenham a diversidade, a estabilidade e a resiliência dos ecossistemas naturais. É uma integração harmoniosa entre a paisagem, as pessoas e tecnologias adequadas, proporcionando alimento, abrigo, energia e outras necessidades de uma forma sustentável. A permacultura é uma filosofia e uma abordagem do uso da terra que trabalham com ritmos e padrões naturais, interligando os elementos do microclima, plantas anuais e perenes, animais, água, manejo do solo e as necessidades humanas em comunidades intrinsecamente ligadas e produtivas”.

Permacultura como um conceito é, de fato, algo bastante amplo. Ela se apresenta tanto como algo mais em sintonia com as verdadeiras complexidades do mundo quanto como algo vulnerável à cooptação. A permacultura não existe como uma singularidade, mas sim como uma multiplicidade. Por exemplo, a agricultura é uma disciplina de produção de alimentos sem conhecimento de sua relação com outras disciplinas, enquanto a permacultura é interdisciplinar: ela tenta entender a interligação de um ecossistema com o seu todo.

Dada a amplitude do conceito de permacultura, não se pode fazer nenhuma análise generalizada sobre ela. Em vez disso, podemos explorar os diferentes aspectos da mesma, tanto na teoria quanto na prática, e ver se ela complementa ou se opõe a uma crítica anti-civilização.

Antes de continuar, pode ser útil explicar de onde eu venho. Houve um tempo a poucos anos atrás em que, depois de ter me tornado mais familiarizada com ideias anti-civilização, comecei a desconstruir coisas como a minha relação com a terra e a minha própria ideia de autonomia – ou seja, a minha própria autossuficiência. Que habilidades eu tinha? O que eu sabia sobre o mundo natural? O que eu sabia sobre o ambiente/biorregião em que eu vivia? Eu estive na verdade viajando por um longo tempo, e tinha muito pouco senso de lugar. Eventualmente, pensei que era hora de voltar para as terras onde eu cresci (ou para perto delas), que era onde a permacultura tinha sido primeiramente desenvolvida. Naquela época, eu via o aprendizado sobre a permacultura como um meio de desenvolver um relacionamento com uma das coisas que me sustenta – os alimentos. É claro que eu tinha sonhos mais selvagens, por assim dizer, mas eu via isso como um ponto de partida.

E, a partir daí, de diferentes formas, eu passei a estudar permacultura, tanto formalmente através de vários cursos, quanto informalmente através de leitura, conhecendo pessoas e participando de projetos.

E é aí que a minha jornada começou.

 

O Problema das Cidades: a Permacultura Urbana

A maior parte do meu envolvimento com projetos permaculturais, em cursos ou de outras formas, era geralmente baseada no ambiente urbano. Isto, obviamente, não é tão surpreendente, devido ao fato de que eu vivia na cidade durante aqueles tempos. Eu, entretanto, experimentei algumas dimensões rurais da permacultura, especificamente um curso rural (nesse caso, logo além da área urbana) e algumas excursões rurais. Era parte dos aspectos rurais do design permacultural que precisei aprender em todos os cursos. No design de permacultura, uma determinada propriedade é tradicionalmente dividida em cinco (ou seis) zonas. Segundo a Wikipedia:

“As zonas são uma forma de organizar inteligentemente os elementos de design em um ambiente com base na frequência de uso humano e nas necessidades de plantas ou animais.”

No entanto, devido ao fato de geralmente as propriedades urbanas terem um tamanho reduzido apenas as primeiras três zonas (Zona 0 sendo a casa) sempre são as únicas realmente utilizadas, e isso tem diminuído para duas, devido ao desaparecimento do espaço de quintal. Esse é o escopo geral da permacultura urbana.

Um dos aspectos da permacultura que logo de cara se torna suscetível de análise é como ela se manifesta em ambientes urbanos. Permacultura em cidades pode incluir hortas comunitárias, fazendas urbanas, hortas de quintal e é uma tentativa de tornar os espaços urbanos mais autossuficientes e reduzir a nossa pegada de carbono[2]. Uma crítica anti-civilização das cidades é que a sua existência é baseada na importação de recursos (por exemplo, alimentos) de áreas rurais. A permacultura, especialmente a sua variedade urbana, tenta mediar isso. Curiosamente, em ambos os cursos em que participei, a ideia da pegada de carbono foi apresentada e, pelo menos uma vez, a nossa própria pegada foi analisada.

Da forma como nossa área imediata é, uma grande concentração de seres humanos em um espaço confinado, não há espaço nela para produzir os meios de nossa subsistência. A importação de recursos, sendo o alimento um dos mais importantes, logo gera um aumento de nossa pegada de carbono. Quanto maior a distância exigida para importar essas coisas, mais o sistema requer a existência de uma infraestrutura industrial para movê-las (por exemplo, um caminhão transporta alimento de uma fazenda para um supermercado na cidade, ele é movido à petróleo, que é transportado da Arábia Saudita em um navio e que é extraído por equipamentos que também são movidos por petróleo… ad infinitum).

Assim, a permacultura olha para uma determinada situação e tenta usar princípios de design, a fim de usar os recursos pré-existentes em um pedaço de terra (seja rural ou urbano) para avançar rumo à autossuficiência, com um impacto ecológico inferior (i.e., uma pegada de carbono inferior) e, geralmente, para gerar uma propriedade mais verde. Este fato vai além da comida, pois é uma abordagem holística para a análise de um determinado lugar e também pode incluir coisas como armazenamento de água, utilização de luz natural, compostagem, et cetera.

Não é o propósito deste ensaio discutir em detalhes (embora eu vá fazer isso mesmo que brevemente) se a permacultura concebida em cidades pode produzir alimento suficiente para seus habitantes. Tais contextos não existem na minha experiência no Ocidente. Acima disso, Havana (Cuba) é frequentemente defendida como a grande esperança da permacultura urbana (veja o documentário O Poder da Comunidade: Como Cuba Sobreviveu ao Pico do Petróleo[3]) – apesar de ainda não produzirem todos os seus próprios alimentos. Eu acho que o que acontece lá é uma experiência interessante, como uma experimentação, é algo importante para a nossa adaptabilidade ao contexto de mudança frente ao caos ecológico que se aproxima cada vez mais, mas eu também acho que essa fixação em “salvar as cidades” pode muito bem estar dançando com o diabo, mais uma manifestação de greenwashing[4].

Derrubar as cidades ainda mais, essa é a ênfase em se inspirar na natureza, da qual a cidade é praticamente a antítese, já que tal densidade de seres humanos não pode ser mantida pela capacidade de suporte de uma determinada área. Segundo a Wikipédia:

“A capacidade de suporte de uma espécie biológica num ambiente é o tamanho máximo da população da espécie que o meio pode sustentar indefinidamente, dado o alimento, habitat, água e outras necessidades disponíveis.”

De acordo com Toby Hemenway[5], Paris produz 30% de sua própria comida, mais do que a maioria das cidades ocidentais, e da mesma forma, Hugh Warwick observa que Havana produz até 50%. Assim, mesmo na Meca da permacultura, a dependência da agricultura rural (permacultura?) ainda é de 50%. Hemenway, um permacultor que vive na cidade de Portland, diz:

“Podemos melhorar nossa capacidade de produzir alimentos nas cidades, mas eu não acho que podemos melhorar o suficiente”.

Eu tendo a concordar. Densidades populacionais características das cidades não estão em harmonia com qualquer capacidade de suporte ecológico. E eu acho que a ideia de cidades está tão incorporada em pelo menos alguns ramos da permacultura que ela se manifesta mesmo fora da cidade.

Na verdade, eu acredito que há uma certa desonestidade ou desilusão, na melhor das hipóteses, dentro da filosofia da permacultura urbana ocidental ao dizer que certos modos de vida – estilos de vida urbanos – possam ser mantidos dentro da capacidade de suporte. Eles não podem. Isto vai além da simples existência de cidades, já que tenho testemunhado o simples transplante do estilo de vida urbano para o ambiente rural. Há um individualismo predominante nisso, entrelaçado com uma confusão de hiper-privilegiados – se apropriando da terra para si mesmos (ou simplesmente reproduzindo a família nuclear), pagando para que tanto o design quanto a construção sejam realizados por outras pessoas, mantendo todos os seus confortos da cidade (por exemplo: eletricidade, possibilidade de ir ao supermercado, entre outros). Muitas vezes, essas casas são muito maiores do que o necessário. Isto parece ser uma desculpa para essas pessoas viverem com ética no luxo. É repugnante, e esse tipo de coisa tipifica a minha dificuldade atual de me identificar por completo com a permacultura. Alguns também tentam construir por si mesmos, mas seja por uma questão de design ou por falta de mão de obra, leva décadas para que eles terminem de construir suas casas. Novamente, se estamos nos inspirando na natureza, não precisamos olhar mais longe do que em nós mesmos. Quando nossa espécie viveu com a natureza e não se opondo a ela, tanto no passado quanto hoje por meio de seus remanescentes, nós evolutivamente vivíamos juntos – em uma comunidade. Como Kevin Tucker[6] disse, “rewilding[7] nunca é uma aventura solitária.”

No entanto, uma distinção importante a fazer é que tais manifestações de permacultura diferem muito de acordo com o contexto, como o acesso à riqueza. O que isto significa na prática especificamente é a forma como a tecnologia é usada. Nos países mais ricos, especialmente em ambientes urbanos, a fixação pelo uso de dispositivos tecnológicos complexos aumenta. Em vez de eles serem uma opção, muitas vezes parecem ser mais uma norma social. Se o acesso desempenha um papel importante nas formas que a permacultura pode adotar, então as versões dela que podem parecer mais ecologicamente corretas são designs mais simples que não exigem o mesmo acesso aos privilégios econômicos e os recursos que os projetos altamente tecnológicos requerem. É esta simplicidade, enfim, que inspira a adaptação, o design holístico e o conhecimento por meio da necessidade.

 

O Problema Semântico: Pico do Petróleo/Declínio Energético, Sustentabilidade e Colapso

Uma divergência interessante e esclarecedora é a maneira com que o pico do petróleo (ou o pico de tudo, nas palavras de Richard Heinberg[8]) é enquadrado. Ao invés de usar as palavras acima mencionadas, ou mesmo colapso, palavra mais emotiva e provocadora, alguns permaculturalistas como David Holmgren[9] se referem a um conceito de “Declínio de Energia” (também referido como “Declínio Criativo”). Isto se refere a:

“retração do uso de petróleo após o alcance do pico de sua extração… a fase de transição do petróleo pós-pico, quando a humanidade passa do uso crescente de energia verificado desde a revolução industrial até um uso decrescente de energia.”

Um dos elementos mais produtivos desse quadro, em oposição a um estilo mais colapsista, é que a criação desta imagética do declínio desmascara a ideia de que existe algum evento climático mágico que trará a destruição ecológica em massa e, com ela, a queda da civilização. Em vez disso, ele aponta para as coisas se desdobrando em etapas e, possivelmente, muito lentamente (relativamente falando). No entanto, ele vai além disso, também é entendido como um declínio mais suave, mais voluntário do que algo que está fora de nossas mãos. Mais especificamente, um outro conceito popular neste meio é o de Planejamento de Declínio Energético (ou seja, de transição), um processo desenvolvido pelo The Transition Towns Movement[10]. Este é um sistema para o desenvolvimento de planos locais para desenvolver designs e nos preparar para o declínio da energia. Neste sentido, significa o processo real de mudar gradualmente a maneira como vivemos, bem como as fontes de energia que usamos (energia alternativa), trocando-a por uma mais saudável para a terra para suavizar o declínio de energia.

No geral, esta é uma maneira muito útil de enquadrar a equação. A criação de estruturas em que positivamente possamos trabalhar juntos, de forma descentralizada, em comunidades específicas de nossa região, é de grande apelo. No entanto, tal formulação positiva não é isenta de perigos, ou seja, de greenwashing. Sem mencionar que ela pode criar a ilusão de que talvez as coisas não sejam tão ruins. É no clichê da falsa dicotomia entre positivo/negativo, que se pode dizer: “eu não quero pensar nos aspetos negativos, apenas nos positivos.” Claro, eu não estou sugerindo que você saia à procura das chamadas experiências negativas, mas sim, melhor do que isso, sugiro que entenda que a armadilha é a bolha. Você vai esquecer a realidade. Na verdade, você estaria criando algo como uma bolha se esquecesse da realidade em sua totalidade, mas com os tipos de paredes que as pessoas criam em suas vidas, em suas mentes, estourar algumas bolhas, por vezes, é uma forma de verificação da realidade bastante necessária.

Pode não acontecer um colapso. Talvez aconteça um declínio de energia. Poderíamos ter sorte. Mas, honestamente, nós realmente não sabemos o que vai acontecer. O que eu sei é que pode ser algo horrível de forma que nenhuma argumentação otimista poderia nos salvar de tudo o que vem pela frente.

Então, há essa ideia de sustentabilidade. O que exatamente significa sustentável?

Desconstruindo a palavra “sustentabilidade” para tentar desvendar o que ela realmente implica, a palestra de Toby Hemenway ‘Como a Permacultura pode salvar a humanidade e o planeta, mas não a Civilização’[11], ilumina a conversa. O que ele propõe é que a sustentabilidade é, na verdade, um certo equívoco. Não é realmente algo que diz respeito a uma ecologia saudável, mas sim a sobrevivência em meio à destruição. Por exemplo, a chamada exploração madeireira sustentável pode não afetar diretamente as árvores de outras florestas fora da região designada à derrubada sustentável, mas ela não ajuda a curar qualquer destruição que foi, será, e está atualmente sendo realizada sobre estas florestas. Então Hemenway coloca a sustentabilidade como um ponto no meio do caminho entre o que ele chama de práticas degenerativas e regenerativas. A primeira delas diz respeito a ações que facilitam a degradação dos ecossistemas (isto é, tudo o que a cultura dominante faz), enquanto a segunda facilita a cura do ecossistema (ou seja, tudo o que a cultura dominante não faz). Este é um ponto interessante, e na verdade ajuda a desconstruir a fachada que afirma que este chavão, sustentabilidade, está ajudando a salvar o planeta. É novamente o greenwashing, tentando limpar a barra dos nossos estilos de vida destrutivos. Assim, na permacultura, a prática regenerativa tenta imitar funções ecológicas naturais que ajudam a reparar os diferentes tipos de danos que foram infligidos pela civilização. A mensagem é clara: ser “sustentável” não vai salvar a Terra. Até que você me mostre um painel solar que não necessite de mineração, os danos ainda estarão sendo feitos.

 

O Problema da Agricultura: Horticultura, Permacultura e Natureza Selvagem[12]

Então surge a pergunta – se trata de uma questão de escala? A chamada permacultura urbana acaba sendo (ou, pelo menos, dependendo de) uma outra forma de agricultura. Podemos melhorar nossas habilidades de cultivar alimentos nas cidades, mas não podemos produzir tudo que é necessário para nós mesmos: por isso, precisamos da agricultura rural. Onde é que isso sai do escopo da permacultura? E onde é que isso sai do escopo da natureza selvagem? Alguns propõem um olhar antropológico sobre sociedades hortícolas como uma possível ligação entre permacultura e vida selvagem. Jason Godesky e Toby Hemenway tentam definir horticultura:

“Como mencionei, [Yehudi] Cohen [em Man and Adaptation] localiza uma outra forma de cultura entre a caça-coleta e a agricultura. Estes são os horticultores, que utilizam métodos simples de cultivar plantas e animais úteis. Horticultura, nesse sentido, é difícil de definir com precisão, porque a maioria das sociedades de caça-coleta tendem a plantar em algum grau, a maioria dos horticultores também coletam alimentos selvagens e, em algum ponto entre um galho para cavar o solo e o arado, um povo deve passar a ser reconhecido como um povo agrícola. Muitos antropólogos concordam que a horticultura geralmente envolve um período de pousio, enquanto a agricultura supera esta necessidade através da rotação de culturas, fertilizantes externos e/ou outras técnicas. A agricultura também tem uma escala maior. Simplificando, horticultores são mais jardineiros do que agricultores.”

Para enfatizar a diferença aqui, a menção de coisas como fertilizantes é importante porque a intensidade e escala da agricultura baseia-se em fontes externas de nutrientes, e até mesmo de energia. Isto é semelhante à dependência de uma cidade por recursos externos para se manter. A permacultura em grande escala requer grandes espaços selvagens para a extração de recursos (isto é, a mineração – petróleo, etc). Mas, claro, a expansão das cidades faz com que os espaços selvagens sejam contraídos, como é exemplificado pela agricultura e, especialmente, pelo industrialismo.

Tanto a horticultura quanto a permacultura contem elementos de jardinagem. Ambos têm esta medida de escala e encorajam a diversidade (em oposição ao monocultivo da agricultura). Há um continuum entre a permacultura e o forrageamento[13]. Por exemplo, a zona mais selvagem da permacultura, a zona 5, permite a caça e a coleta. E até mesmo alguns dos locais que eram reconhecidos como áreas selvagens onde ocorria a coleta de alimentos por parte de sociedades hortícolas são hoje percebidos como espaços transformados para se tornarem sua própria versão da agrofloresta permacultural. Se, então, o objetivo é a natureza selvagem, e não simplesmente a horta, a permacultura é um passo na direção certa. Embora, para ser honesto, os permaculturalistas que conheci sempre pareciam ver a floresta como um espaço para as árvores – eles viam apenas uma horta.

A permacultura permite, ecologicamente, múltiplas funções, mas Hemenway também alega que ela não pode executar todas essas funções, daí a necessidade de grandes espaços selvagens:

“Você não pode simplesmente transformar o mundo inteiro em uma horta. Existem importantes funções do ecossistema que serão obstaculizadas se tivermos ajardinado completamente todo o planeta. Nós não sabemos o suficiente sobre as funções do ecossistema para executar tudo por nós mesmos. Temos que deixar uma grande parte dele ficar selvagem de modo em que uma grande parte do não muito bem conhecido e não muito bem compreendido ecossistema e suas funções não passíveis de manejo possam prosseguir.”
Sendo assim, novamente, o sucesso da permacultura, bem como o da horticultura, depende da existência de espaços selvagens para a manutenção das funções do ecossistema. E aqui, na presença da natureza selvagem, é que a questão da pegada de carbono e da capacidade de suporte realmente chocam. A compreensão padrão da pegada de carbono de um indivíduo refere-se à quantidade de terra, ou quantos planetas Terra (!) seriam necessários para as suas necessidades. Isso geralmente se refere ao uso humano da terra – a agricultura. Mas se o mundo inteiro fosse uma fazenda, ou uma horta, então onde estariam os animais? Não, não vacas ou galinhas, mas os animais selvagens. Onde estariam os recursos? A capacidade de suporte refere-se a todos os seres vivos (humanos ou não) numa determinada biorregião, por isso há um problema óbvio com o antropocentrismo que até certo ponto está dentro da permacultura também. Assim, cada parte desta terra não é simplesmente uma unidade de produção, como alguns podem perceber com sua precisão na medição da vantagem produtiva do cultivo de grãos em um pedaço de terra contra a usá-la para criar gado. O truque, novamente, é o antropocentrismo. Ambas as escolhas agrícolas não permitem a sobrevivência de animais selvagens. Isso traz à tona a questão do biocentrismo, a ideia de que este planeta que habitamos não existe unicamente para o nosso uso – que temos que compartilhá-lo.

Jason Godesky também fala sobre as origens da ligação entre a permacultura e a horticultura:

“É certamente instrutivo verificar o fato de que muitas das técnicas permaculturais favoritas – melhoria de margem, consórcio de culturas, cooperativas e até mesmo muitas das técnicas de Fukuoka[14], como as seedballs [15] – encontram-se entre as culturas hortícolas em todo o mundo. Existe alguma coisa que pode distinguir a permacultura da horticultura? Até o momento, não fui capaz de encontrar qualquer coisa capaz de realizar essa distinção, o que me leva à conclusão de que a permacultura está em grande parte re-inventando a roda horticultora.”

Portanto, o caso não é que a permacultura e a horticultura tenham algumas semelhanças acidentais, mas que a permacultura é diretamente influenciada pela horticultura. Isso acontece de forma semelhante à maneira com que o anarco-primitivismo é influenciado por sociedades de caçadores-coletores. Isso pode ser visto como um caminho para aqueles (por exemplo, os europeus) cujas culturas e modos de vida tradicionais ligados à terra foram destruídos, dando crédito àqueles cujos modos de vida existiram no passado ou ainda existem hoje. Sem dúvida, técnicas de horticultura foram integradas à permacultura, como provado por “permaculturalistas” que já estavam fazendo isso ainda antes de ter sido “inventado”. O conhecimento redescoberto de técnicas como as seedballs foi também integrado. Literalmente, é como um processo de reaprendizagem do que estava dando certo, do que funcionou. Mas este processo, é claro, é proveniente de nossa situação atual, dependente da agricultura industrial. O lugar de onde viemos é muito contaminado, e não simplesmente por nossas técnicas que exigem muitos recursos (por exemplo, materiais dependentes da mineração), mas pela globalização e colonização. Isto inclui plantas e animais, é claro, embora eu não seja, de forma alguma, dogmática contra espécies não-nativas (o que inclui os seres humanos!). Mas o que eu também estou me referindo é à ideologia.

Pela ideologia, não me refiro a alguma ideologia vaga anti-tudo. Todo mundo acredita em algo, ou, pelo menos, usa certas palavras como uma forma de transmitir uma aproximação das ideias, embora, naturalmente, essas palavras nunca terão qualquer significado autêntico por causa da linguagem simbólica. Nós nos inspiramos por muitas coisas, e nos identificamos de várias maneiras, mas o ponto é adaptar isso ao seu próprio contexto. A ideologia homogeneíza. A agricultura é ideológica. E sua capacidade de aplicar-se universalmente a todo e qualquer contexto é colonização. Além disso, a predicação da agricultura sobre os recursos externos, por causa do esgotamento que ela cria em seu próprio contexto, exige expansão. Isto é a civilização.

 

O Problema da Ideologia: Eurocentrismo, Globalização e Autonomia

“A agricultura em si deve ser superada, enquanto uma forma de domesticação, e isso porque remove mais matéria orgânica do solo do que coloca de volta. Permacultura é uma técnica que parece tentar uma agricultura que se desenvolve ou se reproduz e, portanto, tende a se aproximar da natureza e se afastar da domesticação. É um exemplo de formas provisórias de sobrevivência promissoras enquanto nos movimentamos para longe da civilização”. – John Zerzan

Onde isso nos leva agora? Na verdade, a permacultura é um continuum da horticultura. Talvez, então, isso faça da permacultura um processo transitório alinhado a uma crítica anti-civilização, e talvez até ao anarco-primitivismo. No entanto, como em tudo sob o capitalismo, e sob a civilização, ela tem mecanismos insidiosos que ajudam a se perpetuar e se reproduzir. E através da globalização e da colonização, a ideologia do eurocentrismo se espalhou. John E. Drabinski postula o seguinte:

“Eurocentrismo é um componente chave do colonialismo não apenas como uma relação política e econômica, mas também como um projeto cultural: tomando a si mesma como sua medida para tudo, a Europa pode fazer o seu trabalho violento por todo o mundo sem nunca ser questionada pelas vítimas. Além disso, e duplicando a violência, usando a si mesma como medida para apoiar a relação missionária como força civilizadora que figurou como algo central para a dominação global após a conquista e escravização. A conversão para línguas e valores europeus (em sentido lato) torna-se equivalente a instalar a civilização onde anteriormente ela não existia”.

E o zine Deserto relaciona isso ao anarquismo:

“Não é surpreendente que isso esteja acontecendo como parte da globalização e do crescimento das cidades, dado que as sementes do movimento social Anarquismo são em grande parte dispersadas ao redor do planeta presas aos sapatos do capitalismo e que, muitas vezes, crescem melhor, assim como as ervas daninhas, em terrenos difíceis.”

O mesmo, é claro, poderia ser dito sobre o anarco-primitivismo, o Marxismo autonomista, o anarquismo insurrecionalista, bem como muitos outros ismos ocidentais, bem como a todos aqueles utilizados pelas políticas de identidade. Você pode ver isso nas plantas em hortas de permacultura – dietas importadas de outros lugares e consolidadas através de genocídio. Tenho inúmeras discordâncias para com os meus colegas permaculturalistas a respeito da romantização de plantas e animais europeus. Você pode perceber isso nas ideias que são normalizadas nas nossas sociedades, no microcosmo, em nossas comunidades (ou na ausência delas). O ponto não é impedir o compartilhamento de ideias (e nem criar uma falsa dicotomia entre “puro” e “não-puro”), ou não permitir a crítica, o ponto é simplesmente reconhecer a autonomia. A imposição de ideias e a ideia de superioridade que vem junto com elas partindo de um lugar de poder (ou seja, da supremacia branca/eurocêntrica), é a própria antítese disso. Em Green Anarchy[16], Aragorn![17] fala de forma similar sobre Autodeterminação e Descentralização Radical. O ponto aqui é que as pessoas, os anarquistas, por exemplo, podem adotar uma política que gere uma singularidade. Este é o momento onde a solidariedade morre, quando você não se envolve com pessoas partindo de fora da sua “compreensão da realidade”, mas sim esperando que a “realidade entre em conformidade com o seu entendimento sobre ela.” Além disso, Aragorn! apresenta algumas ideias interessantes sobre o que ele acredita que poderia ser um Anarquismo Indígena:

“…Um anarquismo do lugar em que vivemos. Isto parece impossível em um mundo que tomou para si a tarefa de nos colocar em lugar nenhum. Um mundo que nos coloca em lugar nenhum universalmente. Mesmo o lugar onde nós nascemos, vivemos e morremos não é a nossa casa. Um anarquismo do lugar em que vivemos poderia buscar como viver em uma área para toda a sua vida. Ele poderia se basear em aprender a viver tanto em áreas que são fortemente arborizadas próximas de corpos d’água capazes de sustentar a vida, quanto em locais secos. Poderia viabilizar a viajem através dessas áreas. Possibilitaria viagens anuais ditadas pelas condições ou pelo desejo das pessoas envolvidas. Ele poderia ser de muitas formas exteriormente, mas seria ditado pela escolha e pela experiência subjetiva das pessoas que vivem no lugar, e não pela exigência de prioridades econômicas ou políticas. A localização é a diferenciação que é esmagada pelo concreto da urbanização e pelo pilão da cultura de massa para produzir a pasta da alienação moderna. Finalmente, um anarquismo indígena nos coloca como uma parte irremovível de uma extensa família. Esta é uma extensão da ideia de que tudo está vivo e de que, portanto, estamos relacionados a tudo no sentido em que também estamos vivos. É também uma declaração com uma clara prioridade. A conexão entre os seres vivos, o que nós abreviaríamos chamando de família, é a maneira com que nós nos entendemos no mundo. Somos parte de uma família e conhecemos a nós mesmos através dela. Deixando de lado a linguagem secular por um momento, é impossível compreender a si mesmo ou um ao outro fora do espírito. Este é o mistério que deve permanecer fora da linguagem: que todos nós compartilhamos e que partilhar é viver.”

Eu tomo inspiração de muitas coisas, como a permacultura e o anarco-primitivismo, entre outros. Eu não os vejo como roteiros para a nossa libertação (essa não é necessariamente a forma como eles pretendem ser tomados, embora isso não impeça que algumas pessoas os percebam dessa forma). A forma como eu vejo incentiva estratégias adaptativas específicas à localização de onde partimos para os futuros possíveis à frente. Eu também vejo-os como ferramentas para descobrirmos a libertação em nós mesmos, em nossos amigos, família, nas comunidades e no ambiente onde vivemos. Mas realmente não importa se você usa essas palavras ou não. Para mim, coisas como permacultura e anarco-primitivismo estão tentando, em algum grau, reinventar a roda. No entanto, eles são úteis para nos lembrar do que já estava dando certo em nossas histórias culturais. Podemos usar palavras diferentes, palavras a partir de nossas próprias culturas, por exemplo, mas se tivéssemos que realmente procurar todas as palavras que poderiam descrever os nossos desejos, de amor, de selvageria e de libertação total, eu descobriria que não há palavras boas o suficiente: silêncio.

Se tornar selvagem e livre, novamente, é uma progressão. A doença do espetáculo, de coisas como gratificação instantânea, cria esses delírios de que as coisas são imediatamente consumíveis e nos faz seguir adiante para a próxima coisa à consumir. Na natureza, esta é uma falsidade. Quando desenvolvemos relações diretas com a nossa comida, amigos/família/comunidade, biorregião, etc, nossa percepção do tempo inevitavelmente muda. Não podemos voltar a sermos selvagens do dia para a noite. É provável que isso não seja possível mesmo em toda nossa vida. A destruição da civilização também é um projeto de longo prazo. Mas nós somos apenas um ponto na vida desta terra, e os primórdios do mundo que estamos construindo estará em nossos filhos, e nos filhos deles, e nos filhos das raposas que comem suas galinhas. E nas cinzas do mundo que deixamos para trás.

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“Qualquer biorregião pode ser libertada através de uma sucessão de eventos e estratégias com base nas condições únicas a ela.” – Seaweed

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Este será um processo tanto selvagem quanto orgânico, adaptável e local, geracional, aprendendo com vocês mesmos e uns com os outros, onde, na diminuição da homogeneização ideológica, a diversidade, humana e natural, reina. A permacultura pode ser um passo. O anarco-primitivismo também pode ser outro. Eu posso não ver claramente o caminho, mas as trilhas parecem me levar em uma direção a qual eu desejo seguir. – Tanday Lupalupa


Bibliografia:

  • Anonymous, Desert.
  • Aragorn!, Locating An Indigenous Anarchism, Green Anarchy #19
  • John E. Drabinski, Derrida, Eurocentrism, Decolonization
  • Jason Godesky, Thirty Theses
  • Toby Hemenway, How Permaculture Can Save Humanity and The Planet, but not Civilization
  • Toby Hemenway, Is Sustainable Agriculture an Oxymoron?
  • Bill Mollison & Scott Pittman, La Tierra Community CA PDC flyer
  • Seaweed, Land and Freedom: An Open Invitation
  • Hugh Warwick, Cuba’s Organic Revolution
  • Koorosh Zahrai – Eurocentrism: The basis of our society, culture, and source of our problem coexisting with nature
  • John Zerzan, Running On Emptiness

 


Autor: Tanday Lupalupa
Fonte: Uncivilizing Permaculture. In: Black Seed #1. 2014

Tradução: Ctenomys (inverno de 2016)

 


[1] Bill Mollison (Tasmânia, Austrália, 1928) é pesquisador, autor, cientista, professor, naturalista e é considerado o pai, junto com David Holmgren, da permacultura, um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana (jardins, vilas, aldeias e comunidades) ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis.

[2] Pegada ecológica é uma expressão traduzida do inglês ecological footprint e refere-se, em termos de divulgação ecológica, à quantidade de terra e água que seria necessária para sustentar as gerações atuais, tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos, gastos por uma determinada população.

[3] https://vimeo.com/134106541

[4] Greenwashing (do Inglês green, verde, a cor do movimento ambientalista, e washing, lavagem, no sentido de modificação que visa ocultar ou dissimular algo), em português, lavagem verde; é um anglicismo que indica a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações (empresas, governos, etc.) ou pessoas, mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas. Tal prática tem como objetivo criar uma imagem positiva, diante a opinião pública, acerca do grau de responsabilidade ambiental dessas organizações ou pessoas (bem como de suas atividades e seus produtos), ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados. (Wikipedia)

[5] Toby Hemenway é um autor e educador americano que tem escrito extensivamente sobre permacultura e questões ecológicas. (Wikipedia)

[6] Kevin Tucker é um escritor anarco-primitivista que vive na zona rural da Pensilvania. (Wikipedia)

[7] Movimento de reaprendizado de estilos de vida e técnicas fundamentadas em tradições indígenas e modos de vida de caça e coleta. (N.T)

[8] Richard Heinberg (nascido em 1950) é um jornalista e educador estadunidense que tem escrito extensivamente sobre energia, economia e questões ecológicas, incluindo a diminuição do petróleo. (Wikipedia)

[9] David Holmgren (nascido em 1955) é um ecologista, escritor e co-criador do conceito permacultura, em conjunto com Bill Mollison.

[10] http://transitionus.org/transition-town-movement

[11] https://www.youtube.com/watch?v=8nLKHYHmPbo

[12] Tradução livre do termo em inglês ‘Wild’. (N.T.)

[13] Forrageamento é a busca e a exploração de recursos alimentares. (Wikipédia)

[14] Masanobu Fukuoka (2 de fevereiro de 1913 – 16 de agosto de 2008) foi um agricultor e microbiólogo japonês, autor das obras A Revolução de uma folha de Palha e A Senda Natural do Cultivo, onde apresenta suas propostas para o plantio direto assim como uma forma de agricultura que é conhecida por agricultura selvagem ou método Fukuoka.

[15] Bolas de terra onde são inseridas sementes e nutrientes de forma que possam ser jogadas em solos para que as plantas crescam naturalmente.

[16] A Green Anarchy Magazine era uma revista publicada por um coletivo localizado em Eugene, Oregon. O foco da revista era primitivismo, anarquia pós-esquerda, ambientalismo radical, lutas afro-americanas, resistência anarquista, resistência indígena, libertação da terra e dos animais, anti-capitalismo e apoio aos presos políticos.

[17] Anarchista norte americano que escreve principalmente sobre aarquismo anti-colonialista e anarco-niilismo. Blog pessoal do autor: http://aragorn.anarchyplanet.org/

REVOLUÇÃO E/OU INSURREIÇÃO – por Kevin Tucker

Kevin Tucker

Neste momento, a nossa sociedade apresenta todas as principais características necessárias para a revolução. O historiador James DeFronzo traçou os fatores comuns necessários para uma revolução “bem sucedida”[1] (embora todos os cinco quase nunca estejam presentes de uma só vez); o descontentamento das massas, o descontentamento da elite, um motivo unificador, uma crise de Estado e a permissividade do mundo[2]. Não é necessário nenhum profissional ou especialista para ver que a maior parte desses fatores já está presente aqui e agora.

Revolução é a resposta a uma mudança no padrão de quase todas as categorias da vida social dentro de um dado sistema. Tradicionalmente, esta tem ocorrido durante períodos de modernização em que o Estado é usado como uma ferramenta para alcançar o potencial que os “cidadãos” acreditam ser devido (com ou sem razão). Elas ocorrem quando a estratificação social chega ao extremo e as massas são cada vez mais marginalizadas.

O interesse aqui não é dissecar ou disputar a ideia de revolução contra o trabalho de “especialistas” e “teóricos”, mas sim olhar para os seus elementos comuns e para a nossa sociedade e questionar sobre algumas possibilidades de revolução, e se ela é mesmo desejável.

(Nota: O ponto aqui não é chegar a alguma ‘vanguarda’, ‘movimento’ ou ‘organização’, mas sim olhar para algumas portas que nossa situação atual abre e apontar para as possibilidades de resistência autônoma.)

 

Fúria Niilista

O ” descontentamento das massas” que DeFronzo aponta não é só presente, mas também define nossos tempos, embora seja ocultado sob a forma de frustração em massa ou  de uma raiva niilista. As pessoas estão chateadas, e sabem disso, mas elas não sabem de quem é a culpa. Peritos e especialistas surgem com mais teorias e “soluções” para esta ocorrência do que qualquer um de nós teria qualquer interesse em acompanhar. Esses especialistas têm geralmente evitado a questão por deixar escapar o que está bem na frente de seus olhos: este mundo que construímos para nós mesmos não nos dá razão para viver e para morrer.

Este mundo da megatecnologia e ultra-alienação tenta destruir tudo o que há de humano dentro de nós, como Arthur Evans descreve:

“Todo o sistema industrial é como uma grande noite dos mortos vivos, onde toda a população foi reduzida emocionalmente ao nível de zumbis. Ele nos deixou amortecidos para o nosso ambiente, privou-nos da arte, esterilizou nossa natureza animal, nos roubou as habilidades de sobrevivência, degradou nosso trabalho e lazer e dizimou nossas vidas sexuais. E por isso nos transformou em mortos-vivos –  mortos para a natureza, mortos uns para os outros, mortos para nós mesmos (pg. 130)”[3]

Temos sido domesticados para uma nova ordem mundial de servidão sem vida, obcecados por um futuro movido por máquinas. Todos os eventos em nossas vidas que nos dão significado foram automatizados e são deixados sob o controle das máquinas que irão nos devorar ou nos entediar até a morte.

O que estamos vendo na nossa sociedade são as muitas formas de “doença da sobrevivência” de que Raoul Vaneigem falou[4]. A raiva e miséria varre a sociedade em um alarde de felicidade e ‘deboísmo’. Em todos os lugares nesta sociedade está a grande cara de smiley do hiper-capitalismo para acalmar toda a agitação e disfunção. John Zerzan observou que a “face da dominação é muitas vezes uma face sorridente”,[5] enquanto uma onda surreal de bons modos apaga todos os fluxos diretos de raiva e desprezo.

Estamos em uma sociedade de potenciais psicopatas que estão continuamente reprimindo sua raiva. Nossa domesticação nos ensina a internalizá-la, a “engolir a seco” e seguir o fluxo. Os professores nos dizem que não há nada de bom em deixar toda essa raiva se manifestar.

Ainda assim, os jovens estão ficando inquietos. Crianças cada vez mais jovens estão tendo surtos incontrolavelmente violentos e a única solução é sedá-las. No entanto, esta “solução” resulta apenas em reações químicas mais insanas e não estamos vendo qualquer interrupção dos episódios esporádicos de homicídio juvenil. Mas esse problema se reduz a si mesmo, ou há alguma coisa errada? Parece que estamos todos sofrendo, todos nós vivemos na Disneylandia e em Columbine, ao mesmo tempo. Apontar para esta espiral descendente não é apenas listar o “pior” do que acontece, mas mostrar o quão comum isso se tornou, que está em toda parte e é tudo o que vemos.

O ” descontentamento das massas” que dispara revoluções está aqui, mas o Espetáculo aborda-o como surtos e incidentes isolados, como caso de terapia de grupo e como problemas pessoais. Nossa raiva é coletiva, mas temos sido fortemente domesticados para ignorá-la ou empurrá-la para o lado. Talvez a chave para desvendar e canalizar esse descontentamento é perceber que não estamos sozinhos na nossa miséria e que ela tem uma fonte comum. Temos tanta raiva nos queimando por dentro que ela poderia por essa merda toda abaixo ainda hoje à noite.

 

Jogos Surreais de Poder

As recentes recuperações políticas/corporativas de crises e denúncias só contribuem para a realidade surreal que tem sido construída. Quando vemos políticos poderosos e outros desgraçados se enfrentado uns aos outros temos que saber o que está acontecendo.

Quanto mais eu presto atenção em cada um desses filhos da puta mais claro fica que eles já não são mais seres humanos. A semente do poder corrompe absolutamente, até a morte, e todos esses traficantes de poder estão doentes para além de qualquer possibilidade de recuperação. Todos eles são culpados pelo que eles definem como crime, mas quando começam a brigar uns contra os outros, o que isso quer dizer?

Nos últimos anos tem havido uma quantidade crescente de inquietação entre as elites. Elas estão com sede de sangue, e o resultado disso é ainda mais interessante. Eu realmente não tenho interesse em ver qualquer um desses bastardos sair ‘por cima’, mas eu não me importo de vê-los eliminando-se uns aos outros, embora o resultado seja apenas a mudança na posse de poder. Mas isso é apenas o capitalismo jogando seu próprio jogo.

Independentemente de qualquer que seja o pano de fundo dessas reviravoltas estranhas, é óbvio que há um enorme ‘descontentamento entre a elite’. Os traficantes de poder estão agitando as coisas, e quando o berço balança demais corre o risco de tombar. Enquanto as elites jogam seus jogos de poder, o espaço para a gestação de uma revolução se abre. A questão permanece, o que você vai fazer com esse espaço que se abre?

 

Cansado de Repressão?

O fator “motivo unificador” tem sido sempre o mais complicado. A razão para isso é simples: a cidade e sua contraparte, o campo, limitam a sanidade humana e ecológica. Nós somos criados como dependentes desse sistema e, por isso, somente alguns poucos estão prontos para buscar respostas em outro lugar. Mas isso abre um problema muito mais grave: onde as pessoas estão procurando?

A meu ver, este problema tem sido a falha fatal de todas as revoluções do passado (veja a seção “Tomada ou Abolição do poder do Estado?”). O fator que gera mais divisão nesta sociedade é o mito capitalista, que diz que todos nós podemos obter um pedaço do bolo se nós nos esforçarmos mais e que isso seria algo desejável.

Estamos ignorando as implicações desta realidade de plástico e aço porque nossos olhos estão grudados no prêmio: o constante aumento do teto de riqueza. Um amigo, Aleksa, diz que isso tudo se resume a:

“Tanto quem está fudido quanto quem está nos fudendo têm 1) a mesma ideia de vida, 2) a mesma ideologia de Necessidades, 3) a mesma atitude para com todo o mundo não-humano. Ambas as classes acreditam em Progresso, com mais “desenvolvimento das forças produtivas” como a única resposta racional ao desastre causado por todo o “desenvolvimentos de forças produtivas” anteriores. Eles sonham com as mesmas mercadorias, com o mesmo paraíso.”[6]

Enquanto estivermos sendo incorporados pelo Capital (o mundo da mercadoria, trabalho e desenvolvimento), vamos ignorar o caminho para onde a civilização está nos levando: escravidão e sacrifício para algum outro ‘grande’ propósito.

Como Jacques Camatte apontou, uma revolução bem sucedida trará um novo modo de vida, não um novo modo de produção.[7] Assim, o objetivo de encontrar um “motivo unificador” teria que estar baseada no despertar da “humanidade errante” para a realidade de sua domesticação.

Parece que uma revolução séria e completa só ocorrerá quando as pessoas realizarem seus desejos e potencial dentro do campo das comunidades completas. Comunidades completas, no entanto, não podem existir tanto tempo quanto a civilização, pois são sempre assombradas por uma combinação de divisão institucionalizada do trabalho, alienação e poder sistêmico hierárquico que requer um “pool de recursos” constantemente crescente para continuar existindo. A civilização precisa expandir constantemente para continuar existindo, e seu poder reside em uma totalidade internalizada (cultura simbólica) e instituições/forças externas. Qualquer ameaça para o bem-estar de sua totalidade (rede de ilusões, moralidade, etc.), é uma ameaça para a civilização, e as ameaças são tratadas com repressão ou destruição. Assim, o objetivo não é nem totalmente mental nem totalmente material, mas um ataque em todas as frentes.

Isso não significa que as pessoas devem ser unificadas por um objetivo único ou rumo a uma sociedade única, mas sim que devem ser unificadas sob o princípio da autonomia e atendendo a sua própria autodeterminação. Esta não é uma receita para a sociedade de massas, mas é a única coisa que todos nós temos em comum: todos nós somos escravos da vontade da civilização, desde que ela existe.

Voltemos para o “descontentamento das massas” mencionado anteriormente. Talvez o “motivo unificador” seja uma canalização da raiva e da miséria que se encontra abaixo da fachada de felicidade e sucesso. Talvez uma consideração deste fator subjacente possa despertar revolucionários do sono civilizado da realidade do trabalho-consumo-morte.

 

A Crise do Estado

O que mais poderia qualificar uma “crise de Estado” do que os crescentes esforços de guerra? Esta guerra, o produto da civilização correndo no vazio (literalmente), é o resultado do abuso e destruição da Terra e das relações de toda a vida. Os poderosos estão brigando pelas últimas gotas de petróleo, ar, água e solo para comprar e vender. Estamos vendo o processo de colapso (ecológico e civil), mas desta vez em escala global. O desenvolvimento dessa situação é, possivelmente, um prenúncio do fim da civilização.

Esta situação realmente não precisa de muita elaboração. O tipo de instabilidade política e econômica que ocorre aqui e agora é uma enorme crise, e estamos propensos a ver os piores resultados dela. Não há realmente nenhum momento melhor do que o agora para atacar o sistema enquanto ele está no seu estado mais frágil.

O que eu estou interessado em apontar aqui são as possibilidades que se abrem enquanto o Estado está preocupado com ele mesmo. Todas as grandes revoluções ocorreram quando crises de Estado enfraqueceram a estrutura do poder. É nestes momentos em que o controle dos Estados é fortemente concentrado em apenas um problema. Enquanto os militares estão fora em terras estrangeiras, o Estado fica apenas com a segurança de que a totalidade e o nacionalismo arrogante vai nos manter aqui em casa sem questionar o que está acontecendo, ou que não iremos nos levantar para lutar seriamente contra ele. A possibilidade mais simples é geralmente aquela que está justamente na frente da sua cara.

 

Permissividade Mundial ou Preocupação Global

O fator ‘permissividade’ do resto do mundo é sempre problemático, apenas em “revoluções” direitistas/estatistas (golpes) as maiores potências do mundo se dispõem a vigiá-las ou a dar a outra face para bater. Em todos os outros casos, este continua a ser um fator importante. Nenhuma outra grande potência mundial tem interesse em uma troca de mãos a menos que haja um incentivo econômico para eles (isto é, se os novos poderes que se constituirão oferecerem acordos comerciais, etc.).

É possível para uma força revolucionária ser bem sucedida sob esta ameaça. O Exército Revolucionário Cubano foi capaz de derrotar os ataques financiados pelos EUA após a revolução. Mas o planejamento é um fator importante. A Revolução Mexicana foi capaz de ter sucesso porque ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto o EUA (que tinha um interesse econômico imenso no México) estava ocupado demais para dar a atenção devida.

Estas são coisas para se levar em consideração. Temos que olhar para a situação do mundo pela ótica de como as coisas são e de como elas estão indo. O EUA está se direcionando à guerra com a Coreia do Norte e com o Iraque, seguindo a “guerra ao terrorismo”. Essas duas frentes certamente exigem o grosso das forças armadas norte-americanas, cuja implantação já está em andamento. A Coreia do Norte já ameaçou dar início a Terceira Guerra Mundial se os norte-americanos atacarem, mesmo que essa possibilidade não tenha jamais existido. Com os EUA se espalhando tanto, as coisas ficaram relativamente desprotegidas aqui. Existe a chance de preocupação global e se o EUA estiver caindo, é provável que haja muitas nações com interesse em mantê-lo em pé. Estas são todas coisas a se levar em consideração, mas, ainda que todas elas sejam possibilidades reais, por quanto tempo mais vamos ficar sentados e esperando?

Até agora, esta análise tem sido sobre revolução, mas deve-se dizer que esses mesmos princípios se aplicam igualmente para insurreições ou guerrilhas. A conexão será tratada mais profundamente nas próximas seções.

 

Tomada ou Abolição do Poder do Estado

Como um anarquista, é fácil ver por que as revoluções passadas não conseguiram produzir qualquer realidade mais desejável. Como foi mencionado anteriormente, o problema é que toda a terminologia da revolução nos séculos passados tem girado em torno do Capital. Camatte (1995) estende a definição de Capital para incluir todo o modo de produção e os seus valores. A este respeito, o capitalismo e o comunismo diferem apenas em seus métodos de busca ao Capital. Através desta visão, os seres humanos são reduzidos a Capital, ou proletarizados, sendo valorizados apenas por seu potencial como mão de obra.

As revoluções passadas foram tipicamente realizadas dentro deste reino do Capital. Estas revoluções têm sido os antecessores da modernização e, portanto, têm apenas visado transformar as pessoas em seus próprios carrascos. Camatte continua, “a Libertação começa com a recusa em perceber a si mesmo nos termos das categorias do capital, ou seja, como proletário, como membro da nova classe média, capitalista, etc.”[8]

Para continuar o processo que Camatte deu início, é necessário seguir o seu entendimento do Capital como o domesticador até a própria fonte da domesticação, a civilização. Nela percebemos que a domesticação vem de mãos dadas com a agricultura/divisão do trabalho, que é a origem da propriedade e, portanto, do Estado.[9]

A partir deste ponto, estamos em uma posição mais clara para entender as falhas de revoluções passadas. A fonte de opressão encontra-se no poder em si mesmo, não em quem o detém. De forma que para libertar-se desses meios é necessário destruir o poder em todos os aspectos. Então revolução implicaria a abolição do poder, enquanto que no passado ela só significou a sua tomada e redistribuição.

Este ponto é vital para a compreensão das relações. Eu acredito que os seres humanos são inerentemente seres “bons”, mas o poder corrompe absolutamente. Não importa as intenções de quem está perseguindo o poder, uma vez que eles o têm, a sua vontade é contestada pela sua capacidade. É apenas uma questão de tempo antes que o poder tome conta da Terra e todo ser vivo se torne um mero peão para os seus interesses.

As revoluções passadas foram realizadas por meio de uma massa possuída pela propaganda da coletividade, do nacionalismo e assim por diante. Esta propaganda se torna palavras ocas uma vez que o poder tenha sido alcançado. A fé das pessoas é colocada inteiramente em alguma ideologia obscura ou na linha de um partido. O potencial para a libertação não reside na capacidade de manipular as massas em algum sacrifício para o “bem comum”, mas na realização de um modo de vida que permite que toda a vida alcance a autonomia e a auto-determinação.

Isso nos leva a questionar o “movimento” e os interesses da revolução.

 

Movimento de Massas ou Resistência Autônoma

O discurso da revolução geralmente deduz que ela é de grande interesse daqueles dentro de um dado sistema. A revolução é amplamente reconhecida como um levante fundamentado pelas massas com um objetivo comum. Normalmente, este “objetivo comum” é organizado ao longo das linhas do menor denominador comum do que as pessoas possam desejar. O resultado disso é uma massa maior de pessoas, mas o que você tem é todas essas pessoas seguindo a “linha do partido” ou uma ideologia, o que elas desejam está fora de questão. Quando você tem uma ideologia, você tem algo que usa uma agenda e um plano específico para a ação a fim de tomar o poder, o resultado destes movimentos tem sido sempre o fracasso. Isto se aplica à Revolução Mexicana, em que as pessoas seriam todas encaixotadas sob a mesma bandeira do “nacionalismo” e que, ao alcançar o poder, só serviria às elites revolucionárias, criando uma porta giratória de poder e um consequente uso da força militar para esmagar aqueles que ajudaram a trazer quem está no poder para essa posição. Este foi o caso da Revolução Espanhola também.

Meu interesse não está na formação de algum tipo de ideologia de massas ou alguma mudança na consciência das massas. Pelo que tenho visto de revoltas passadas, a negação do indivíduo em nome da “vontade do povo” tem apenas criado revolucionários sem alma. O sucesso da civilização tem sido alcançado por meio da subjugação dos povos, uma revolta bem sucedida só virá através da libertação completa. O meu entendimento de revoluções passadas me leva a crer que elas se tratam de sacrifícios, e este é um aspecto desfavorável que tenho deixado de lado até agora. Enquanto analisamos o potencial para a revolução, devemos ter em mente se ela é desejável ou não. A fim de resolver isso, é importante dar um passo para trás e olhar para com o que estamos lidando.

A revolução em que eu estou interessado não usa propaganda para criar um exército de zumbis daqueles que estão se sacrificando para que possam perpetuar a sua própria escravidão. O meu interesse está em criar uma situação onde as pessoas possam realizar seu pleno potencial, como falei anteriormente. Eu estou empurrando meus interesses sobre as pessoas? Talvez se eu estivesse construindo um movimento, mas isso está longe do que eu estou interessado. A força revolucionária só será viável se ela for composta por indivíduos que tenham se envolvido sob seus próprios termos.

Eu não estou interessado em qualquer tipo de ‘consciência de massa’ ou, na verdade, qualquer coisa em massa, “massa” é um dos problemas subjacentes que vêm com a civilização. Eu estou mais interessado na resistência autônoma. A primazia neste ensaio sobre as pré-condições para a revolução é apenas produzir uma estimativa da situação que enfrentamos agora. Francamente, eu sinto que nós estamos vendo os últimos dias da civilização e que o colapso é inevitável. No entanto, a maneira com que esta besta irá cair permanece no ar. Ela definitivamente vai cair, mas se será por uma força que vem de dentro para fora ou de fora para dentro, ou ambos, cabe a nós determinar.

Os dias da realidade concreta em que existimos estão contados. Se deslocar dela para outro lugar será o ato de seres que procuram uma verdadeira conexão com a Terra e uns com os outros; caso contrário, ela nunca será completamente destruída. É vital percebermos que a revolução não é um ato, mas sim um processo. Embora seja essencialmente um levante em massa contra uma ordem existente, historicamente permanece como a reconstrução de relações. Estou interessado em me focar na compreensão ecológica e evolutiva do animal humano enquanto uma imagem do que estas relações se parecem. E, além disso, estou interessado em tentar realizar esse deslocamento sem restrições ideológicas. Eu não estou aqui para dar respostas, apenas para abrir questões e possibilidades.

 

O Papel da Insurreição

Neste ponto, torna-se vital falar de insurreição e combate de guerrilha. A insurreição é a ação de pessoas que simplesmente se recusam a se sentar e esperar por revoluções. No entanto, como nas revoluções, a insurreição tem seu histórico de uso por aqueles que preferem controlar a sua própria domesticação e não por aqueles que desejam autonomia. Independentemente disso, é importante se concentrar em seu uso com a finalidade de libertação.

A insurreição continua a ser uma tática para aqueles que procuram uma válvula de escape para sua raiva contra a grande força de domesticação. Atos de insurreição são poderosos, não só por sua contribuição para a luta revolucionária, mas também por sua recusa à consciência civilizada, uma recusa à felicidade e ao ‘deboísmo’ sob os termos do Capital.

A insurreição torna-se ainda mais vital quando canalizada para além do reino do Capital e quando transcende a totalidade das relações civilizadas. A insurreição é um dos mais poderosos atos de um movimento revolucionário, uma vez que é uma “propaganda pelo ato”. Não é somente um indivíduo ou um grupo de pessoas quebrando a totalidade das restrições civilizadas, mas também se trata de algo que capacita outros a perceberem que esta é uma possibilidade, que um outro mundo aguarda, se optarmos por construí-lo.

A história está cheia de exemplos de poder insurrecional. O sucesso de uma revolta vai depender da capacidade de uma insurreição de mostrar as fraquezas do Estado. Este foi o caso do Exército Insurrecionário 26 de Julho de Castro. Apesar de seus atos individuais estarem longe de ser bem sucedidos, sua resistência contínua era uma inspiração. Após o fracasso em ataques diretos contra partes do poder do Estado, eles permaneceram escondidos na periferia de Cuba recebendo apoio crescente. A Revolução Cubana teve menos a ver com uma luta constante realizada pelo Exército 26 de Julho do que com o levante concomitante daqueles dentro das garras do poder do Estado após o potencial de revolta ter se tornado claro.

Mais uma vez, este é um exemplo de tomada do poder, mas eles tinham tudo em suas mãos caso tivessem decidido mudar a direção e se dirigir contra o poder. O fracasso da revolta cubana estava em sua dependência de estruturas de poder existentes, acreditando que a única maneira de continuar existindo era se manter atada ao vício mundial em açúcar (a sua principal colheita lucrativa) e sob a bandeira do nacionalismo o povo continuou sacrificando suas vidas para ‘sua nação’. O potencial para a abolição do poder ainda está lá, ele só precisa ser atualizado.

No momento, há poucos sinais de uma consciência revolucionária contra toda a civilização, embora, como mostrado acima, há todas as razões para se acreditar que isso seria possível agora. Quase todas as revoluções do passado tornaram-se possíveis através da existência de exércitos/forças guerrilheiras/insurgentes. Uma vez que o trabalho de base tenha sido estabelecido, torna-se mais possível que os outros vejam que existem outras opções além do futuro estabelecido pelos domesticadores.

É sempre arriscado se envolver em atos insurrecionários de revolta, mas esta é uma questão de com quanta seriedade lidamos com a questão? Se nós estamos lidando com seriedade no que diz respeito à abolição desta realidade, então o que está nos impedindo de realizar isso? Nós nunca vamos ter certeza se a revolução será o que botará tudo abaixo, ou se a insurreição necessariamente estimula os indivíduos a questionarem a sua domesticação, mas eu sei que meus interesses estão em um ser humano livre e pleno. Mesmo se tudo mais falhar, a insurreição é, pelo menos, tomar medidas nesse sentido. A minha pergunta é: se o colapso ou a morte é inevitável, qual é o problema em, pelo menos, empreender esforços para tentar pôr essa merda abaixo, em sua totalidade? Eu concordo fortemente com o reconhecimento de Freddy Perlman que afirma que “tudo pode acontecer”, mas cabe a nós garantir que tudo seja tentado.

A Revolução é Possível e/ou Preferível?

Apesar de eu só poder colocar minha fé nessa ideia, eu vejo que a revolução é inteiramente possível no momento. Eu olho em volta e vejo gerações sendo criadas em uma vida inteiramente sintética, e acredito que a estimativa do Lakota Sioux Medicine Man Lame Deer de que eles eventualmente elas desejariam viver mais perto da natureza pode ser verdadeira. Não há mais nada para ninguém aqui, tudo foi automatizado, criminalizado, banalizado, espetacularizado e limitado antes mesmo de ter a chance de existir. Os jovens de hoje não têm nada pelo que viver ou morrer, apenas seguem a trilha de novas tecnologias extravagantes enquanto o mundo sofre. A dor desses jovens cresce na mesma medida em que é sufocada por drogas, álcool, televisão e qualquer outro vício que possa ser comprado e vendido.

Em meio a essas gerações que estão apenas desperdiçando a si mesmas, surge aquela vontade de viver, embora ela continue escondida sob qualquer coisa que apareça em seu caminho. As pessoas estão morrendo e matando a fim de sentirem alguma coisa, e elas se agarram a este mundo porque ele é tudo o que conhecem. O sucesso da domesticação vem da sua capacidade de manter todo mundo realizando um auto-sacrifício para o bem dos outros, se isso puder ser quebrado, surgirão gerações de revolucionários.

A situação terrível com a qual somos confrontados faz com que a revolução seja ainda mais importante. É assustador pensar no que algumas pessoas seriam capazes de fazer se elas tivessem o poder em suas próprias mãos, mas a revolução está prestes a acontecer. Isso faz com que a ideia de uma ação imediata pareça ainda mais real, mesmo apesar do fato de que se ela não acabar com a capacidade da civilização de continuar o seu tipo de dominação, haverá somente a manutenção dos mesmos velhos problemas.

Em minhas interações com as pessoas percebo que, não importa quanta merda tenham que enfrentar, todas elas sabem de alguma forma que a civilização está caindo. Não há realmente nenhum segredo sobre isso, e os tempos parecem continuar piorando. O problema aqui é que as pessoas são tão completamente desempoderadas que elas não veem razão para tentar resistir. Como mencionado na seção anterior, uma forte onda insurrecional poderia servir como uma espécie de catalisador para redirecionar toda essa raiva e desejo pela vida que se encontra logo abaixo da superfície. A revolução não entrega a vida para as pessoas, mas sim, mostra-lhes as possibilidades.

 

A Infraestrutura Tecnológica é um Alvo

As possibilidades de vida livre e selvagem residem nas fraquezas do estado.[10] Eu reconheço que a doença do Capital tem infectado tantas mentes que as pessoas preferem morrer com ela do que desistir de seus confortos materiais. Esta é a natureza da totalidade do pensamento civilizado. Muitos vão se agarrar fortemente a este sistema até que eles reconheçam que outras formas de vida são possíveis, o impulso revolucionário/insurrecionário deve estar direcionado para esse potencial.

A questão principal é se isso vai fazer uso de uma revolução consciente ou de atos precisos de pequenos grupos e indivíduos para pôr este império abaixo. A maior parte dos EUA não estará disposta a questionar a sua domesticação até que a coisa fique tão ruim a ponto deles não terem qualquer outra opção. Meu interesse é tentar construir uma ponte entre os problemas que cada um de nós enfrenta e mostrar a origem coletiva desses problemas na esperança de que as pessoas acordem para a realidade que estamos sendo forçados a encarar.

Considerando a probabilidade do colapso e de como esta besta irá cair, a chance dela ser derrubada de dentro para fora parece ser a melhor das possibilidades. Devido a isso, uma corrente insurrecionaria poderia estar trabalhando para apressar este colapso. A maneira mais óbvia seria atacando a infraestrutura tecnológica. A civilização tem um intenso nível de dependência em eletricidade e “recursos”, o que se torna a sua maior fraqueza.

A fraqueza vem do fato de que esta civilização tecnológica-industrial se alicerça sobre recursos limitados, limitados não apenas no que diz respeito ao estoque futuro, mas ao presente. O carvão que abastece a indústria é levado para todos os grandes centros por trens e o petróleo é transportado por gasodutos e caminhões. Há uma quantidade limitada de combustível à disposição em todos os principais centros de energia. A fraqueza aqui reside no fato de que o sistema é dependente de energia elétrica não só para exercer o seu poder sobre as pessoas, mas também para se sustentar. O poder que alimenta impérios vem de usinas, e se elas não podem produzir, o império não pode usá-lo.

É possível que, se a energia fosse cortada por pelo menos duas semanas nesta nação, a civilização viria abaixo por aqui. A civilização não tem a capacidade de se levantar de volta rapidamente sem usar o mesmo nível de tecnologia que ela usa atualmente. Por exemplo, uma única casa de armazenamento de energia poderia ser reativada de forma rápida já que há outras máquinas lá para tentar corrigir o problema. Mas se a energia estiver totalmente inacessível em todas as grandes cidades e não houver outras opções reais, quais são as chances dela ser reativada.

Isso faz com que a rede de energia seja um alvo para os revolucionários. Há muito que se reconheceu que greves gerais param completamente uma nação, porque, se os produtos, e, portanto, o capital, não fluem a energia vital da nação é cortada. Este é um precursor direto aos ataques contra a rede de distribuição, porque se trata de pessoas que reconhecem que, como produtores, o poder estatal requer a sua complacência. As próprias pessoas são a mega-máquina, mesmo apesar da maior parte do trabalho ter sido automatizado hoje em dia. Afinal, todas as máquinas trabalham com algum grau de interação humana e ainda precisam de alguns trabalhadores para mantê-las/supervisioná-las. O poder ainda está em nossas mãos a este respeito.

No entanto, o poder revolucionário atual deve transcender a compreensão puramente proletária. O sistema de tecnologia tem crescido imensamente e continua a ser a chave para o poder do Estado. Ao longo das últimas décadas, correntes revolucionárias latino-americanos têm utilizado os ataques à rede de serviços como um método de insurreição. Embora seu objetivo não pareça ser a eliminação total da infraestrutura tecnológica, esses ataques têm percebido a sua importância. Por exemplo, a fim de atingir com êxito cidades-alvos, os insurgentes atacariam os geradores relativamente isolados, acabando com eletricidade por tempo o suficiente para poderem atacar as instituições, roubar bancos, etc. O que é importante aqui é entender que cortando a energia desabilitamos as funções do Estado, abrindo espaço para o potencial revolucionário.

Se houver um esforço grande o suficiente, ataques contínuos decapitariam o sistema tecnológico. Eletricidade é a alma da civilização moderna, e um olhar histórico para estas ações parece mostrar que elas poderiam ter continuado os seus esforços e causado danos mais permanentes.

Para focar nosso olhar em lugares mais próximos, John Zerzan oferece uma análise da onda revolucionária que se despertou através do apagão em Nova Iorque em 1977.[11] Ele aponta para os saques e as festas de rua que transcendiam linhas de raça e sexo enquanto aqueles que não tinham nada mais a perder se libertavam durante um período de anonimato. As levas de pessoas nas ruas, que viviam um momento “não-mediado/não-ideologizado” fizeram com que todos os porcos ficassem cagando de medo. Imagine um apagão global.

E o que aconteceria um tempo após isso? As pessoas só podem viver à base de alimentos enlatados pelo tempo necessário para que elas sejam forçadas a tentar lidar com a situação ou para que afundem com o navio. Haverá outras questões também, e as pessoas serão forçadas a questionar a sua dependência do sistema tecnológico quando carros e ônibus estiverem inoperantes. Em um breve período sem eletricidade é possível aproveitar essa oportunidade para despertar as pessoas para a loucura completa da velocidade mecânica da sociedade tecnológica. A impotência literal do Estado abre todos os tipos de possibilidades para a ação revolucionária. Quanto mais o Estado concentra seus esforços em restabelecer sua ordem tecnocrática, mais ele fica vulnerável à sabotagem em todos os níveis.

Esta situação é necessariamente preferível? Em comparação com as outras possibilidades que enfrentamos (como a guerra nuclear) e a inevitabilidade do colapso, quem não gostaria de fazer disso uma experiência positiva? É importante lembrar que não estamos tão longe de uma vida sem tecnologia e ainda temos a sorte de existirem memórias vivas dos “velhos modos de vida”. Os confortos materiais ocos da sobrevivência espetacularizada não serão nada quando a experiência real e a vida forem experimentadas. Se as chances forem usadas para empoderar as pessoas, quem sabe o que poderia acontecer. Devemos sempre lembrar que as coisas pioram antes de melhorar, mas temos o potencial dentro de nós para fazer algo a respeito disso.

Este ensaio tratou de perguntas nas quais eu tenho pensado já a algum tempo. Uma compreensão de nossa situação é vital para avançarmos, e também para muitas pessoas que estão em pé atrás das linhas laterais esperando por algo que possam fazer. Talvez o que estamos esperando surgirá quando começarmos a fazê-lo surgir, e que melhor momento do que agora?

Mais uma vez, isso está longe de ser um tipo de observação final sobre o assunto, mas é uma abertura para onde as coisas podem estar indo. Ideias filosóficas ou teóricas sobre quando seria o momento perfeito para alguma coisa acontecer não estão fazendo as coisas acontecerem. “Tudo pode acontecer”, então o que você está esperando?

 

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[1] É importante notar que DeFronzo está se referindo a uma visão mais “tradicional” da revolução, como a tomada do poder do Estado. Considerando que o interesse aqui reside na abolição de todo o poder, as mesmas condições prévias parece manterem-se.

[2] DeFronzo, James, Revolutions and Revolutionary Movements, Boulder: Westview, 1996.

[3] Evans, Arthur, Witchcraft and the Gay Counterculture, Boston: Fag Rag, 1978.

[4] Vaneigem, Raoul, Revolution of Everyday Life, London: Rebel, 2001.

[5] Zerzan, John, Future Primitive, Brooklyn: Autonomedia, 1994. Page 136.

[6] Aleksa, personal correspondence, Jan. 2003.

[7] Camatte, Jacques, This World We Must Leave, Brooklyn: Autonomedia, 1995.

[8] ibid, pg. 68.

[9] Esta é essencialmente a linha de fundo da crítica anarco-primitivista à civilização. Para mais informações sobre essa crítica nesta edição leia o trabalho de John Zerzan e em seu ensaio “origins“.

[10] É importante mencionar que o foco deste trabalho são o poder nos Estados Unidos e no Ocidente, isso porque: 1) é onde eu moro, 2) Eu sinto que o EUA é um ponto fundamental para o poder global. Eu sinto fortemente que podemos colapsar o EUA, isso estimularia a queda de outros impérios co-dependentes. O mesmo seria válido para potências europeias. Isto não significa que devemos sobre-enfatizar os revolucionários norte-americanos (que precisam de um bom chute na bunda) ou revoluções em andamento no resto do mundo, este é apenas um ponto contextual.

[11] ‘New York, New York’ in Elements of Refusal, Columbia:CAL, 1999.


Autor: Kevin Tucker

Fonte: Revolution And/Or Insurrection: Some Thoughts on Tearing this Muthafucka Down. Anarchist Library.

Tradução: Ctenomys (junho de 2016)

 

ATAQUE OCULTO ÀS INSTITUIÇÕES – por Hakim Bey

Os níveis da organização imediatista são:

I – O encontro. Pode ser qualquer coisa desde uma festa a um distúrbio. Pode ser planejado ou não-planejado mas depende da espontaneidade para “realmente acontecer”. Exemplos: encontro anarquista, celebração neopagã, Rave, revolta urbana breve ou demonstração espontânea. Os melhores encontros, é claro, tornam-se TAZ’s, tais como algumas das Be-Ins¹ da década 1960, os primeiros encontros da tribo Rainbow² ou a revolta deStonewall³.

II – O potlach⁴ horizontal. Uma única reunião de um grupo de amigos para a troca de presentes. Uma orgia planejada pode entrar nesta categoria, sendo o presente o prazer sexual – ou um banquete, sendo o presente a comida.

III – A bee. Como uma quilting bee⁵, a bee imediatista consiste em um grupo de amigos encontrando-se regularmente para colaborar em um projeto específico. A bee pode servir como um comitê de organização para um encontro ou um potlach, ou como uma colaboração criativa, um grupo de afinidade para ação direta, etc. A bee é como uma série passional no sistema de Fourier: um grupo unido por uma paixão compartilhada que só pode ser realizada pelo grupo.

IV – Quando a bee adquire um grupo de membros mais ou menos permanente e um propósito maior do que somente um único projeto – um projeto em andamento, vamos dizer -, ela pode tanto se tornar um “clube” como uma gesellschaft⁶ organizada não-hierarquicamente para atividades abertas, ou, ainda, como uma tong⁷ organizada de forma não hierarquica mas clandestina para atividades secretas. A tong é de interesse mais imediato para nós agora por questões estratégicas, e também porque o clube opera sob o risco de “instituicionalização” e, portanto, (nos termos de Ivan Illich⁸) em “contra-produtividade paradoxal”. (Quer dizer, como a instituição aproxima-se da rigidez e do monopólio, ela começa a ter o efeito oposto ao seu propósito original. Sociedades fundadas para a “liberdade” tornam-se autoritárias, etc.). A tong tradicional também está sujeita a esta trajetória, mas a tong Imediatista é construida, por assim dizer, para se autodestruir quando não for mais capaz de servir ao seu propósito.

V – A TAZ pode surgir de uma ou de todas as formas mencionadas acima de maneira individual, em seqüência ou em um padrão complexo. Ainda que eu tenha dito que a TAZ pode ser breve como um noite ou longa como alguns anos, esta é apenas uma regra rígida, e provavelmente a maioria dos exemplos se situe entre os dois citados. Uma TAZ é maior do que qualquer uma das quatro formas. Entretanto, enquanto dura, ela preenche o horizonte de atenção de todos os seus participantes; ela se torna (apesar de breve) uma sociedade completa.

VI – Enfim, na sublevação, a TAZ quebra suas próprias fronteiras e flui (ou deseja fluir) através do “mundo todo”, o inteiro tempo/espaço imediato disponível. Enquanto o levante dura e não se vê derrotado ou transformado em “Revolução” (que aspira à permanência), a Inssurreição mantém a consciência da maioria dos seus entusiastas, espontaneamente ligados àquele outro modo elusivo de intensidade, clareza, atenção, realização individual e do grupo, e, para ser franco, àquela felicidade tão característica de grandes revoltas sociais tais como a Comuna ou Maio de 68⁹. De um ponto de vista existencial (e aqui evocamos Stirner¹⁰, Nietzsche¹¹ e Camus¹²), essa felicidade é, de fato, o propósito da sublevação.

Os objetivos da organização Imediatista são:

I – Convivência: a reunião em uma proximidade física do grupo para o aprimoramento sinergético do prazer de seus membros.

II – Criação: a produção em colaboração, direta e não-mediada, da beleza necessária, fora das estruturas de hipermediação¹³, alienação e produtificação. Já estamos bastante cansados de insistir nos pequenos detalhes dos termos. Se você não sabe o que nós queremos dizer por “beleza necessária”, pode muito bem parar de ler por aqui. A “Arte” é apenas uma possível subcategoria deste mistério e não necessariamente a mais vital.

III – Destruição: Nós deveríamos ir além de Bakunin e dizer que não existe criação sem destruição. A noção de trazer alguma beleza nova para a existência implica em descartar ou explodir toda a velha fealdade. A beleza define-se em parte (mas precisamente) pela destruição da fealdade a qual não é ela mesma. Em nossa versão do mito soreliano¹⁴ da violência social, nós sugerimos que nenhum ato Imediatista é completamente autêntico e efetivo sem a criação e a destruição: toda a dialética Imediatista está implicada em qualquer “ação direta” Imediatista, tanto na criação-na-destruição, como na destruição-na-criação. Daí o “terrorismo poético”, por exemplo. Logo, o objetivo real ou o telos de todas as nossas formas organizacionais é:

IV – A construção de valores. O “pico de experiência” masloviano¹ forma valores em nível individual; a concretude existencial da bee, tong, TAZ ou sublevação permite a “reavaliação de valores” para fluir desde sua intensidade coletiva. Outra forma de colocar isto: a transformação da vida cotidiana.

A ligação entre a organização e o seu objetivo é a estratégia. Em termos simples, o que faz a organização Imediatista? Nossa tática é a de otimizar as condições para a emergência da TAZ (ou até mesmo da Inssurreição). Mas, quais são as ações específicas que podem ser levadas a cabo para a construção dessa estratégia? Sem táticas, a organização Imediatista pode muito bem se dispersar. A “ação direta” deve complementar a “causa” assim como deve, por ela mesma, manter todo o potencial para o desabrochar da causa por ela mesma. De fato, cada ato deve estar potencialmente apontado para o objetivo, como ser idêntico a ele. Nós não podemos utilizar estratégias que estejam limitadas à mediação. Cada ação deve imediatamente compreender o objetivo, pelo menos em algum aspecto, a menos que estejamos trabalhando por abstrações e, até mesmo, simulações de nosso propósito. E todas as diferentes táticas e ações deveriam, ainda, adicionar mais do que a soma de suas partes; deveriam dar vida à TAZ ou à sublevação. Assim como organizações ordinárias não podem nos fornecer as estruturas de que necessitamos, as táticas ordinárias não podem satisfazer nossa demanda por “situações” insurretas e imediatas.

A convivência é tanto uma estratégia quanto um objetivo. Nobre em si mesma, ela pode servir tanto como uma forma ou como um conteúdo para modos de organização, tais como o encontro, o potlach, o baquete. Mas a convivência em si não possui a energia de transformação que geralmente surge somente de um complexo de ações, as quais incluem o que nós chamamos de “destruição” assim como “criação”. A organização Imediatista ideal aponta para esse objetivo mais complexo, e assume a convivência como uma estrutura necessária.

Em outras palavras, encontrar-se com um grupo para planejar uma potencial TAZ para um grupo ainda maior já é um ato Imediatista que envolve convivência – como o reino dos céus, é reunido todo esforço sincero para descobertas mais elevadas. Parece, entretanto, que a quintessência do ato ou estratégia Imediatista envolverá criação e destruição de forma simultânea, ao invés de apenas convivência – daí resulta que a bee e a tong são formas organizacionais mais “altas” do que o encontro e o potlach.

Na bee, a ênfase está na criação – a colcha de retalhos, por assim dizer – o projeto de arte colaborativo, o ato de generosidade do grupo direcionado a si mesmo e a realidade ao invés de ser direcionado a uma “audiência” de consumidores mediados. A bee pode, é claro, considerar e empregar ações destruitivas ou “criminosas”. Mas quando ela o faz, talvez já tenha dado o primeiro passo para tornar-se uma sociedade secreta ou uma tong imediatista.

Por essa razão eu acho que a tong é a mais complexa (ou a mais “alta”) forma de organização Imediatista, a qual pode ser predeterminada em um nível significante. A TAZ e a sublevação dependem, em última instância, de muitos fatores que, no processo organizacional, devem ser alcançados sem “sorte”. Como eu tenho dito, nós podemos maximizar as possibilidades para a TAZ ou a Insurreição, mas não podemos “organizá-las” realmente ou fazê-las acontecer. A tong entretanto pode ser claramente definida e organizada para levar a cabo ações complexas, tanto materiais como simbólicas, tanto criativas como destrutivas. A tong não pode garantir a TAZ, tampouco a Insurreição, mas ela pode certamente satisfazer muitos – ou a maioria – dos desejos imediatos de menor complexidade. E, no final das contas, ela pode ter sucesso em precipitar o grande evento da TAZ, a Comuna, a restauração Ming como o grande festival da Consciência, o objetivo correlato de todo desejo.

Vamos tentar imaginar e então criticar – mantendo tudo isso em mente – estratégias possíveis para o grupo Imediatista, e idealmente para toda a tong semi-permanente e bem-organizada, para uma rede de afinidade ou para um grupo de ação clandestina, capaz de tentar ações diretas complexas, completamente evoluídas, em uma estratégia articulada. Cada uma dessas ações deve, simultaneamente, danificar ou destruir algum tempo/espaço real ou imaginário do “inimigo”, mesmo que isso simultaneamente crie para seus perpetradores a forte chance do pico de experiência ou “aventura”. Logo, cada estratégia, em um sentido, move-se para apropriação e a deslocamento do espaço do inimigo, eventualmente, para ocupá-lo e transformá-lo. Cada estratégia ou ação já é potencialmente o caminho completo da autonomia em si, da mesma forma que a evocação do Real já contém a completude do caminho espiritual (de acordo com a “gnose¹⁶” do Ismaelismo¹⁷ e do Sufismo¹⁸ heterodoxo).

Mas espere! Primeiro: quem é o inimigo? Tudo bem cochichar sobre as conspirações do establishment ou das redes de controle psíquico. Nós estamos falando sobre ações diretas em tempo real que devem ser levadas a cabo contra nôdos identificáveis de poder em tempo real. A discussão sobre inimigos abstratos, como o Estado, não vai nos levar a lugar algum. Eu não sou oprimido (ou alienado) diretamente por nenhuma entidade concreta chamada Estado, mas por grupos específicos tais como professores, a polícia, os chefes, etc. Uma “Revolução” pode objetivar a derrubada do “Estado”. No entanto, a Insurreição e todos os seus grupos de ação Imediatistas terão de descobrir algum alvo que não seja uma idéia, um pedaço de papel, uma assombração que nos acorrenta aos nossos próprios sonhos ruins sobre poder e impotência. Sim, nós vamos lutar na guerra de imagens. Mas as imagens surgem e fluem através de nexos específicos. O espetáculo tem uma estrutura e a estrutura tem juntas, cruzamentos, padrões, níveis. O espetáculo talvez até tenha – algumas vezes – um endereço. Ele não é real como a TAZ é real. Mas é real o suficiente para um ataque.

Como os textos imediatistas têm sido amplamente endereçados aos “artistas” assim como aos “não-autoritários”, e como o Imediatismo não é um movimento político mas um jogo, seria óbvio procurarmos pelo inimigo na mídia, especialmente naquela mídia que nós consideramos diretamente opressora. Por exemplo, para o estudante, a mídia opressora e alienante é a “educação”, e o nexo (o ponto de pressão) deve ser, pois, a escola. Para o artista, a fonte direta de alienação é vista como o complexo que nós geralmente chamamos de Mídia, a qual tem usurpado o tempo e o espaço da arte tal como nós desejaríamos praticá-la, a qual tem redefinido todas as formas de comunicação criativa para uma troca de mercadorias ou imagens alienantes, a qual tem envenenado o “discurso”.

No passado, a mídia alienante foi a igreja, e a insurreição expressava-se na linguagem da espiritualidade herética versus a religião organizada. Hoje, a Mídia assume o papel da Igreja na circulação das imagens. Como a Igreja certa vez contou uma estória sobre a escassez da santidade ou da salvação, a Mídia, por sua vez, constrói uma falsa história de escassez de valores ou “significado”. Como a Igreja certa vez tentou impor o monopólio do espírito, a Mídia quer refazer a linguagem como mente pura, separada do corpo.

A mídia nega significado à corporalidade, à vida cotidiana, da mesma forma como a Igreja uma vez definiu o corpo como demoníaco e a vida cotidiana como pecado. A mídia define a si mesma, ou ao seu discurso, como sendo o universo real. Nós – meros consumidores – vivemos em um mundo de ilusão, com televisores funcionando como olhos através das quais nós observamos o mundo da vida, os “ricos & famosos”, o real. Da mesma forma a religião definiu o mundo como ilusão e só o céu como real – real, mas tão distante. Se a insurreição soou certa vez para a Igreja como heresia, ela deve agora, por conseguinte, falar à mídia. Certa vez colonos revoltados queimaram igrejas. Mas o que são exatamente as igrejas da Mídia?

É fácil sentir nostalgia por um inimigo certa vez tão esplêndido como a Igreja Católica Romana. Eu tenho até mesmo tentado me convencer que o pretencioso e fracassado combate ao sexo ainda merece que conspiremos contra ele. Infiltre-se na igreja; encha o ofertário como belos panfletos pornográficos intitulados: “Esta é a face de Deus”; esconda objetos vudú/dadá embaixo dos bancos e atrás do altar; envie manifestos ocultos ao Bispo e ao clérigo; publique ameaças satânicas na imprensa idiota; deixe evidências incriminando os Illuminati. Um alvo ainda mais satisfatório pode ser os Mórmons, que estão completamente entorpecidos pela tecnologia comum hipermediada e ainda mais intensamente sensíveis à “magia negra¹⁹”. O Televangelismo oferece uma mistura tentadora de mídia e religião ruim. Mas quando ele se torna o poder real, as igrejas se sentem completamente vazias. Deus as abandonou. Deus tem seu próprio programa de entrevistas agora, seus próprias corporações patrocinadoras, sua própria rede. O real alvo é a Mídia.

O “ataque mágico” entretanto se mantém como uma estratégia promissora contra a nova igreja e a “nova inquisição” – precisamente porque a Mídia, como a Igreja, faz o seu trabalho através da “mágia”, a manipulação de imagens. Nosso maior problema em atacar a Mídia na realidade será o de inventar uma estratégia que não possa ser recuperada pela Babilônia e transformada em benefício de seu próprio poder. Uma apressada reportagem “ao-vivo” de que a CBS foi atacada por feiticeiros tornar-se-ia simplesmente parte do espetáculo da dissidência, o drama do discurso da simulação. A melhor defesa tática contra a cooptação será a sutil complexidade e a profundidade estética de nosso simbolismo, o qual deverá conter dimensões fractais intraduzíveis para a imagem/linguagem chata do televisor. Mesmo se “eles” tentarem se apropriar de nosso conjunto de imagens, ele vai carregar um fragmento inesperado de texto “viral” que irá infectar todas as tentativas de recuperação com a nauseante mazela da incerteza – um “terror poético”.

Uma idéia simples seria a de explodir uma torre de transmissão de TV, e, então, creditar a ação em nome da Sociedade Americana de Poesia (quem deveria estar explodindo torres de TV); mas um ato puramente destrutivo como esse não tem o aspecto criativo da estratégia realmente imediatista. Cada ato puramente destrutivo deveria idealmente ser também um ato de criação. Suponhamos que nós pudéssemos impedir a transmissão da TV em uma vizinhança e, ao mesmo tempo, sugerir um festival miraculoso, liberando e transformando o centro comercial local em uma TAZ de uma noite de duração – nossa ação combinaria, por conseguinte, destruição e criação em uma “ação direta²⁰” verdadeiramente Imediatista de beleza e terror – Bakuniana, situacionista, real dadá pelo menos. A mídia poderia tentar distorcê-la e se apropriar de seu poder, mas mesmo que o fizesse, ela nunca poderia apagar a experiência de uma vizinhança e de suas pessoas libertas – e as chances são de que, depois de tudo, a mídia permaneça em silêncio, uma vez que o evento todo parecerá muito complexo para ela o digerir e cagar como “notícia”.

Tal ação imensamente complexa poderia estar além das capacidades de todos, exceto da mais exultante e bem-desenvolvida tong Imediatista. Mas o princípio pode ser também aplicado em níveis mais baixos de complexidade. Por exemplo, imagine que um grupo de estudantes deseja protestar contra o efeito imbecilizante da mídia da educação, interrompendo ou fechando a escola por algum tempo – de realização fácil, como muitos ilustres sabotadores de colégio têm descoberto. Se levado a cabo como uma ação puramente negativa, o gesto pode ser interpretado como “delinquência” pelas autoridades e, logo, a sua energia pode ser recuperada em benefício do Controle. Os sabotadores deveriam fazer um “ponto de simultaneidade”, provendo informações valiosas, beleza e um senso de aventura. Pelo menos, panfletos anônimos sobre o anarquismo, “ensino em casa”, crítica da mídia ou algo desse tipo podem ser “deixado na cena” ou distribuído para outros estudantes, grupo de professores e até mesmo para a imprensa. Na melhor das hipóteses, uma alternativa para a escola deveria ser sugerida, através da convivência, do festival, do aprendizado livre, da criatividade compartilhada²¹.

Voltando ao projeto do “ataque mágico” à mídia, ou da guerrilha midiática: ele também deveria combinar em um gesto tanto elementos destrutivos como criativos na efetiva obra de arte Imediatista ou no trabalho do terrorismo poético. Dessa forma, ele irá (esperamos) demonstrar-se muito complexo para o usual processo de recuperação. Seria, por exemplo, inútil bombardear o alvo midiático com imagens de horror, chacina, assassinatos em série, abuso sexual alienígena, sadomasoquismo e coisas do tipo, uma vez que a Mídia é o próprio distribuidor desse conjunto de imagens. O demi-satanismo de Guignol²² cabe bem neste espectro do “horror-como-controle”, onde a maioria das transmissões ocorre. Você não pode competir com as “Notícias” por imagens desagradáveis, repulsivas, de pânico atávico ou de poças de sangue. A mídia (se é que podemos personificá-la por um instante) pode inicialmente se surpreender que alguém se importe em espelhar essa porcaria de volta – mas isso não teria nenhum efeito oculto²³.

Vamos imaginar (outro “experimento no pensamento!”) que um grupo Imediatista de algum tamanho e seriedade tenha, de alguma forma desconhecida, descolado os endereços (incluindo fax, telefone, e-mail, etc.) de um grupo criativo e executivo de um programa de TV que nós consideramos o ápice da alienação e do veneno psíquico (vamos dizer, “NYPD Blue²⁴”). Em A Maldição do Djinn Negro Malaio sugiro o envio de pacotes com objetos dadá/vudú para tais pessoas, juntamente com avisos de que o seu local de trabalho foi amaldiçoado. Naquele tempo, eu relutava em recomendar feitiços contra indivíduos. No entanto, vou recomendar agora algo ainda pior.

Além disso, para esses magnatas da mídia, eu bem que prefiro algo como um conjunto de imagens muçulmanas/heréticas do réptil rastejante da selva, que eu sintetizei como a operação “Djinn Negro” – uma vez que a mídia demonstra medo pelo terror muçulmano assim como intolerância contra muçulmanos. Não obstante eu deveria agora fazer todo o cenário e o conjunto de imagens muito mais complexos. Aos executivos da TV e seus escritores, deveriam ser enviados objetos perturbadores e extraordinários como “caixas” surrealistas, contendo imagens belas mas “ilegais” de prazer sexual²⁵ e simbolismo espiritual intrincado. Imagens que evocam a autonomia e o prazer na auto-realização, tudo muito sutil, sinuoso e misterioso. Estes objetos devem ser feitos com alta inspiração e fervor artístico real, e cada um deve ser feito para uma pessoa apenas – a vítima da macumba.

Os destinatários podem ficar abalados com estes “presentes” anônimos, mas provavelmente não os irão destruir nem discutir de uma vez. Nenhum prejuízo para o nosso esquema se eles o fizerem. Mas esses objetos podem muito bem parecer legais, muito “caros” para serem destruídos – ou muito “sujos” para se mostrar a alguém. No próximo dia, cada um dos destinatários-vítima irá receber uma carta explicando que o recebimento dos objetos efetuou a entrega de uma maldição. A macumba irá despertar seus desejos verdadeiros, simbolizados pelos objetos mágicos. Eles irão também perceber que eles estão agindo como inimigos da raça humana ao transformarem em mercadoria o desejo e trabalhar como agentes no controle das almas. Os objetos de arte mágicos vão se entrelaçar com seus sonhos e desejos, tornando seus empregos agora parecerem não apenas chatos e envenenados como também moralmente destrutivos. Seus desejos, despertos agora de forma mágica, irão arruiná-los para trabalhar na mídia – a menos que eles se voltem para a subversão e a sabotagem. Na melhor das hipóteses eles podem desistir. Isto pode salvar sua sanidade sob o preço de suas “carreiras” sem significado. Se eles continuarem na mídia, eles irão se perder em desejos não satisfeitos, vergonha e culpa.

Ou então se tornarão rebeldes e aprenderão a lutar contra o Olho da Babilônia a partir da barriga do ídolo. Enquanto isso, seu “show” vai sendo tomado por ataques de magia negra de um grupo de feiticeiros xiitas terroristas, de um esquadrão de choque vudú libiano, ou algo desse tipo. É claro, seria legal ter um agente lá dentro para criar “evidências” e espionar informações, mas alguma variação neste esquema pode ser realizado sem infiltração ativa na instituição. O ataque inicial pode ser talvez seguido de uma mala direta com propaganda anti-mídia ou até artigos Imediatistas. Se possível, é claro, algum azar poderia ser produzido para as vítimas ou para a sua instituição. Vocês sabem: trapaças. Mas, novamente, isto não é necessário, e pode até mesmo tomar o caminho de um puro experimento nosso em mind-fuck²⁶ e manipulação de imagens. Deixe os bastardos produzirem seu próprio azar a partir de sua tristeza interior, por serem eles grandiosos comedores de merda, a partir de suas superstições atávicas (sem as quais eles não seriam estes grandes magos da mídia), de seu medo da alteridade, de sua sexualidade reprimida. Você pode ter certeza de que eles irão lembrar da “maldição” toda vez que algo ruim acontecer para eles.
O princípio geral pode ser aplicado para outras mídias diferentes da TV. Uma companhia de informática, por exemplo, pode ser amaldiçoada através de seus computadores por um hacker de talento – este deve evitar cenários de ficção científica, tais como o ciberespaço assombrado de William Gibson – muito barroco. Companhias de publicidade funcionam sob mágica pura, produtoras de filmes, firmas de representação, galerias de arte, advogados e até políticos²⁷. Qualquer opressor que trabalha através da imagem é suscetível ao poder da imagem.

Deve ser enfatizado que nós não descrevemos aqui a Revolução, ou uma ação política revolucionária, ou mesmo a Sublevação. Este é meramente um novo tipo de proposição de agitação neo-hermética, uma proposta para um novo tipo de “arte política”, um projeto para uma tong de artistas rebeldes, um experimento no jogo do Imediatismo. Outros indivíduos irão lutar contra a opressão em seus próprios campos de experiência, trabalho, discurso, vida. Como artistas, nós escolhemos lutar com a “arte”, com o mundo da mídia, contra a alienação que nos oprime de forma mais direta. Nós escolhemos batalhar onde nós vivemos, ao invés de teorizarmos sobre a opressão em algum outro lugar. Eu tenho procurado sugerir uma estratégia e imaginar certas táticas que levem adiante a luta. Nenhum outro chamado é feito, e nenhum detalhe adicional deve ser revelado. O resto é para a tong.

Admitirei que meu gosto se inclina para um combate ainda mais violento à Mídia do que o proposto neste texto. Pessoas falam sobre tomar o controle de estações de TV, mas nenhuma delas têm conseguido. Pode fazer mais sentido atirar televisores contra as vitrinas das lojas de eletro-domésticos, mais ridículo do que pareceria sonhar em dominar os estúdios de TV. Eu esbocei algumas formas sugerindo atentados contra os fascistas da notícia, ou mesmo matando o cachorro de Geraldo²⁸, por muitas razões que ainda parecem suficientes para mim. Eu tenho lembrado das considerações de Nietzsche acerca da futilidade e da inferioridade da vingança como doutrina política. Uma mera reação nunca é uma resposta suficiente – tampouco um caminho nobre. Além disso, ela não funcionaria: seria vista como um “ataque à liberdade de expressão”.

O projeto aqui proposto inclui, em suas estruturas, a possibilidade de mudar alguma coisa de fato – mesmo que apenas algumas “mentes”. Em outras palavras, ele possui um aspecto construtivo integralmente limitado por um aspecto destrutivo, de forma que os dois não podem ser separados. Nossos objetos dadá/vudú são tanto um ataque como uma sedução, e ambos serão exaustivamente explicados nas cartas ou panfletos que os acompanham. No final das contas, existe a chance de convertermos alguém. Nós podemos, é claro, facilmente falhar no projeto também. Todos os nossos esforços podem acabar no lixo, esquecidos pelas mentes tão bem armadas até para sentir os momentos de nervosismo. Isto é, no final das contas, um mero experimento do pensamento, ou um experimento no pensamento. Você pode demoniná-lo, se preferir, como uma mera forma de crítica estética dirigida aos perpetradores, ao invés de aos consumidores, de arte ruim. O tempo da violência real não é agora, só porque a produção da violência se mantém como monopólio das Instituições. Não há razão para colocar a cabeça à prêmio, ostentando uma arma, se se está diante de um raio da morte de um satélite de guerra nas estrelas²⁹.

Nossa tarefa é a de alargar as fissuras do pseudo monolito do discurso social, gradativamente descobrir pequenas partes de espetáculo vazio, rotular formas sutis de controle mental, mapeando rotas de fuga, estilhaçar as cristalizações da imagem sufocadora, bater em panelas e frigideiras para acordar os cidadãos do transe da mídia, usar a “mídia íntima” para orquestrar nossos ataques à Grande Mídia e às suas Grandes Mentiras; aprender novamente a respirarmos juntos, a vivermos em nossos corpos, a resistirmos à imagem-heroína da “informação”.

(A mídia íntima, por definição, não alcança a massa não-consciente como a TV, os filmes e os jornais. Rádio FM, vídeo por cabo de acesso público, imprensa “nanica”, CDs e fitas cassete, software e outras tecnologias de comunicação podem ser usadas como mídia “íntima”. Aqui, a idéia da Xexoxial Endarchy³⁰ de “hipermídia” como uma ferramenta para a insurreição encontra seu verdadeiro papel. Existem duas facções em luta dentro da teoria não-autoritária no momento: os primitivistas anti-tech (Fifth Estate, Anarchy: A journal of Desire Armed, John Zerzan³¹) e os pro-tech futurologistas (incluindo tanto a esquerda anarco-sindicalista, como os libertarianos da direita).

Considero todos os argumentos amplamente informativos e inspiradores. Em TAZ e em algum outro lugar, eu tentei reconciliar ambas posições em meu próprio pensamento. Sugeriria agora que a questão proposta por esses argumentos não pode ser respondida a não ser no processo de transformação a uma prática (ou política) do desejo. Vamos imaginar que a “Revolução” instaurou-se. Nós somos livres para escolher nosso nível de tecnologia em um espectro que compreende desde a pré-idade do gelo primitiva até a ficção científica pós-industrial. Irão os neo-paleolíticos forçar os futuristas a desistirem de sua tecnologia? Irão os cadetes do espaço forçar os Zerzanistas³² à comprarem roupas de realidade virtual? Devotamente, espera-se que não. A questão, ao contrário, será: o quanto nós desejamos a vida de caça e coleta? Ou a vida ciber-revolucionária?

Nós desejamos computadores suficientes para forjar nós mesmos chips de silício? Porque, depois da revolução, ninguém vai aceitar trabalho alienado. A respeito disso, todas as tendências não-autoritárias concordam. Você deseja uma floresta repleta de jogos? Você é responsável por sua fecundidade e sua selvageria. Você deseja uma espaço-nave? Você é responsável por sua fabricação, desde a busca de minérios até a solda do cone de sua extremidade. De todas as maneiras, forma-se a comuna ou o trabalho em rede. De todas as formas, existe a demanda de que o meu nível de tecnologia não interfira no seu. Afora estas regras básicas para evitar uma guerra civil, a sociedade não-autoritária não depende em nada, a não ser no desejo de dar forma a sua techne. Como Fourier colocaria, o nível de complexidade econômica da sociedade utópica estará em harmonia com a totalidade das paixões. Eu não posso prever exatamente o que pode emergir. Tudo que eu posso imaginar é que eu sou capaz de desejar ao ponto de estar pronto para trabalhar em sua realização.

Pessoalmente (por uma questão de gosto), eu imagino algo muito parecido com Bolo’Bolo³³ – infinita variedade em um contexto revolucionário básico de liberdade positiva. Por definição, não poderá existir lá algo como uma NASA-bolo ou um Wall-Street-bolo, porque a NASA e Wall-Street dependem da alienação para existirem. Eu esperaria algo de baixa tecnologia ou de tecnologia apropriada (imaginada pelos teóricos dos anos 60, como Illich) tornar-se o padrão Utópico, com asas extremas ocupando uma selvageria restaurada de um lado, e a Lua de outro lado…

De qualquer forma, é tudo ficção científica. Em meus escritos eu tento imaginar estratégias que possam ser usadas agora, e por qualquer tendência não-autoritária. A tong e o ataque a mídia devem apelar tanto para os primitivistas como para os techies. E eu discuto o uso da magia e dos computadores porque ambos existem no mundo em que habito e ambos serão utilizados na luta pela liberação. Não apenas o futuro, mas mesmo o presente mantém muitas possibilidades, muitos recursos, um superabundante-redundante excesso de potenciais, para serem limitados pela ideologia. Uma teoria da tecnologia é muito restritiva. O imediatismo oferece em troca uma estética da tecnologia, e prefere a práxis a teoria.

De fato, o que nós chamamos de “ação direta” pode ser aqui melhor conhecida como ação indireta, viral, oculta, simbólica e sutil, ao invés de atual, que fere, militante e aberta. Se nós e nossos aliados naturais gostamos até dos pequenos sucessos, entretanto, a superestrutura pode eventualmente perder muito de sua coerência e também da garantia de que seu poder vai começar a se perder.**)**

O dia pode chegar (quem teria imaginado que, em uma manhã de 1989, o Comunismo iria evaporar?), o dia quando o Capitalismo muito-tardio começar a derreter – afinal isto tudo é apenas marxismo e fascismo que perdura porque é ainda mais estúpido – um dia a própria fábrica do consenso pode começar a se desfazer, junto com a economia e com o meio-ambiente. Um dia o colosso pode tremer, balançar como uma velha estátua de Stalin em um quarteirão de uma cidade provinciana. E, talvez, nesse dia a estação de TV explodirá e permanecerá explodida. Até lá: um, dez, mil ataques ocultos às instituições.

Nota Sobre a Arquitetura da TAZ

Obviamente a TAZ costuma deixar não apenas buracos para trás. A construção não é sua prioridade mais alta. E, ainda, todo o espaço vivido é arquitetura – espaço construído, espaço feito -, e a TAZ, por definição, tem sua presença no espaço e no tempo real. O acampamento nômade pode talvez servir como um protótipo primordial. Barracas, Trailers, Motorhomes, casas-barco. O velho circo ou carnaval itinerante pode oferecer um modelo para a arquitetura da TAZ. No meio urbano, organizar um okupa³⁴ se torna a opção mais comum de espaço para os nossos propósitos, mas na América, não importa o que aconteça, a lei da propriedade faz de um okupa um espaço quase pobre. A TAZ deseja um espaço rico, não tão rico em articulação (como no espaço do controle, a construção oficial do capital, da religião, do estado) mas rico em expressão.

Os espaços de atuação temporários propostos por situacionistas e urbanistas radicais nos anos 60 tinham certo potencial, mas finalmente se demonstraram muito caros ou muito planejados. A arquitetura ur-TAZ é aquela da comuna de Paris. A microvizinhança é fechada por barricadas. As casas idênticas dos pobres são então conectadas por passarelas através de todas elas, conectando muros ao chão. Estas passarelas nos lembram as arcadas de Fourier, pelas quais os falansterianos circulariam através de seu palácio comum, do espaço privado ao público e vice-versa. A Comuna bloqueando a cidade tornou-se uma TAZ fortificada com espaço militar público no nível do chão (e telhados) e o espaço privado em histórias superiores, com as ruas fechadas como espaço do festival. Este plano influencia a arquitetura do “bolo’bolo” de PM³⁵, onde o bloco da comuna torna-se uma comuna utópica urbana mais permanente. Assim como a TAZ, ela é afetada por um tipo de fechamento, mas projeta-se paradoxalmente através de aberturas. Ela escapa do asfixiante enclausuramento do Capital, e da trágica fealdade do espaço industrial. Sua arquitetura é suave, não estriada – por essa razão a tenda, não a prisão, a passarela e não o portal, a barricada, não os boulevards de Haussman³⁶.

Notas

1. Be-Ins eram encontros contra-culturais, eram uma forma de happening, que aconteceram por todo os Estados Unidos na década de 1960 no início do movimento Hippie. Tais encontros geralmente tinham um caráter emancipatório do corpo, da moral e da consciência através do empoderamento pessoal, da vivência comunal, da criação artística libertária, de descentralização política e da sensibilização ecológica. (N.T.)

2. A Tribo Rainbow, também conhecida como Família Rainbow da Luz Vivente (Rainbow Family of Living Light) é uma rede de grupos nova era identificados com os princípios do individualismo, igualitarianismo e pacifismo. Fundada em 1972 nos Estados Unidos, vem organizando Encontros anuais na primeira semana de julho em florestas e parques nacionais. Os Encontros Rainbow são eventos não-comerciais, sem líderes onde o principal objetivo é meditar, ou guardar silêncio focando esforços na Paz Mundial. (N.T.)

3. A Revolta de Stonewall foram uma série de conflitos violentos entre gays, transgêneros, lésbicas e simpatizantes, e a polícia de Nova York. Eles tiveram início depois que um grupo de policiais invadiram a casa noturna GLS Stonewall Inn na noite de 28 de Junho de 1969, e agrediram violentamente seus freqüentadores por homofobia e diversão. Este foi o catalizador para o surgimento e a politização dos movimentos Gays, Lésbicas e Transgêneros que através de suas manifestações iniciaram uma longa caminhada na busca por seus direitos. (N.T.)

4. Potlach é uma cerimônia praticada entre tribos índigenas da América do Norte, como os Haida, os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl. Também há um ritual semelhante na Melanésia. Consiste num festejo religioso de homenagem, geralmente envolvendo um banquete seguido por uma renúncia a todos os bens materiais acumulados pelo homenageado – bens que devem ser entregues a parentes e amigos. A própria palavrapotlatch significa dar, caracterizando o ritual como de oferta de bens e de redistribuição através da dádiva. A expectativa do homenageado é receber presentes também daqueles para os quais deu seus bens, quando for a hora do potlatch destes.O valor e a qualidade dos bens dados como presente são um sinal do prestígio do homenageado. (N.T.)

5. Quilting bee era uma prática comum entre os pioneiros da América do Norte no Período colonial. Consistia na reunião de mulheres (e por vezes alguns homens) durante o Outono e o Inverno, em um mesmo aposento, geralmente o único aquecido da casa, para a confecção de mantas com elaborados desenhos artísticos. Seu fim, no entanto não era terminar a manta em si, mas tinha como foco também a socialização, a conversa e a alimentação que se dava em torno de um afazer prático, uma forma autêntica de mutirão festivo, através da qual os laços de uma comunidade se reforçavam. (N.T.)

6. Gemeinschaft (também traduzido como comunidade) é uma associação na qual indivíduos estão inclinados para uma ampla organização baseada em nada mais que seus interesses próprios consonantes e congregados. As pessoas em Gemeinschaft são reguladas pelo bem comum, ou concepções/convenções sobre o comportamento apropriado e a responsabilidade de cada um de seus membros, com todos os outros. Chamadas por Tönnies de “Unidade da Vontade” este tipo de associação está identificado com o compartilhamento de interesses em comum. (N.T.)

7. As tong são formas muito antigas de sociedades secretas chinesas, criadas para apoio mútuo e proteção, no passado eram horizontais e descentralizadas, fatores que dificultavam seu combate e aumentavam seu poder. As tong estavam envolvidas numa série de ações que poderiam ser consideradas pela perspectiva estatal como criminosas. Ao longo da história as tong já estiveram por trás do assassinato de déspotas imperadores chineses, pelo comércio do ópio e haxixe na China, chegando até os dias de hoje tomando parte também em esquemas de imigração ilegal de orientais para as Américas. (N.T.)

8. Ivan Illich foi um filosofo anarquista nascido na Áustria, autor de uma série de críticas muito bem fundamentadas às instituições centrais da cultura ocidental contemporânea tais como a educação, o trabalho e o desenvolvimento econômico. No início de sua vida, Illich foi padre, mas rompeu com a igreja se tornando um de seus maiores críticos. (N.T.)

9. Maio de 68 é o nome pelo qual ficaram conhecidos uma série de protestos estudantis e greves gerais que eventualmente causaram o colapso do presidente De Gaulle do governo da França. A grande maioria dos manifestantes estavam vinculadas a causas ligadas a uma postura contestadora da sociedade, no entanto as instituições da esquerda partidária e sindicatos se distanciaram de todos os movimentos nas ruas, muitas vezes condenando-os tal qual a direita. Muitos viram nestes eventos uma oportunidade e balançar a “velha sociedade” e a moralidade tradicional, focando suas críticas especialmente no sistema empregatício e na educação. (N.T.)

10. Johann Kaspar Schmidt (nascido em 1806 – falecido em 1856) conhecido pelo pseudônimo Max Stirner foi um escritor e filósofo alemão, que na primeira metade do século XIX escreveu uma série de trabalhos centrados no existencialismo e no niilismo, é considerado um dos fundadores do anarco-individualismo. (N.T.)

11. Friedrich Wilhelm Nietzsche (Nascido em 1844 – falecido em 1900) foi um influente filósofo niilista nascido na Alemanha na segunda metade do século XIX. Crítico da cultura ocidental e suas religiões e, conseqüentemente, da moral judaico-cristã. Associado equivocadamente, ainda hoje, por alguns ao nazismo – uma visão que grandes leitores e estudiosos de Nietzsche, como Foucault, Deleuze ou Klossowski procuraram desfazer – juntamente com Marx e Freud – Nietzsche é um dos autores mais controversos na história da filosofia moderna. (N.T.)

12. Albert Camus (nascido em 1913 – falecido em 1960) foi um filósofo e escritor francês, considerado um dos grandes escritores existencialistas do século XX e autor de uma ampla obra na qual apresenta um tipo específico de humanismo fundado na conscientização do absurdo da condição humana. (N.T.)

13. Não estou usando o termo hipermídia aqui no sentido atribuído a ele por nossos camaradas da Xexoxial Endarchy, os quais chamam de hipermídia a apropriação de simplesmente toda a mídia criativa para um único efeito (por exemplo: o próximo estágio além da “mídia misturada”)… Eu estou usando “hipermediação” para significar a representação exacerbada a ponto de uma alienação, tal como na imagem da produtificação. (N.A)

14. Georges Eugène Sorel (nascido em 1847 – falecido em 1922) engenheiro formado pela École Polytechnique e teórico do sindicalismo revolucionário, muito popular na França, na Itália e nos Estados Unidos. Mas sua influência começou a decair depois de 1920. É um autor controverso quanto a linha política a qual adere. Suas idéias foram aceitas tanto pelo fascismo italiano quanto pela esquerda revolucionária deste país, influenciando consideravelmente o pensamento anarco-sindicalista. (N.T.)

15. Abraham Harold Maslov (nascido em 1908 – falecido em 1970) foi um psicólogo americano, que conceituou uma “hierarquia das necessidades humanas”, e estudou os “picos de experiência. É considerado o pai da psicologia humanista. (N.T.)

16. Gnose é substantivo do verbo gignósko, que significa conhecer. Para os Gnósticos, Gnose é conhecimento superior, interno, espiritual, iniciático. No grego clássico e no grego popular, koiné, seu significado é semelhante ao da palavra epistéme. Em filosofia, epistéme significa “conhecimento científico” em oposição a “opinião”, enquanto gnôsis significa conhecimento em oposição a “ignorância”, chamada de ágnoia. (N.T.)

17. O Ismaelismo é uma doutrina religiosa considerada como um ramo do Xiismo, parcialidade do Islamismo. Os adeptos do Ismaelismo são também denominados como septimâmicos em função de apenas reconhecerem os sete primeiros imãs do islão xiita. (N.T.)

18. O Sufismo (árabe: تصوف, tasawwuf; persa:صوفی‌گری Sufi gari) é a corrente mística e contemplativa do Islã. Os praticantes do Sufismo, conhecidos como sufis ou sufistas, procuram uma relação directa com Deus através de cânticos, música e danças. (N.T.)

19. O Mormonismo foi fundado por patifes ocultistas da maçonaria, e os líderes Mormon permanecem extremamente suscetíveis às insinuações de um passado enterrado que pode retornar para assombrá-los. A Igreja Católica Romana poderia, por milênios, dar de ombros, com sofisticação, ao “ataque mágico” – mas os Mormons pegariam em armas. (N.A.)

20. Ação direta é um princípio do ativismo libertário que usa métodos mais imediatos para produzir mudanças desejáveis ou impedir práticas indesejáveis na sociedade, em oposição a meios indiretos, tais como a eleição de representantes políticos, que prometem soluções para uma data posterior, ou recurso a advogados. Também pode ser um meio, uma teoria com vista a pôr um fim de práticas consideradas condenáveis ou criar condições mais favoráveis, utilizando meios disponíveis, tais como greves, boicotes, ocupações, morosidade militante, ou sabotagem. (N.T.)

21. É vital não ser pego pois isso neutraliza qualquer poder que possamos ter obtido ou procurado expressar, e até mesmo coloca o nosso próprio poder contra nós. Uma boa ação Imediatista deveria ser relativamente impecável. Ser expulso da escola pode estragar o efeito. O Imediatismo quer ser uma arte marcial, não a estrada para o martírio. (N.A.)

22. O Grand Guignol doi um teatro na área de Pigalle em Paris que desde de sua abertura em 1897 até seu fechamento em 1962, era especializado em shows de horror naturalistas. O nome é frequentemente usado como um termo geral para entretenimento de horror amoral com apelo visual. (N.T.)

23. O problema com a maior parte da arte “transgressora” é que ela não transgride nenhum dos valores consensuais – ela nada mais faz do que exagerá-los ou, na melhor das hipóteses, exacerbá-los. A obsessão estética com a “Morte” forja uma mercadoria perfeita (imagem-sem-substância), uma vez que o significado da entrega da imagem colocaria, de fato, um fim ao consumidor. Comprar a morte é comprar o fracasso ou o fascismo – um precipício sobre o qual Bataille tremeu com a falta doentia de equilíbrio. Eu digo isso apesar da admiração por Bataille. (N.A.)

24. Seriado estadunidense babaca da década de 1990, considerado nos meios libertários um dos muitos enlatados que exaltam e romancizam o trabalho sujo do aparato repressivo estatal. Visto por outros como uma novela policiesca cheia de lições de moral cristã e capitalista. (N.T.)

25. Isto irá prevenir as imagens de até mesmo aparecerem na TV ou em fotos de notícia. Isto também irá, por coincidência, fazer a declaração sobre a relação entre “beleza” e “obscenidade” e entre “arte” e “censura”, etc., etc. (N.A.)

26. Literalmente foder com a mente. Trata-se de uma prática de estimular o pânico e a loucura de alguém fornecendo evidências que façam com que a imaginação dessa pessoa trabalhe contra ela própria. (N.T.)

27. Geralmente não vale a pena atacarmos os “políticos”, porque eles são, afinal de contas, meros “tigres de papel” – mas talvez valha a pena atacarmos os tigres de papel como “políticos”. (N.A.)

28. Geraldo Rivera (nascido em 1943) é um apresentador de um talk show dramático que leva o seu nome, para o qual costuma trazer convidados populares com problemas domésticos – brigas entre casais e famílias desunidas – para lavarem a roupa suja em frente as câmeras, em prol do deboche comedido do anfitrião rebocado, e em nome da alegria de seus patrocinadores. (N.T.)

29. Os ativistas que destruíram um grande satélite, na Califórnia, com machados tem todo o meu respeito. Infelizmente, eles foram pegos e sua punição foi ter de pagar o custo da destruição com seus salários. Nada bom. (N.A.)

30. Xexoxial Endarchy é um coletivo estadunidense de artistas, educadores e escritores anticapitalistas que tem como principal objetivo o desenvolvimento e a distribuição livre de novas manifestações artísticas e de transmissão de conhecimentos. (N.T.)

31.Os três primeiros são periódicos anarco-primitivistas, o último, John Zerzan (nascido em 1943) é o principal filosofo e espoente dessa vertente do anarquismo com muitos seguidores nos Estados Unidos e na Europa. (N.T.)

32. Zerzanistas é o nome dado aos anarco-primitivistas seguidores das idéias de John Zerzan. (N.T.)

33. bolo’bolo é o famoso livro anti-capitalista e autonomista escrito por p.m. originalmente publicado em 1983 em Zürich, pela editora Paranoid City. (N.T.)

34. Okupa (original em inglês squat) é uma prática muito comum entre os grupos autonomistas da Europa e Estados Unidos, consiste em ocupar um espaço abandonado ou fechado em nome da especulação imobiliária e transformá-lo em um ponto de convergência de ações e idéias libertárias, num morada coletiva baseada na convivialidade horizontal e numa prova palpável em pequena escala de que viver em anarquia e harmonia social é algo possível e desejável. (N.T.)

35. P.M. é o pseudônimo utilizado por um autor libertário ocultista nascido na Suíça que escreveu o livro Bolo’Bolo. (N.T.)

36. A renovação Haussmann ou Haussmanização de Paris, foi um projeto de replanejamento urbano encomendado por Napoleão III e liderado pelo prefeito de Seine, o Barão Georges Eugene Haussmann entre 1852 e 1870, continuando até o fim do Segundo Império em 1870. Tanto o centro de Paris quanto seus distritos circunvizinhos: ruas e boulevards, passaram por grandes transformações diante da implementação de parques públicos, esgoto e escoamento de água, melhorias urbanas e monumentos públicos. A preocupação era também militar, grandes avenidas foram criadas permitindo o rápido deslocamento de tropas por vários pontos, até o centro da cidade, dificultando em muito a criação de barricadas como as vistas por ocasião da Revolução Francesa e da Comuna de Paris. (N.T.)


Fonte: Occult Assault on Institutions – Hakim Bey
Tradução: Fido
Retirado de: Protopia

VIDEO: A Crise da Democracia – SubMedia.tv


Autor: SubMedia.tv
Video: The Crisis of Democracy
Legenda em português/BR: Anônimo

PORQUE TODO DESIGN DE PERMACULTURA DEVERIA INCLUIR O APOIO A CULTURAS DE RESISTÊNCIA – por Jennifer Murnan

Atualmente, a permacultura opera no reino brilhante do ativismo ambiental verde e aparentemente acredita que a cultura atual pode ser transformada. Por que permaculturalistas devem optar por alinhar-se com os ambientalistas da ecologia profunda que apoiam o desmantelamento da civilização na crença de que ela seja irremediável e que, de fato, está destruindo a vida em nosso planeta?

Aqui estão alguns motivos que me ocorreram:

O movimento de permacultura sempre foi contrário às crenças e princípios da civilização global. Ele vê a natureza como um parceiro, um professor e um guia a quem devemos honrar e do qual somos totalmente dependentes. Isto é completamente contrário à visão cultural da civilização ocidental; que afirma o mundo natural está aqui para nos servir, para ser usado e abusado à vontade, e que este abuso é justificável.

A prática da permacultura, por definição, é uma tentativa de afastar-se do modelo de exploração e importação de recursos exigido pela civilização. Viver permanentemente em um só lugar é a antítese do padrão repetidamente exibido por civilizações. Civilizações não podem viver de um só lugar. Elas violentamente importam e exploram os seus recursos humanos e naturais, esgotam seus ecossistemas, dão início a explosões populacionais e colapsos, deixando um rastro de terra empobrecida em seu caminho. A civilização industrial ocidental está atualmente reproduzindo este cenário em escala global. A permacultura, não só não pode existir dentro dos limites da civilização, como também não pode coexistir com uma civilização que está devorando o mundo. Eu acredito que tentar fazer isso não é nem ético e nem possível por parte dos permaculturalistas.

Outra razão reside nas visões comuns da primazia da terra, compartilhadas por ativistas do ambientalismo radical e da permacultura. O primeiro princípio ético da permacultura é “cuidar da terra”. Sem esta base, o segundo e o terceiro princípio, “cuidar das pessoas”, e “redistribuir o excedente segunda nossas necessidades”, são impossíveis. Organismos saudáveis produzem um excedente como uma maneira de alimentar e enriquecer o ecossistema em que eles existem. Simplificando, não há saúde, a menos que cuidemos da terra em primeiro lugar.

Assim como Derrick Jensen afirma na premissa 16 do livro Endgame, “a Terra é o que mais importa. Ela é primordial. Ela é nossa casa. Ela é tudo.”

Existem atitudes partilhadas pela permacultura e pelo movimento ambientalista radical. Permaculturalistas acreditam em trabalhar com a natureza e não contra ela. Promover uma relação para toda a vida é inerente à prática da permacultura. Valorizar as pessoas e suas habilidades cria mais diversidade, criatividade e produtividade na permacultura e em comunidades de ambientalistas radicais. O alinhamento entre o ambientalismo radical e os movimentos de permacultura é especialmente evidente em dois princípios do design de permacultura. A busca por preservar, regenerar e estender todas as paisagens naturais e tradicionais permanentes é um objetivo de ambas as comunidades. Preservar e aumentar a biodiversidade de todos os tipos é visto como sendo essencial para a sobrevivência tanto por ambientalistas radicais quanto por permaculturalistas.

A principal razão para a permacultura se tornar parte de uma cultura de resistência é que dois princípios orientadores da permacultura logicamente impõem o desmantelamento da civilização. O princípio de precaução diz devemos levar a sério e agir sobre qualquer diagnóstico sério ou destrutivo a não ser quando é provado que ele está errado.

A civilização tem provado ser destrutiva para os ecossistemas desde a sua criação. A civilização industrial ocidental está causando a destruição em massa de todos os ecossistemas da Terra.

“A cultura dominante devora biomas inteiros. Não, isso é muito generoso, porque comer implica uma relação biológica natural; esta cultura não apenas consume ecossistemas, oblitera eles, assassina-os, um após o outro. Esta cultura é um assassino ecológico em série, e há muito tempo reconhecemos o padrão.” – Aric McBay

Uma resposta eficaz e em grande escala contra esta destruição é necessária. As táticas do movimento ambiental, até este ponto, têm sido insuficientes. Estamos perdendo. É hora de mudar a nossa estratégia. É por isso que o movimento ambientalista radical está incentivando para que todas as táticas sejam consideradas como uma forma de pôr fim ao assassinato da Terra. Isto inclui – mas não se limita a isto – a prática da permacultura, a legislação, a ação judicial, a desobediência civil e a sabotagem industrial.

É problemático apostar no movimento de permacultura como a única solução para a destruição global. Apesar da transição para a sustentabilidade em nossas vidas pessoais ser importante, é ainda mais importante enfrentar e desmantelar os sistemas opressivos de poder que promovem a insustentabilidade, a exploração e a injustiça em uma escala global. Na verdade, se estes sistemas forem deixados de lado, os ganhos obtidos pela prática da permacultura serão arrastados pela onda de destruição da civilização.

“Qualquer sistema econômico ou social que não beneficia as comunidades naturais das quais depende é insustentável, imoral e estúpido. Sustentabilidade, moralidade e inteligência (bem como a justiça) exigem o desmantelamento de qualquer sistema econômico ou social ou, pelo menos, impedir que estes danifiquem o ambiente do qual dependem”. – Derrick Jensen

O segundo princípio orientador da permacultura, a ‘equidade intergeracional’, também exige medidas imediatas em resposta à força destrutiva da civilização. Este princípio estabelece que as gerações futuras tenham os mesmos direitos que nós à comida, ar limpo, água e recursos. Esta declaração aplica-se a todos os seres humanos e não-humanos igualmente. Diariamente, espécies inteiras estão sendo eliminadas deste planeta como resultado das atividades da civilização industrial. A ‘equidade intergeracional’, para eles, deixou de existir e todos os dias essa destruição continua extinguindo mais espécies. Permitir que isso continue é inconcebível.

A permacultura se baseia numa estreita observação do mundo natural, e eu acredito que só poderá atingir o seu potencial pleno em uma comunidade humana que reconhece as leis naturais do ambiente onde está estabelecida, primariamente. Praticar permacultura em qualquer contexto que não seja este exige a subversão de nossos princípios e a traição de tudo o que nos alimenta e nos sustenta, tudo o que é sagrado, nossa terra viva. Nós só podemos pertencer verdadeiramente a uma cultura de resistência.

Permaculturalistas e ambientalistas radicais ambos sabem que a terra é tudo, que não há bem maior do que este planeta, do que a própria vida. Devemos-lhe tudo e sem ela, morremos.

É isso, precisamos uns dos outros, e de qualquer tática que pudermos reunir em defesa da Terra.

Nós não podemos aceitar a civilização.

“A tarefa de um ativista não é navegar em volta de sistemas de opressão com a maior integridade pessoal possível. É pôr esses sistemas abaixo.” – Lierre Keith

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Autora: Jennifer Murnan
Fonte: Why all permaculture designs should include supporting a culture of resistance. Colorado Permaculture Guilde.
Tradução: Ctenomys. (Junho de 2016)

A CIVILIZAÇÃO RETROCEDE, A VIDA SELVAGEM PERSISTE – por Deserto


A CIVILIZAÇÃO RETROCEDE, A VIDA SELVAGEM PERSISTE[1]

Encontrei-me com um viajante de um antigo país
Que disse: Duas enormes pernas de pedra sem corpo
Estão de pé no deserto… Perto delas, na areia,
Meio enterrado, está um rosto partido, cuja expressão
E os sulcos nos lábios, a arrogância fria de mando no olhar,
Faz notar que seu escultor bem soube ler aquelas paixões,
Que ainda sobrevivem, estampadas nestas coisas sem vida,
A mão que as imitou, e o coração que às nutria.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Desesperai, ó grandes, vendo minhas obras!”
Nada mais resta em torno da derrocada
Daquele colossal destroço, ilimitada e sem proteção
Só a areia se estende no plano ermo da tal imensidão.
Ozymandias, Percy Bysshe Shelley, 1817

 
Impérios espalham desertos nos quais não podem sobreviver
 
Você pode ler nas ruínas de Ur e Mu Us, nos campos desertificados de Wadi Faynan [78][2] e nos vales de Techuacán e zeks [N.T. 3]. [79] “Os impérios espalham desertos nos quais não podem sobreviver.” Invasões, insurreições e deserções muitas vezes marcam a queda de civilizações, mas a base real para a sua destruição sempre foi gerada por suas próprias lideranças, trabalhadores e zeks [N.T. 3]. Estamos todas trabalhando para a destruição das nossas civilizações. [80]
“O homem civilizado tem marchado por toda a face da terra e deixado um deserto em suas pegadas.” [81]
Não se sabe com que magnitude o aquecimento global causará a expansão dos desertos quentes, mas que irá acontecer – e drasticamente – é algo em que podemos apostar com bastante segurança. A interação entre solo, clima e poder civil continuará a ser um fator dominante determinando tanto a história quanto a abertura do território para vidas mais livres. Os sistemas agrícolas irão fracassar à medida em que as terras áridas se espalharem, o que significa que, mais uma vez, as civilizações terão que recuar em muita das terras anteriormente conquistadas. Em alguns locais isto será total, em outros será uma questão de grau.

Em minha língua materna, desertos são inabitáveis, abandonados, desertados; mas por quem? Não por coiotes ou por carriças de cactos. Não pelas formigas cortadeiras ou pelas cascavéis. Não pelas cabras selvagens, as acácias, o cortisol e os cangurus vermelhos. Desertos e ambientes áridos geralmente são, muitas vezes, biologicamente diversificados, embora, pela sua natureza, a vida é mais escassa neles do que em outros biomas. Apesar de algumas áreas desérticas terem pouca vida, em outras a maioria das comunidades de animais, pássaros, insetos, bactérias e plantas, correm, voam, rastejam, se espalham e se desenvolvem sem ordem alguma, não domesticados pela civilização. A vida selvagem está em nós e ao nosso redor. A batalha para contê-la e controlá-la é o trabalho constante da civilização. Quando ela perde essa batalha e as terras ficam desertas a selvageria persiste.
Por trás da areia, entretanto, sob o céu assombrado pelos abutres, o deserto espera planícies, morros, desfiladeiros, recifes, charcos, escarpas, pináculos, labirintos, lagos secos, dunas de areia e montanhas estéreis. [82]

Liberdades nômades e o colapso da agricultura

Lembro de mim sentado sobre a terra vermelha, sob o sol quente, o vento fraco, o silêncio do deserto era absoluto… ou teria sido se não fosse, é claro, por toda a falação de seus habitantes. Há pessoas lá, nem todos os desertos são inabitáveis, ainda que para os Estados a produção de algum excedente seja quase impossível. A escassez de vida favorece o nomadismo seja por pastores, coletores, viajantes ou comerciantes. Ninguém pode viver esta vida sem ser alterado. Será levada, ainda que de leve, a marca do deserto, a marca que caracteriza o nômade. [83]
Embora a concentração de poder possa surgir em qualquer sociedade com algum nível de domesticação, em geral, quanto mais nômade um povo é mais ele é suscetível à independência. Os governos sabem isso, como pode ser testemunhado pelas tentativas generalizadas de “sedentarizar” os povos nômades do deserto. Seja a sobrevivência obstinada de modos de vida aborígenes na Austrália, [84] a resistência intransigente dos apaches liderados por Victorio ou a recente insurreição Tuaregue no deserto do Saara, os povos nômades são, muitas vezes, adeptos da luta e/ou da fuga.

Helene Claudot-Hawad diz em uma discussão sobre o conflito tuaregue com Estados modernos que: “as fronteiras entre os Estados têm, por definição, uma linha fixa, imóvel e intangível, e são propositalmente feitas para não serem transgredidas. Separam o que supõem serem entidades mutuamente opostas.” [85] A independência de nômades resistentes muitas vezes é misturada com uma descrença prática em fronteiras, o que se torna uma ameaça para a base ideológica dos governos.

O aquecimento global irá estimular transformações nos usos humanos da terra. Como observado no capítulo anterior, em alguns lugares, populações campesinas auto-suficientes provavelmente substituirão a monocultura voltada à exportação, enquanto em outros lugares, cultivos e plantações podem ser substituídos pela pecuária. Nas zonas áridas em expansão uma boa proporção dos que se adaptarem com sucesso poderá fazê-lo abraçando as liberdades nômades e a subsistência pastoral transumante. [86] Em outras, pastoras nômades e agricultoras podem voltar para a caça-coleta.

Pela maior parte da nossa existência enquanto espécie, todas nós éramos forrageadoras e o deserto foi a nossa casa. Sociedades de caça-coleta estão entre as mais igualitárias da Terra [87] e onde tais culturas sobreviveram aos tempos modernos, elas têm feito isso em áreas distantes do poder centralizado e muitas vezes inadequadas para a agricultura. Por exemplo, o povo Spinifex do Grande Deserto Victoria tem sido capaz de manter sua vida tradicional, apesar do advento da Austrália, mesmo suas terras sendo tão estéreis que são inadequadas até mesmo para o pastoreio. [88] O povo Kung também consegue viver bem e livre por meio da caça-coleta em um ambiente muito hostil – o Kalahari. [89]

Quando as sociedades agrícolas enfrentam extrema escassez de alimentos ou violência externa, o forrageamento é uma estratégia adaptativa recorrente. Por vezes isso pode ser temporário, em outras, permanente. Assim, com a disseminação da desertificação podemos ver, em alguns lugares, uma propagação da deserção da civilização para algo parecido com a nossa vida selvagem anarquista inicial. Novos bandos inteiros de forrageiras podem evoluir após os colapsos da viabilidade agrícola e do retrocesso dos excessivos poderes dos Estados enriquecidos pela energia. Dada a condição atual de muitas pastoras e forrageiras de zonas áridas, é mais provável que, na maioria dos casos, veremos o hibridismo: um aumento das populações nômades autônomas baseando-se tanto em animais de pastoreio quanto em forrageamento.

Cortiçois e o creosotos

Em um nível mais geral, algumas daquelas pessoas que têm um anseio pela vida selvagem e têm a necessidade de se libertar da autoridade tem gravitado rumo às fronteiras, frequentemente, para desertos quentes e regiões semi-áridas.
Enquanto caminho na terna primavera
Ouço o chamado penetrante de suas ruas, Ó, Deserto!
Devo deixar minha casa na triste colina
Que triste são outras terras comparadas à você, Ó Deserto!
Seidi, poeta turco do século XIX

Estes territórios já existem – e cada vez mais – em várias regiões. Inclusive aquelas que vivem dentro dos limites das supostas potências mundiais irão vê-las crescerem dentro de suas fronteiras. Nas zonas do sul da Europa onde a água se torna escassa, fazendas e povoados abandonados têm sido repovoados por anarquistas, hippies, cultistas e outros que desejam se livrar da vigilância autoritária e da prisão do trabalho assalariado. Existem “deserções” similares no seco coração da Austrália e nos desertos do oeste da América do Norte. É importante destacar que aqui as comunidades indígenas persistem ou se re-estabelecem. A antiga estratégia de sobrevivência indígena – “nós estávamos aqui antes e estaremos aqui depois” – pode ser frutífera no deserto. Como numerosas lutas contemporâneas ilustram, anarquistas e povos nativos podem firmar boas alianças.

Algumas das mais antigas comunidades vivem em desertos. No Mojave há uma colônia clonal de arbustos creosotos que tem se expandido lentamente cuja idade é estimada em 11.700 anos. Testes genéticos recentes indicam que os bosquímanos do Kalahari são, provavelmente, a mais antiga população de seres humanos na Terra. [90] Essas comunidades – tanto de plantas como de humanos – são estimulantes exemplos de resiliência; apesar de que, mesmo tendo sobrevivido milênios nos desertos quentes, elas podem não sobreviver ao deserto cultural que ainda está se espalhando. O anel dos antigos arbustos creosotos fica bem próximo ao chão e cresce em uma terra que a US Bureau of Land Management (Agência de Administração da Terra – EUA) designou “para uso recreativo de veículos de tração nas quatro rodas.” [91] O governo de Botsuana tem retirado à força muitas bosquímanas de suas terras para realocá-las em esquálidos campos de reassentamento, aparentemente para possibilitar a mineração de diamantes. [92] Para os povos livres e para a natureza selvagem, o habitat mais ameaçador de todos é o deserto cultural.

Em linhas gerais, à medida que o planeta esquenta, devemos nos lembrar das liberdades nômades dos povos pastores e forrageiros, o refúgio dos povos aborígenes e dos indivíduos desertores renegados bem como os habitats em expansão da flora e fauna do deserto. A expansão das zonas áridas irá trazer possibilidades positivas, apesar da tristeza de fazer de nós testemunha da extinção de habitats exuberantes. [93] Ainda assim, pode haver primavera no deserto. Já mencionei as possibilidades abertas pela disseminação de desertos quentes, mas é claro que existem outras que se fecham. Até mesmo algumas culturas relativamente anárquicas sobre as – ou além das – fronteiras do deserto se tornarão inviáveis. Espécies serão extintas. Enquanto muitas sobreviverão nas terras do deserto em expansão muitas vão optar por fugir do calor. Algumas dessas migrações – até certo ponto, isso já está acontecendo – serão intranacionais, mas muitas serão internacionais.

No mundo árido e quente, os sobreviventes se reúnem para empreender a viagem para os centros árticos da civilização; Vejo-os no deserto quando desponta o amanhecer e o sol lança seu olhar penetrante em todo o horizonte do acampamento. O ar fresco da noite fria permanece por um tempo e, em seguida, como a fumaça, se dissipa enquanto o calor se impõe… [94]

Estas são algumas das últimas palavras de Lovelock em A Vingança de Gaia. À medida que os desertos quentes se expandem e grande parte da civilização e da humanidade foge e/ou morre, o que poderemos dizer sobre os desertos frios; e sobre o novo “centro ártico da civilização”?

 


 

Fonte: Desert
Tradução: Ctenomys, 2015
Tradução completa do livro: http://pt.protopia.at/wiki/Deserto

 

[1] Tradução do capítulo 5 à partir da versão em inglês do livro ‘Desert’ (autoria desconhecida).

[2] Se desejar conferir as notas do autor visite: http://pt.protopia.at/wiki/Deserto

 

Murray Bookchin: um Estatista Municipal. – por Bob Black

* Capitulo 5 do livro Anarchy After Leftism de Bob Black.

Não há porque adiar por mais tempo o inevitável. É preciso ser dito: o reitor** Bookchin não é um anarquista. Com isso eu não quero dizer que ele não é o meu tipo de anarquista, embora isso também seja verdade. Quero dizer que ele não é um anarquista de tipo algum. Afinal, essa palavra significa algo, e o que ela significa é a negação da necessidade e do desejo de um governo. Essa é uma definição básica, pré-adjetiva, anterior a qualquer discussão acerca de anarquismo individualista, coletivista, comunista, mutualista, social, de estilo de vida, ecológico, místico, racional, primitivista, Watsoniano, ontológico, etc. Um anarquista, como tal, se opõe ao governo – e ponto final. O reitor Bookchin não se opõe ao governo. Por isso, ele não é um anarquista.

O Quê? “O mais importante teórico anarquista contemporânea” (Clark, 1990: 102) não é um anarquista? Você me ouviu. Ele não é – real e verdadeiramente, ele não é. Não porque ele foi reprovado em algum teste ideológico abstrato desenvolvido por mim mesmo. Ele não é um anarquista, porque ele acredita no governo. Um anarquista pode acreditar em muitas coisas, e muitas vezes o faz, mas o governo não é uma delas.

Não há nada de hediondo em não ser um anarquista. Alguns dos meus melhores amigos não são anarquistas. Eles não são, no entanto, também não afirmam serem anarquistas, como o reitor faz.

Eu poderia desferir alguns golpes baixos contra o reitor – cheguei a pensar em fazer isso, e acho que vou! Quantos dos seus discípulos vermelho-e-verdes sabem que ele antigamente era a favor de uma quantia modesta de energia nuclear? Energia solar, eólica e maremotriz devem ser exploradas ao máximo, mas “seria impossível estabelecer uma economia industrial avançada baseada exclusivamente em energia solar, energia eólica ou mesmo na energia das marés” (Herber, 1965: 193), e precisamos ter uma economia industrial avançada, isso não está em discussão. Assim, embora não devamos “nos comprometer demais ao uso de combustíveis nucleares”, as fontes de energia limpa não serão suficientes: “Estas lacunas serão preenchidas por combustíveis fósseis e nucleares, mas vamos empregá-los criteriosamente, sempre tendo o cuidado de limitar a sua utilização tanto quanto possível “(ibid.). Isso é reconfortante.

Seria também indecente da minha parte denunciar que esse mesmo livro de Bookchin (Herber, 1965: IX) inclui – este deveria primeiramente um livro anarquista – uma indicação de um membro de gabinete, o então Secretário do Interior Stewart L. Udall: “Crise em Nossas Cidades [Crisis in Our Cities] estabelece em um volume uma prova viva de que as doenças mais debilitantes do nosso tempo são o resultado de nosso persistente e arrogante abuso do nosso meio ambiente compartilhado… não podemos minimizar os investimentos necessários para o controle da poluição, mas como o Sr. Herber [Bookchin] documenta, as penalidades por não fazê-lo tornaram-se impensáveis.” Isto é, note-se, um convite à legislação e tributação que um anarquista de armário permitiu que adornasse um de seus livros. Há também um posfácio do Surgeon General dos Estados Unidos.

Apesar dessas lembranças provavelmente serem embaraçosas para o reitor, elas não são conclusivas contra ele. São seus próprios endossos explícitos ao Estado que são decisivos. Não, certamente, o Estado-Nação de proveniência européia moderna. Ele não gosta muito desse tipo de Estado. Este permite demasiada autonomia individual. Ele é apaixonado pela Cidade-Estado da antiguidade clássica e, ocasionalmente, o semi-auto-governo das “comunas” da Europa Ocidental pré-industrial. Nisso ele é uma reminiscência de Kropotkin, que propôs a ideia absurda de que o Estado não existia na Europa Ocidental antes do século XVI (cf. Bookchin, 1987: 33-34). Isso teria surpreendido e divertido William, o Conquistador, e seus sucessores, para não mencionar os monarcas franceses e espanhóis e as cidades-estado italianas comuns à Maquiavel – cujo Príncipe II claramente não foi dirigido à um político responsável pela base e delegado por meio de um mandato revogável, mas em vez disso, por um homem a cavalo, alguém como César Borgia.

Embora esta não seja a mais marcante das observações, o reitor continua mostrando-se realmente indignado com John Zerzan, resenhando seu The Rise of Urbanization [A Ascenção da Urbanização] e The Decline of Citizenship [O Declínio da Cidadania] (1987) apontou que a polis ateniense clássica romantizada “tem sido há muito tempo o modelo de Bookchin para uma revitalização da política urbana”, uma distorção a qual o reitor retruca indignadamente: “Na verdade, eu fiz um grande esforço para indicar as falhas da polis ateniense (escravidão, o patriarcado, os antagonismos de classe e a guerra)” (59 ). Ele pode ter tentado se redimir ao ser pego, mas na verdade indicou bem poucas falhas. O reitor fez, “de fato” apenas duas referências – não fez nem mesmo à escravidão enquanto um modo de produção, como uma realidade social, mas sim a atitudes em relação à escravidão (1987: 83, 87), como se o fato da maioria das cidades clássicas terem subjugado suas populações (Dahl, 1990: 1) fosse o resultado acidental de alguma peculiaridade psíquica coletiva, alguma estranha experiência de pensamento com mil anos de duração. O que Zerzan disse é só o que um dos admiradores do reitor coloca em termos mais fortes: “Bookchin nos exorta continuamente a ouvir novamente os gregos, em busca de recapturar a promessa do pensamento clássico e de compreender a verdade da Polis” (Clark 1982: 52 ; Clark, 1984: 202-203).

Todo historiador sabe que a escravidão em grande escala era uma necessidade para a cidade clássica (Finley 1959), embora o reitor tenha decretado que “a imagem de Atenas como uma economia de escravos que construiu a sua civilização e uma generosa visão humanista sobre as costas de humanos tratados como mercadoria é falsa” (1972: 159). (M.I. Finley – como o reitor, um ex-comunista [Novick 1988: 328] – é um dos historiadores aprovados por Bookchin [1989: 178].) Algumas das coisas que Zerzan escreve sobre a sociedade paleolítica podem ser conjecturais e criticáveis, mas o que ele escreve sobre Bookchin é pura reportagem. O reitor afirma claramente que “os ideais de cidadania posteriores, mesmo na medida em que foram modelados a partir do ateniense, parecem mais inacabados e imaturos do que o original – daí a discussão tão considerável que tenho estimulado à cerca do cidadão ateniense e seu contexto” (1987: 83). Talvez isso acontece porque as realizações ainda mais inacabadas e imaturas desses “ideais posteriores” carecem da combinação de imensa infra-estrutura escravista e de um império tributário, algoo que a Atenas clássica possuía. Louvores similares à cidadania ateniense tempera também os primeiros livros do reitor (1972: 155-159; 1974: cap. 1). Manifestamente, o que coloca uma pedra no sapato de Bookchin é que Zerzan teve a ousadia de ler livros de Bookchin, não apenas reverenciar seu ilustre autor, e Zerzan realmente esteve a par do que o reitor foi reiterando todos esses anos. O lado negativo de ser “sem dúvida, o escritor anarquista mais prolífico” (Ehrlich, 1996: 384) é deixar um rastro enorme de papel por onde passa.

Bookchin é um estatista: um cidade-estatista. A cidade-estado não é um anti-Estado. A Singapura contemporânea, por exemplo, é uma cidade-estado altamente autoritária. Os primeiros estados, na Suméria, eram cidades-estado. A cidade é o lugar onde o Estado se originou. As antigas cidades gregas eram todas estados, a maioria delas nem mesmo eram estados democráticos no limitado sentido ateniense da palavra. Roma deixou de ser uma cidade-estado para se tornar um império sem nunca ter sido um estado-nação. As cidades-estado da Itália renascentista eram estados, e apenas algumas delas, e não por muito tempo, foram democracias em quaisquer sentidos. De fato, a Veneza republicana, cuja independência durou mais tempo, surpreendentemente antecipou o moderno estado-polícia (Andrieux 1972: 45-55).

Numa perspectiva histórico-comparativa a nível mundial, a cidade pré-industrial, a não ser que fosse a capital de um império ou um estado-nação (caso em que era diretamente sujeita a um monarca residente), foi sempre sujeita a uma oligarquia. Nunca houve uma cidade que não fosse, ou que não fizesse parte de um Estado. E nunca houve um Estado que não fosse uma cidade, ou então que não tenha incorporado uma ou mais cidades. A cidade pré-industrial (o que Gideon Sjöberg chama de – uma má escolha de palavras – a “cidade feudal”) era a antítese da democracia, para não mencionar da anarquia:

O ponto central para o sistema de estratificação que permeia todos os aspectos da estrutura social da cidade feudal – a família, a economia, a religião, a educação, e assim por diante – é a preeminência da organização política… Reiteramos: a ordem feudal, ou pré-industrial civilizada, é dominada por um pequeno e privilegiado estrato superior. Este comanda as instituições fundamentais da sociedade. Seus altos escalões são mais frequentemente localizados na capital, as classes mais baixas residem nas cidades menores, geralmente nas capitais provinciais (Sjöberg 1960: 220).

Sjöberg antecipou a objeção: “E quanto à Atenas?” Escreveu, “embora a cidade grega fosse única para a época, em sua estrutura política, na verdade aproximava-se da típica cidade pré-industrial muito mais do que da ordem urbano-industrial” (ibid. : 236). Apenas uma pequena minoria dos atenienses eram cidadãos, e muitos deles eram analfabetos e/ou demasiado pobres para poder participar efetivamente, em sua totalidade, na política (Ibid .: 235). Logo, como sempre em cidades de todos os lugares, a política era uma prerrogativa da elite. A democracia “latente” de toda e qualquer república urbana (59) é algo que só Bookchin pode ver, assim como só Wilhelm Reich podia ver o orgônio sob o microscópio.

A distinção que o reitor tenta desenhar entre “política” e “arte de governar” (1987: 243 & passim) é absurda e auto-conveniente, para não mencionar que é uma grande mutilação do inglês comum. Mesmo que a política local seja uma versão mais gentil e suave da política nacional, ainda assim é a política, que tem sido bem, se não cinicamente, definida como “quem recebe o quê, quando, onde e como (Lasswell 1958).”

Não é justo que o reitor use uma terminologia idiossincrática para conciliar (de uma maneira totalmente desorganizada) anarquia com a democracia, ele é mais apoplético do que qualquer um jamais poderia ter pensado:

Mesmo a tomada de decisão democrática é descartada como autoritária. “A lei democrática ainda é a uma lei,” [L. Susan] Brown adverte… Os opositores da democracia como “lei” em contrário, não obstante, descrevem a dimensão democrática do anarquismo como uma administração majoritária da esfera pública. Assim, o Comunalismo busca a liberdade, em vez de autonomia no sentido em que eu os contraponho (17, 57).

Movendo-se ao longo de sua dedução incompreensível de que a democracia é democrática, Bookchin reclama ainda que “palavras pejorativas como ditar e mandar referem-se mais corretamente ao silenciamento dos dissidentes, não ao exercício da democracia” (18). A liberdade de expressão é uma coisa boa, mas não é democracia. Você pode ter uma sem a outra. A democracia ateniense que o reitor venera, por exemplo, silenciou democraticamente o dissidente Sócrates, colocando-o à morte.

Anarquistas “descartam” a tomada de decisão democrática, não porque é autoritária, mas porque é estatista. A “democracia” significa “governo do povo”. “Anarquia” significa “nenhuma governo.” São duas palavras diferentes porque se referem a (pelo menos) duas coisas diferentes.

Não tenho a pretensão – e para sustentar o meu ponto, eu nem mesmo precisaria – de afirmar que a caracterização do anarquismo como democracia direta generalizada pelo reitor não tem qualquer fundamento no pensamento anarquista tradicional. O anarquismo de alguns dos anarquistas clássicos mais conservadores de fato segue estas linhas – embora a versão de Bookchin, até em seus detalhes, em vez disso, é uma apropriação não reconhecida da declaradamente anti-anarquista Hannah Arendt (1958). Ironicamente, são os anarquistas que Bookchin menospreza por serem individualistas – como Proudhon e Goodman – que melhor representam esse tema anarquista. Foi o individualista egoísta Benjamin Tucker, que definiram um anarquista como um “democrata Jeffersoniano aterrorizado”. Mas outro tema respeitável que um anarquista com pedigree levantaria é que a democracia não é uma realização imperfeita da anarquia, mas sim a última trincheira do estatismo. Muitos anarquistas acreditam, e muitos anarquistas sempre acreditaram, que a democracia não é apenas uma versão extremamente deficiente de anarquia, mas sim que ela não é anarquia de forma alguma. De qualquer forma, não há “democracia direta cara-a-cara” (57) de que eu esteja ciente que tenha delegado ao camarada Bookchin (responsável pela base por meio de um mandato revogável) a autoridade para aprovar ou reprovar os anarquistas assim como ele costuma aprovar ou reprovar estudantes universitários.

Não é de forma alguma óbvio, e o reitor não demonstra isso em parte alguma, que local é sinônimo de amável e gentil – não quando local se refere a governo local. É plausível que, como James Madison argumentou, uma forma de governo grande e heterogênea é mais favorável à libertação do que uma “pequena república”, pois assim minorias locais podem encontrar aliados nacionais para combater a tirania majoritária local (Cooke, 1961: 351-353). Mas, afinal, como ele mesmo diz, o reitor não está interessado em liberdade (em seu jargão, autonomia [57]), mas apenas no que ele chama de liberdade social, a participativa servidão auto-ratificada dos moralistas doutrinados para uma micro política na qual eles funcionam como despretensiosas unidades-cidadão.

Meu propósito atual não é abranger a totalidade do Bookchinismo, mas sim caracterizá-lo como o que ele manifestamente é, como uma ideologia de governo – a democracia – e não uma teoria da anarquia. A “agenda mínima” de Bookchin – esta venerável palavra marxista, “mínima”, é sua, não minha (1987: 287) – é inequivocamente estatista, não anarquista. Os “princípios quádruplos”, os Quatro Mandamentos que ele exige que todos os anarquistas afirmem, embora a maioria deles não o façam, e nunca tenham feito, são:

… uma confederação de municípios descentralizados; uma oposição firme ao estatismo; a crença na democracia direta; e uma visão de uma sociedade comunista libertária (60).

Por algum capricho do destino, acontece do credo mínimo acredite-se-quiser anarquista de Bookchin ser logo seu próprio credo. Também acontece de ser um delírio incoerente. A “confederação de municípios descentralizados” contradiz “democracia direta”, já que uma confederação é, na melhor das hipóteses, uma democracia representativa, não uma democracia direta. Também contradiz “uma oposição firme ao estatismo”, porque uma cidade-estado ou um estado federal ainda é um estado. E, por exigir não “uma sociedade comunista libertária”, somente a visão de uma, o reitor claramente insinua que há mais para uma sociedade do que a obediência aos primeiros Três Mandamentos – mas exatamente o que mais, ele não diz. O reitor está relegando um estágio-superior da anarquia (a coisa real) a algum tempo futuro remoto, assim como os marxistas relegam o que eles chamam de estágio-elevado do comunismo para um futuro distante e nebuloso que parece, como uma miragem, cada vez mais distante.

Surpreendentemente, o reitor considera que uma cidade como Nova York (!) seja “em grande parte composta de bairros – isto é, em grande parte, comunidades orgânicas que têm uma certa medida de identidade” (1987: 246). (Ele tem escrito em outros lugares e de forma inconsistente que o mundo moderno “carece de cidades reais” [Bookchin, 1974: VIII].) Mas comunidade, “obviamente, significa mais do que, digamos, vizinhança” (Zerzan 1994: 157) – mais do que mera proximidade. E, obviamente, Bookchin esteve longe de sua cidade natal por um tempo muito longo, especialmente se civilidade e virtude cívica desempenhar qualquer papel na sua concepção de uma comunidade orgânica. Eu não recomendo que ele de um passeio a meia-noite em algumas dessas “comunidades orgânicas” se ele valoriza seu próprio organismo. Se o critério de uma comunidade orgânica é “uma certa medida de identidade”, muitos ricos subúrbios brancos estariam qualificados, embora Bookchin culpe-os pelos problemas centrais da cidade (1974: 73-74). Competitivas gangues juvenis territorialistas e violentas são as manifestações mais evidentes de comunidade em muitos bairros pobres e por outro lado atomizados dos bairros de Nova York, seus “coloridos bairros étnicos” (1974: 72) de sua memória de infância. Se segregação de raça-casta e segregação residencial de classe social é a idéia do que define comunidades orgânicas para o reitor, então comunidades orgânicas certamente existem em Nova York, mas não há muitas pessoas que vivam nelas, exceto os muito ricos, que estejam muito felizes com isso.

Embora a palavra “anarquismo” apareça em quase todas as páginas da invectiva do reitor, a palavra “anarquia” raramente ou nunca aparece. A ideologia, o ismo, é o que o interessa, e não a condição social, o modo de vida ao qual presumivelmente ela deveria nos guiar. Pode não ser uma escolha inadvertida de palavras que o que Bookchin estabelece, já que um de seus Quatro Mandamentos do anarquismo ortodoxo é “uma oposição firme ao estatismo” (60: grifo nosso), não uma oposição firme ao Estado. Como democrata, o reitor é, na melhor das hipóteses apenas capaz de uma oposição oscilante ao Estado, ao passo que uma rejeição abstrata a uma abstração, o “estatismo”, é fácil o suficiente de se admitir. E eu tenho certeza que não é por acaso que a sua investida ao mercado mainstreamdo Bookchinismo (Bookchin 1987a) em nenhuma parte identifica o reitor como um anarquista ou seus ensinamentos como qualquer tipo de anarquismo.

Uma outra trapaça Bookchinista – esta uma regressão flagrante ao marxismo (na verdade, ao St. Simonismo) – é a distinção entre “política” e “administração” (ibid .: 247-248). Política é feita, segundo ele, por ocasionais assembléias cara-a-cara às quais intelectuais insistentes como Bookchin são tão bons em manipular. Administração é para os especialistas, como no estágio-elevado do marxismo comunista, onde o “governo dos homens” é ostensivamente substituído pela “administração das coisas”. Infelizmente são os homens (e, geralmente, ainda são os homens) que governam a administração das coisas, e através da administração de pessoas como se fossem coisas, como governadores sempre governaram. Política sem administração não é nada. Administração, com ou sem a política é tudo. Stalin o Secretário-Geral, o administrador, entendeu isso, e dessa forma triunfou sobre Trotsky, Bukharin e todos os outros políticos-interessados-em-política que possivelmente, talvez, acreditavam em algo. “Política” é um eufemismo para o direito, e “administração” é um eufemismo para execução.

Exatamente que prática política este exímio ancião prescreve aos anarquistas? Sabemos com o que o municipalismo confederacional de alto-estágio se parece – homens de cérebros hipertrofiados aglomerando-se em reuniões – mas o que deve ser feito no aqui e agora? O reitor despreza esforços anarquistas existentes:

O esporádico, o assistemático, o incoerente, o descontínuo e o intuitivo suplantam o consistente, o intencional, o organizado e racional, de fato, qualquer forma de atividade sustentada ou focada que vá para além de publicar um “zine” ou um panfleto – ou por fogo em uma lata de lixo (51).

Então, nós não estamos publicando zines e panfletos como Bookchin costumava fazer, nem estamos queimando latas de lixo. Também não estamos experimentando a liberdade nas confraternizações coletivas temporárias que Hakim Bey chama de Zonas Autônomas Temporárias (20-26). Temos de nos organizar, mas Bookchin não indicou, nem mesmo como exemplo, em qual organização deveríamos nos engajar. E então?

Sobre este ponto, o reitor, geralmente tão detalhista, é alusivo e evasivo. Eu fui incapaz de localizar em qualquer um dos seus escritos qualquer formulação do “movimento social tão programático quanto ativista” o qual ele demanda (60). O que eu acho que ele está insinuando, com acenos e piscadelas, é a participação na política eleitoral local:

O município é uma bomba relógio em potencial. Para criar redes locais e tentar transformar as instituições locais que reproduzem o Estado [grifo nosso] é entrar em um desafio histórico – um verdadeiramente político – que existe há séculos… Nessas instituições municipais e nas mudanças que nós podemos fazer em sua estrutura – transformando-as cada vez mais em uma nova esfera pública – está a base institucional permanente para um duplo poder popular, um conceito de cidadania de base, e sistemas econômicos municipalizados que podem ser contrapostos ao crescente poder do Estado-Nação centralizado e das corporações econômicas centralizadas (Bookchin 1990: 12).

Quando o Reitor fala de transformar as instituições locais existentes, quando ele fala de “as mudanças que podemos fazer em sua estrutura”, ele só pode estar se referindo à participação na política local como na verdade já vem acontecendo nos Estados Unidos e Canadá – sendo eleito ou sendo nomeado por aqueles que já conquistaram sua eleição. Isso é exatamente o único movimento político Bookchinista do mundo, Dimitri Roussopoulos, chefe do Black Rose, um grupúsculo ecológico de Montreal (Anônimo, 1996: 22) tem tentado, e, felizmente, falhado nessa empreitada. Você pode chamar isso de qualquer coisa que você quiser – exceto de anarquista.

Para resumir: o reitor Bookchin é um estatista.

**O uso do termo “reitor” para se referir à Murray Bookchin é devido ao fato deste ter fundado e liderado o Instituto para a Ecologia Social (Institute for Social Ecology) em Plainfield, Vermont – EUA.

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Autor: Bob Black
Fonte: Anarchy After Leftism – Cap. 5: Murray Bookchin, Municipal Statist
Tradução: Carlos Teixeira